Indústria portuguesa ataca Mittelstand alemão com fiabilidade e talento

Com apoio político e cheque de quatro milhões, 109 empresas vão à maior feira industrial do mundo em Hannover para somar “centenas de milhões” às exportações e captar investimentos de PME alemãs.

Portugal prepara-se para invadir Hannover durante quatro dias, aproveitando o estatuto de país parceiro na edição de 2022 daquela que é a maior feira industrial do mundo. Uma comitiva composta por 109 empresas de diversos setores — mais do que triplica as três dezenas que, em média, participaram nos anos anteriores e que estavam concentradas na vertente da subcontratação e na metalomecânica mais tradicional — vai mostrar em solo germânico o “talento, inovação, qualidade e fiabilidade” da indústria nacional em áreas mais tecnológicas, ligadas à engenharia e maquinaria, automação, energia e serviços digitais.

Com mais negócios e setores representados na Hannover Messe (HM’22), o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) crê que esta ação de promoção “pode representar resultados na ordem das centenas de milhões de euros de exportações nos próximos cinco anos para a indústria portuguesa” e ajuda a captar mais investimento para o país, seja em capacidade industrial ou em centros de competências. Em 2021, a Alemanha foi o segundo país que mais investiu em Portugal, equivalendo a 17% do montante global de IDE. Em declarações ao ECO, Luís Castro Henriques frisa que quer “manter esse círculo virtuoso”, mas também “angariar mais clientes novos”.

“Um outro objetivo a mais médio e longo prazo é contribuir para o aumento da notoriedade de Portugal. Hoje em dia já temos mais de 550 empresas alemãs a investir em Portugal e queremos chegar a mais, queremos que a perceção do industrial alemão — principalmente do que chamam de Mittelstand, que são empresas de média e pequena dimensão — mude em relação a Portugal e passem a considerar o país como parceiro de negócios para comprar ou desenvolver projetos em conjunto”, acrescenta o líder da agência pública, que coordena a participação nacional com a associação do metal (AIMMAP) e a CCILA – Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã.

Já temos mais de 550 empresas alemãs a investir em Portugal e queremos chegar a mais, queremos que a perceção do industrial alemão — principalmente do que chamam de Mittelstand, que são empresas de média e pequena dimensão — mude em relação a Portugal.

Luís Castro Henriques

Presidente da AICEP

O encontro tem uma forte componente política, com o primeiro-ministro, António Costa, a deslocar-se no domingo e na segunda-feira a Hannover para inaugurar o certame ao lado do chanceler alemão, Olaf Scholz. As 93 pequenas e médias empresas (PME) participantes tiveram ajudas diretas no valor de 1,2 milhões de euros (o apoio difere consoante o investimento na feira, podendo ir até 45%), através de um projeto conjunto entre a agência do Estado e a AIMMAP. À parte desse valor, aquela que é descrita como a maior operação de promoção da última década custa cerca de três milhões de euros, aplicados em várias rubricas.

  • A construção e manutenção dos quatro pavilhões de Portugal: nos Hall 2 (Central, 1.584 m2), Hall 3 (Engineering Parts and Solutions, 216 m2), Hall 5 (Digital Ecosystems, 200 m2) e Hall 13 (Energy Solutions, 203 m2)-
  • Um intenso programa de conferências transmitidas em streaming e mais de 100 apresentações em formato pitch por parte de empresas portuguesas, a decorrer nos quatro pavilhões de Portugal ao longo dos quatro dias da feira.
  • Uma campanha de comunicação de larga escala, quer através dos formatos presenciais (por exemplo, comunicação estática no recinto), quer através de campanhas digitais, em especial dirigidas ao público alemão.
  • Uma componente cultural constituída por dois espetáculos: um momento cultural na cerimónia de abertura com um espetáculo a cargo de OCubo e um momento de networking na Portugal Partner Country Night, a 1 de junho, com um Djing Live Act assegurado pelos Beatbombers.

Com o lema “Portugal faz sentido”, a comitiva nacional, que é a segunda mais numerosa a chegar do estrangeiro, a seguir à italiana, vai estar em destaque com diferentes clusters: dos equipamentos e da metalomecânica, da mobilidade, dos setores automóvel e aeronáutico, dos têxteis e plásticos técnicos, dos moldes, das tecnologias de produção, tecnologias digitais e das energias renováveis. Haverá uma aposta no digital, nas soluções para a indústria 4.0 e no tema da sustentabilidade, com a apresentação de produtos e soluções com tecnologias inovadoras, em particular nas áreas do hidrogénio verde, smart cities, smart materials, smart manufacturing, IoT industrial, inteligência artificial e realidade aumentada.

Luís Castro Henriques, presidente da AICEPINÁCIO ROSA/LUSA

Luís Castro Henriques particulariza, por outro lado, que o principal fator diferenciador do país é “um talento altamente qualificado e capacitado, multilíngue e com vontade de trabalhar em ambientes multinacionais”. E tem debaixo da língua algumas estatísticas para “surpreender” os interlocutores alemães, como Portugal ser o terceiro país com maior taxa de engenheiros na Europa, em proporção da população; quase 60% do consumo de eletricidade no país ter vindo de energias renováveis em 2021; ou mais de 30% das exportações nacionais serem de metalomecânica e componentes automóveis.

Há poucos dias, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sobretudo a propósito do turismo, disse que Portugal pode ser um “beneficiário líquido” da guerra no leste europeu, pela distância geográfica do país face à Ucrânia. Também poderá beneficiar nesta área do investimento industrial? “Já existia uma tendência, aliás ampliada pela pandemia, para assegurar resiliência nas cadeias de valor. Quanto maior o cenário de incerteza, naturalmente intensificado pela guerra, maior a necessidade de optar por destinos de diversificação, o que, para muitas empresas alemãs e não só, pode ser Portugal”, concorda o presidente da AICEP.

A Alemanha é o terceiro maior cliente de mercadorias portuguesas. Em 2021, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), as exportações de bens para aquele destino totalizaram quase 7.000 milhões de euros, ficando 9,7% acima do ano anterior. Máquinas e equipamentos são os produtos mais vendidos, com destaque para os automóveis de passageiros e outros veículos de transporte.

Por outro lado, as compras de Portugal aos alemães, dominadas por máquinas e aparelhos, produtos químicos e veículos, ascenderam no ano passado a 10.304 milhões de euros (+13,4% face ao período homólogo). Ao contrário do que acontece nos bens, no caso dos serviços, categoria em que está incluído o turismo, a balança comercial foi amplamente favorável às cores nacionais, com um excedente de 1.534 milhões de euros.

(O jornalista viajou para Hannover a convite da Siemens)

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