BRANDS' PESSOAS Promova Talks: “Talvez daqui a 100 anos consigamos ter uma efetiva igualdade de género”

  • PESSOAS + CIP
  • 2 Setembro 2022

Erica Alves Pereira, da Randstad Portugal, é a segunda convidada do Promova Talks II. As diferenças salariais e a procura de profissionais por género são dois dos problemas apontados pela responsável.

No “Dia Internacional da Igualdade Feminina”, o ECO lançou o segundo episódio da temporada II do “Promova Talks”, o espaço de debate do Projeto Promova, que visa sensibilizar as empresas para o tema da igualdade de género. Este projeto é uma iniciativa da CIP – Confederação Empresarial de Portugal – e pretende alargar o acesso das mulheres a cargos de liderança nas empresas portuguesas.

A segunda convidada desta série de podcasts foi Erica Alves Pereira, Associate Director na Randstad Portugal, que, apesar de afirmar que já se tem observado melhorias neste tema, confessa que não são suficientes, uma vez que ainda continuam a existir desigualdades, a começar pelas diferenças salariais entre homens e mulheres que desempenham o mesmo cargo. Veja a entrevista completa abaixo.

1. Como vê este tema da igualdade de género no recrutamento atual?

Infelizmente, ainda continuamos a depararmo-nos com alguma seleção daquilo que é procurado no mercado de trabalho. Por exemplo, temos algumas situações em que nos são pedidos elementos do género masculino para algumas posições (em alguns casos porque a equipa é maioritariamente feminina e querem ter um elemento masculino para equilibrar), como também, noutra tipologia de funções, nos pedem elementos do género feminino.

Nós, enquanto empresa de recrutamento e responsável pela equidade, inclusão, diversidade e abrangência na oportunidade daquilo que são todas as ofertas de trabalho, nunca poderemos incorrer ou aceitar que tal pedido seja tido em consideração no desenvolvimento dos nossos processos, mas infelizmente isso ainda acontece. Portanto, aquilo que nós fazemos sempre é mostrar que o nosso trabalho é desenvolvido com base nas competências de todo o talento que existe no mercado e que não nos vamos cingir nunca ao seu género.

Portanto, eu diria que ainda estamos um bocadinho longe porque continuamos a ter empresas que pedem elementos de um género específico em detrimento daquilo que são as suas competências. Já estivemos mais longe, é verdade, mas acho que, face ao período atual, poderíamos estar já muito mais avançados. Portanto, ainda há muito trabalho a fazer relativamente a este ponto.

2. A Randstad elenca que tem como missão moldar o mundo do trabalho através de novas soluções de recursos humanos. Neste âmbito, que caminho pretendem percorrer na temática da igualdade de género?

A Randstad posiciona-se de uma forma muito mais abrangente, ou seja, nós temos como missão assegurar a equidade e a diversidade de género, do ponto de vista da igualdade na diversidade e na atração, mas também na contratação e na compensação. Portanto, aquilo que vai ser o nosso guidance para a promoção será sempre a competência.

A nossa empresa tem 58% de elementos masculinos com direct report ao management team e apenas 42% de mulheres. Mais uma vez, o foco de progressão é sempre a competência. No entanto, temos vindo a fazer aqui um caminho muito eficaz para promover e dar oportunidade de aumentar o número de mulheres nestes cargos de gestão. O nosso objetivo é sempre desenvolver e manter uma cultura de inclusão e justiça, onde não só os colaboradores da Randstad, mas também todos os candidatos, se sintam valorizados por todas as suas ideias, experiências e perspetivas.

Aliás, nós temos um survey quinzenal, que é aplicado a todos os colaboradores Randstad, e no driver da “não discriminação”, numa escala de 1 a 10, nós, internamente, avaliamos como 8,7. Portanto, isto representa toda a visão que a equipa Randstad tem sobre o trabalho que é desenvolvido pela empresa. Nesse campo, esta é a nossa missão fundamental e acreditamos que fazemos toda a diferença, não só para com as nossas pessoas, mas também com todo o mercado de talento com quem nós diariamente comunicamos.

3. Tendo sido participante do Projeto Promova, um projeto desenvolvido para diminuir o gap da igualdade de género da gestão de topo das empresas, o que acha que as empresas podem fazer para atenuar esta discrepância? Acha possível que em todos os setores de atividade se atinja esta meta?

Embora já tenhamos sentido algumas melhorias nesta discrepância, ainda estamos a anos-luz de termos, efetivamente, uma igualdade. Fala-se que talvez daqui a 100 anos consigamos ter uma efetiva igualdade de género, mas eu diria que o primeiro passo seria diminuirmos os gaps salariais dentro das mesmas funções. Isto porque continuamos a assistir a situações em que elementos do género feminino que estejam em funções similares às do género masculino estão a auferir valores inferiores.

Além disso, também era importante haver uma seleção imparcial e completamente focada no desempenho e, aqui, o papel do CEO e dos líderes dos recursos humanos são fundamentais para conseguirmos que exista uma isenção na seleção do talento. Ao mesmo tempo, também devem existir algumas ações mais abrangentes do ponto de vista da diversidade e do combate ao preconceito por todos os funcionários. Nós tentamos divulgar toda esta componente da diversidade e da igualdade de género, mas, no fim do dia, é toda uma organização que tem de estar envolvida.

Toda a organização tem que entender como são feitos os processos de seleção, como são feitos os processos de progressão e todos devem compreender por que determinada pessoa deverá ocupar aquele lugar e esta pessoa também tem que sentir que é justo estar a ocupar aquele lugar. Estas ações de formação, não só de uma vertente de género, mas também numa componente de inclusão e diversidade, fazem toda a diferença para uma empresa conseguir atrair, ser mais criativa, mais inovadora e trabalhar para a sociedade de uma forma muito mais positiva e agregadora.

4. E a nível pessoal, que impacto teve este projeto na sua vida?

Quando nos envolvemos num projeto como o Promova, sendo um projeto para mulheres, acima de tudo envolvemo-nos como mulheres. E, como mulheres, filhas, mães, esposas, estes papéis são tão principais como o de sermos mulheres profissionais, que também é um papel que todas queremos que seja exímio, sem margem para qualquer erro.

Houve muitos momentos de partilha e é ótimo podermos ter um ambiente seguro e muito confortável dentro do projeto Promova, isso tenho que ressalvar. Em termos pessoais, acho que nos ajuda a olhar para dentro e percebermos a importância que temos que dar ao equilíbrio da nossa vida pessoal e profissional.

Esta partilha também foi fundamental para percebermos que não vamos conseguir ser heroínas nos dois lados. As nossas responsabilidades têm que ser partilhadas, portanto, eu diria que este projeto me ajudou muito a olhar para dentro, a gerir melhor o meu tempo, a valorizar mais aquilo que são as minhas capacidades do ponto de vista pessoal e profissional e, com isso, ser melhor pessoa.

5. Que mensagem gostaria de deixar às futuras participantes deste Projeto Promova?

Acima de tudo, diria para aproveitarem ao máximo o programa e todos os insites que vão conseguir obter, quer dos professores, quer de todos os gestores de projeto que estão afetos ao programa, quer de todas as participantes. Que usufruam muito de todos os momentos de networking e de partilha.

Criem este ambiente de segurança, que é fundamental para que haja uma maior partilha e com mais transparência. Confiem umas nas outras porque isso é essencial para que consigamos dar tudo e receber ainda mais e, por fim, não nos esquecermos que somos mulheres, que temos inúmeras competências e que devemos valorizar-nos a nós próprias acima de tudo. Nunca tenham medo ou receio de dar uma opinião. Não pensem muito porque, às vezes, quando pensamos muito, depois acabamos por não dar o passo. Por isso, não pensem muito e confiem nos vossos instintos.

O Projeto Promova conta com o apoio da ANA Aeroportos, da EDP, da Randstad e da SONAE.

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