Rede europeia de oncologia quer comunicar a “uma só voz”. Ana Varges Gomes lidera comunicação

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Portugal vai ser responsável pela comunicação da maior colaboração europeia já lançada na área da saúde no âmbito do Plano Europeu de Luta contra o Cancro. Ana Varges Gomes explica a estratégia.

Portugal vai assumir o papel de liderança, na área da comunicação, da European Network of Comprehensive Cancer Centres (EUnetCCC). O consórcio, parte integrante do Plano Europeu de Luta contra o Cancro, tem como objetivo melhorar a prevenção, o diagnóstico precoce, o tratamento e a qualidade de vida de doentes oncológicos e sobreviventes.

Na linha da frente deste esforço europeu — que reúne mais de 160 organizações parceiras de 31 países — está Ana Varges Gomes, médica oncologista na Unidade Local de Saúde do Algarve (ULSA), que irá liderar o Work Package 2 de Comunicação do EUnetCCC. É assim responsável por coordenar a estratégia europeia de comunicação e disseminação da iniciativa, assegurando o envolvimento, a visibilidade e a partilha eficaz de resultados entre todos os países participantes.

Concedendo desde logo que a comunicação “é sempre uma das áreas mais complexas, seja qual for a instituição ou projeto, porque toda a gente quer comunicar”, Ana Varges Gomes entende que o primeiro desafio passa desde logo por “colocar o grupo todo a comunicar a uma só voz”.

“Cada um que faz o seu trabalho quer comunicá-lo, o que é normal. Por isso, é complexo ter uma comunicação a uma só voz, dentro de uma rede tão grande, com mais de 160 parceiros de 31 países diferentes. Colocar toda a gente a comunicar a uma voz só é o maior desafio“, diz ao +M.

E a uma só voz não quer dizer que só uma pessoa é que fala. O que acontece é que chega até nós toda a informação e compete-nos calendarizar e divulgar essa informação. E isto às vezes é difícil, porque as pessoas têm a tendência de quererem comunicar logo algo que sai de uma reunião ou de um trabalho, e às vezes temos de dizer que não pode ser, que primeiro tem de ser divulgada uma outra coisa, ou porque é mais importante ou porque naquela altura faz mais sentido. Tem de haver um plano senão depois a comunicação é confusa”, acrescenta.

Outro desafio que estará sempre presente ao longo do projeto, e da sua liderança até 2028, é a questão das diferentes línguas faladas na Europa. “Outro grande desafio é que a mensagem faça sentido em todas as línguas. Às vezes pensamos, por exemplo, algo em português e vemos que resulta muito bem, que é um claim espetacular, só que depois nas outras línguas não resulta, não tem impacto nenhum. É um grande desafio, conseguirmos ter o mesmo impacto em todas as línguas“, aponta Ana Varges Gomes.

Com uma carreira de mais de 15 anos em oncologia, Ana Varges Gomes já desempenhou cargos de liderança em diversas organizações nacionais e internacionais ligadas ao cancro, tendo presidido ao Conselho de Administração do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA) e integrado vários comités europeus, incluindo a European Organisation for Research and Treatment of Cancer (EORTC) e a European Head and Neck Society (EHNS), do qual é membro fundador.

Foi também responsável pela criação da campanha internacional “Make Sense”, dedicada à consciencialização para o cancro da cabeça e pescoço, que foi recentemente distinguida como Best Cancer Awareness Initiative 2025 — Europe pela revista Global Health & Pharma.

Sobre este novo desafio, assume que é uma “responsabilidade grande” mas também um “reconhecimento da competência que Portugal tem vindo a conquistar”. Liderar a comunicação deste projeto significa também “ajudar a construir uma forma de comunicar sobre o cancro na Europa, com uma linguagem que permita unir todos os países em torno do mesmo objetivo, que no fundo é reduzir as desigualdades e ajudar a que todos os cidadãos europeus tenham a mesma prestação de cuidados oncológicos de excelência“.

A ação da equipa de comunicação do programa, que vai até 2028, assenta em três pilares — sensibilizar, envolver e partilhar — que são o “princípio de tudo” e a partir dos quais se vão desenvolver as estratégias específicas para cada um, como campanhas de sensibilização ou ações junto do Parlamento Europeu, por exemplo.

A EUnetCCC encontra-se dividida entre nove grupos de trabalho, dentro dos quais surgem várias ideias nas diferentes áreas. Cabe depois à equipa de comunicação — liderada por Ana Varges Gomes e que conta com um total de uma dezena de pessoas com diversas valências (desde a informática à comunicação) — “coordenar essas ideias, ver o que faz, ou não, sentido e alinhar isso com as mensagens-chave que o projeto quer transmitir“.

No fundo, recebemos ideias de todos os grupos de trabalho, priorizamos e criamos momentos de comunicação que façam sentido, às vezes alinhados com datas importantes, em que faça mais sentido comunicar“, sintetiza.

A comunicação é feita sempre para todos os países, sendo que os diferentes parceiros ajudam na tarefa da tradução, “porque há coisas que não podem ser traduzidas à letra e que têm de ser adaptadas à realidade de cada um dos países, que não estão todos no mesmo patamar“, refere a médica oncologista.

Ana Varges Gomes exemplifica esta ideia com o caso de em Portugal haver uma grande taxa de cobertura vacinal, o que é uma “raridade em toda a Europa”, existindo outros países com taxas de vacinação muito baixas. Nesse sentido, a comunicação, “apesar de poder ser feita por causa da vacina do HPV como fator de prevenção de cancro, tem depois de ser adaptada a estas diferentes realidades específicas”, explica.

Há sempre também um desafio na comunicação que é o da diferença entre aquilo que se quer comunicar e aquilo que depois é percebido. Neste caso, há ainda a questão da tendência que os profissionais de saúde têm de falar uma linguagem própria que a maioria do público não percebe, pelo que é necessário ter sempre essa atenção para se falar uma linguagem que seja universal“, acrescenta.

Ana Varges Gomes não tem formação específica em comunicação, mas já conta com experiência relacionada com a área. “Gosto muito de comunicar, tenho a preocupação de comunicar numa linguagem clara e tenho a experiência de ter feito campanhas de sensibilização para o cancro da cabeça e pescoço, desde 2011 até agora”, aponta.

Eu gostava que Portugal, neste projeto, ficasse lembrado como um país que ajudou a dar voz à Europa da saúde. Uma Europa mais informada, mais solidária, mais próxima dos cidadãos. Se conseguimos isso, acho que já cumprimos“, conclui.

A EUnetCCC pretende construir uma rede europeia sustentável de Centros Compreensivos de Cancro — centros de referência que integram cuidados oncológicos de elevada qualidade, investigação e educação –, que servirá como uma infraestrutura estratégica para apoiar os Estados-Membros no reforço dos sistemas nacionais de cancro, reduzindo desigualdades e promovendo cuidados oncológicos “inovadores e de excelência”.

O objetivo passa por ligar e certificar 100 Centros Compreensivos de Cancro (CCCs) em toda a Europa até 2028, garantindo que 90% dos doentes elegíveis tenham acesso a cuidados de elevada qualidade, reforçando simultaneamente a investigação e a educação. Com um orçamento total de 112 milhões de euros, incluindo 90 milhões de euros de cofinanciamento europeu, trata-se da maior iniciativa de saúde alguma vez apoiada pela Comissão Europeia.

A iniciativa assenta em cinco objetivos estratégicos, que passam desde logo por estruturar uma rede europeia sustentável de Centros Compreensivos de Cancro, definir e implementar um modelo europeu de certificação para os CCCs e promover o reforço das capacidades e reduzir as desigualdades, fornecendo “ferramentas práticas, oportunidades de formação e apoio entre pares para ajudar os centros oncológicos a cumprir as normas da EU e a superar as disparidades em termos de recursos”.

Reforçar a partilha de conhecimentos e a colaboração temática, bem como garantir a sustentabilidade a longo prazo e a sua integração nas políticas nacionais de combate ao cancro são outros dos objetivos.

A rede será oficialmente lançada na reunião anual da EUnetCCC, em Paris, nos dias 6 e 7 de novembro, onde será feito também o alinhamento estratégico entre as instituições da UE, os Estados-Membros e os prestadores de cuidados oncológicos.

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