Como vai a inteligência artificial mudar as notícias?
O acesso às notícias através da inteligência artificial e o aumento da procura por verificação são algumas das previsões dos especialistas ouvidos pelo Reuters Institute.
A inteligência artificial (IA) já está a moldar o presente do jornalismo. Mas que impacto poderá ter ao longo deste ano de 2026? O Reuters Institute For The Study of Journalism (Reuters Institute) consultou 17 especialistas do setor para traçar o panorama.
As cinco principais tendências são o acesso de notícias através da inteligência artificial, o aumento da procura por verificação, as mudanças nas redações causadas pela automação e pelos agentes de IA, a melhoria de competências da redação em lidar com esta tecnologia e as vantagens que pode dar aos jornalistas de dados.
A maioria das previsões dos especialistas concentrou-se na ideia de que o público utiliza cada vez mais chatbots com inteligência artificial generativa, motores de busca ou outras ferramentas baseadas em IA para pesquisar informação.
Em resposta a este cenário, Gina Chua, executive editor at large do portal norte-americano Semafor, antecipa que “algumas redações apostarão na reputação da marca, em jornalistas ‘estrela’ e na voz da redação para construir relações diretas com leitores leais”. Exemplifica ainda que outras vão querer tornar o trabalho mais eficiente, de forma a aumentar a produção, e algumas irão fornecer interfaces do tipo chatbot aos utilizadores.
Por sua vez, Ezra Eeman, diretor estratégico e de inovação do serviço público holandês NPO, considera que “para os editores, as opções são limitadas. Adotar assistentes de IA e descobrir como as citações fazem parte de um novo modelo económico, ou oferecer exclusividade e relevância para além do resumo“, são algumas das opções.
A credibilidade é outro dos aspetos que os especialistas ouvidos defendem que vai permitir destacar um meio noticioso de outro. Os leitores vão querer evidências e fontes para corroborar o que é dito online.
“As organizações de notícias geralmente tinham uma tolerância muito baixa para qualquer alteração digital de imagens ou vídeos que publicam, mesmo antes do advento da IA generativa. Agora que qualquer pessoa pode criar, de forma fácil e barata, imagens/vídeos sintéticos fotorrealistas, deixando poucas provas no processo, é cada vez mais difícil manter o mesmo padrão jornalístico“, alerta o head of AI & Visual Strategy da divisão editorial do jornal financeiro japonês Nikkei. Na sua opinião, a indústria vai “finalmente” levar “a sério” o investimento em ferramentas para verificar conteúdo visual.
“A adoção de soluções disponíveis, como o C2PA [protocolo aberto que estabelece a origem e as edições do conteúdo digital], tem sido dolorosamente lenta por várias razões. Mas ainda temos tempo para preservar o papel do jornalismo visual como prova e evitar o dividendo do mentiroso”, conclui.
Outro dos impactos será na publicação de notícias. Os especialistas consideram que a publicação de alguma informação vai tornar-se automatizada e realizada pelos agentes, com as histórias a serem automaticamente atualizadas. “O tão discutido conceito de ‘human in the loop‘ pode ser discretamente abandonado“, pode ler-se no artigo.
“Em 2023-24, muitos produtores de notícias automatizaram tarefas individuais de redação, como resumir artigos, gerar títulos, redigir newsletters, edição de texto e afins — frequentemente implementadas através de ‘kits de ferramentas de IA’. Isto produziu algumas eficiências úteis. Mas, por volta de 2025, os limites da ‘automação de tarefas’ tornaram-se evidentes. As poupanças de tempo e dinheiro são dececionantes e a IA focada em tarefas pareceu um beco sem saída estratégico”, declara o consultor David Caswell.
Nesse sentido, antevê que as redações vão apostar mais em utilizar os modos de raciocínio dos agentes de IA, isto é, em “processos que compreendem objetivos amplos, fazem perguntas de esclarecimento e, em seguida, executam as diversas tarefas individuais necessárias para atingir esses objetivos”.
O investimento em infraestrutura e formação para utilizar a inteligência artificial ao seu máximo será outra das apostas das redações. No entanto não será o único efeito. A IA irá permitir ainda às redações reunir e organizar um número sem precedentes de documentos. Mas isso vai envolver mais trabalho prévio das redações.
“Uma grande promessa da IA para os repórteres é que lhes permitirá vasculhar documentos em grande escala. Mas para encontrar uma agulha, primeiro é necessário montar um palheiro. E a recolha proativa de dados potencialmente noticiáveis para análise não é algo que a maioria das organizações de notícias tenha feito historicamente“, contextualiza Martin Stabe, editor de dados, do The Financial Times.
A monetização dos conteúdos vai ser um assunto em cima da mesa. Katharina Schell, editora chefe adjunta da agência noticiosa Austria Presse Agentur, antecipa que “o potencial da IA na produção de media foi em parte sobrestimado e em parte já explorado, mas a monetização de conteúdos torna-se um desafio cada vez mais agudo. Mesmo as empresas de media que têm sido relutantes até agora considerarão acordos de conteúdos com plataformas de IA em 2026“.
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