Dano colateral ou arma para as exportações? Como Trump tirou força ao dólar

A nota verde perde 5% desde que Trump tomou posse. A divisa foi penalizada pelos receios em torno das tarifas, mas o papel geopolítico menos fiável dos EUA também pode causar mossa ao dólar.

A moeda norte-americana tem perdido força desde que Trump regressou pela segunda vez à Casa Branca. O índice que mede o desempenho do dólar face às principais divisas mundiais cedeu quase 5%. E, apesar de alguma estabilização nas últimas sessões, os investidores têm mostrado cautela sobre as perspetivas para a moeda dos EUA devido aos efeitos das guerras comerciais lançadas pela Casa Branca. Será esta desvalorização do dólar algo bem recebido pelo presidente americano ou o ceticismo dos investidores poderá estar a sinalizar alguns motivos de preocupação?

É um facto que Donald Trump tem defendido um dólar mais fraco como forma de tentar estimular as exportações da maior economia do mundo, diminuindo assim o défice comercial dos EUA. No entanto, a descida da nota verde pode estar também associada aos receios dos investidores sobre os eventuais danos colaterais causados pela guerra comercial. Além disso, há já quem questione se a retórica mais forte de Washington com aliados históricos poderá levar a uma erosão do papel internacional do dólar.

Nos últimos dois meses, o dólar tem recuado devido à conjugação de vários fatores. Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, indica ao Eco que as expectativas sobre a política monetária da Reserva Federal, a desaceleração economia dos EUA, a perceção de poder de compra, as políticas protecionistas da administração Trump, a incerteza política na maior economia do mundo e a diversificação das reservas internacionais por parte de outros países estão na base da desvalorização da nota verde.

Ainda assim, apesar da fraqueza das últimas semanas, Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe, salienta que a divisa americana “continua acima dos mínimos registados no ano passado”.

O “período de transição” e o risco de recessão

A imprevisibilidade das políticas de Washington tem levado a algumas oscilações no sentimento nos mercados financeiros. Se após a eleição de 5 de novembro de 2024, tanto as bolsas como o dólar aparentaram beneficiar com a vitória de Trump, após a tomada de posse as dúvidas começaram a surgir. A chuva de anúncios de tarifas aduaneiras aplicadas a produtos vindos dos principais parceiros comerciais aumentou os receios de que esse tipo de políticas leve a uma recessão. Aliás, a própria Casa Branca admite esse cenário, com Trump a reconhecer que, apesar de não gostar desse tipo de previsões, a economia americana pode ter de passar por um “período de transição”.

Uma economia mais fraca pode obrigar a Reserva Federal dos EUA a acelerar no corte de taxas de juro, o que tenderia a tirar força ao dólar. “Se o mercado antecipa cortes nas taxas de juro por parte da Fed, o dólar tende a desvalorizar-se. Taxas mais baixas reduzem o diferencial de rendimento entre ativos denominados em dólares e outras moedas, tornando o dólar menos atrativo para investidores globais”, explica Paulo Monteiro Rosa.

Além de uma eventual fraqueza da economia poder forçar a Fed a baixar juros, o banco central enfrenta ainda pressão política para seguir esse caminho. Logo após Jerome Powell ter decidido manter as taxas de juro nos EUA na passada reunião de 19 de março, Donald Trump escreveu na sua rede social que “a Reserva Federal estaria muito melhor se reduzisse as taxas, à medida que as tarifas dos EUA começam a fazer a transição para a economia”. Numa reedição do que já fizera no primeiro mandato, o presidente dá sinais de querer fazer uma marcação cerrada a Jerome Powell, testando a independência do banco central.

In dollar we trust?

A descida do dólar nas últimas semanas até pode servir alguns dos objetivos de Trump. Mas a forma como o presidente vê o papel da divisa começa a levantar questões. “O problema para a nova administração é que quer ao mesmo tempo um dólar mais fraco, um défice comercial reduzido, entrada de capitais e que o dólar permaneça a moeda essencial nas reservas e pagamentos internacionais”, disse Steven Englander, analista do Standard Chartered, numa nota de investimento citada pelo Financial Times.

Para a administração Trump, uma moeda mais fraca pode ser positiva no curto prazo, pois torna as exportações mais competitivas e favorece a indústria nacional — alinhando-se com a sua política protecionista. No entanto, pode ser negativa se minar a confiança dos investidores, aumentar a inflação e acelerar a desdolarização, o que enfraquece a posição global dos EUA a longo prazo.

Paulo Rosa

Economista sénior, Banco Carregosa

Paulo Monteiro Rosa salienta que “para a administração Trump, uma moeda mais fraca pode ser positiva no curto prazo, pois torna as exportações mais competitivas e favorece a indústria nacional — alinhando-se com a sua política protecionista. No entanto, pode ser negativa se minar a confiança dos investidores, aumentar a inflação e acelerar a desdolarização, o que enfraquece a posição global dos EUA a longo prazo”.

A nota verde continua a ser a trave-mestra do sistema financeiro e económico global, algo que ajudou os EUA a consolidarem o seu estatuto de maior potência geopolítica do mundo. Porém, Trump tem dado fortes sinais de querer reequacionar alianças históricas e reescrever a ordem geopolítica global existente nas últimas décadas. O exemplo mais claro disso foi a reunião de 28 de fevereiro na Casa Branca entre o presidente americano e Volodymyr Zelensky, que tornou claro para a Europa e para a Ucrânia que a relação com os EUA tinha mudado.

"Se queres que o Tio Sam te venha salvar, compras aviões F-35 e dólares como ‘segurança’. Mas quem confia ainda na palavra de Trump e, consequentemente, da América?”

Steven Everts

Diretor do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia

Essa menor fiabilidade dos EUA como aliado estratégico pode passar uma fatura ao dólar. Steven Everts, diretor do Instituto de Estudos de Segurança da UE, defendeu, numa análise que “como ficou muito bem demonstrado pelo economista Barry Eichengreen, são precisamente os países mais dependentes dos EUA para a sua segurança (Japão, Coreia do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, etc) que têm a maior parte das suas reservas em dólares. Em resumo: se queres que o Tio Sam te venha salvar, compras aviões F-35 e dólares como ‘segurança’. Mas quem confia ainda na palavra de Trump e, consequentemente, da América?”. Steven Everts defende que estas questões em torno do dólar fazem com que este seja o momento para os líderes da UE expandirem o papel internacional do euro.

Também Steven Kamin, investigador do American Enterprise Institute e antigo diretor da Fed, e Mark Sobel, responsável do Fórum Oficial de Instituições Monetárias e Financeiras, defenderam, num artigo, que “dada a crescente desconfiança em relação à gestão das fundações económicas e geopolíticas por parte dos EUA, os investidores podem começar a procurar com mais afinco possíveis alternativas ao dólar ou soluções alternativas”. E conclui: “Isto poderá, muito provavelmente, aumentar a volatilidade dos mercados”.

O que vai ditar o rumo?

A questão do papel internacional do dólar poderá continuar a marcar a cotação da nota verde. No entanto, esse é um processo que está longe de ser imediato. Paulo Monteiro Rosa detalha que “a médio e longo prazo, esta erosão de confiança pode acelerar o processo de desdolarização e enfraquecer o papel do dólar como pilar do sistema financeiro internacional”. E afirma que “embora não seja um processo imediato, o risco é estrutural e tende a aumentar com o isolamento dos EUA nas suas relações externas”.

O risco não está numa substituição imediata do dólar, mas numa erosão progressiva da sua posição dominante

Henrique Valente

Analista da ActivTrades Europe

Também Henrique Valente sublinha que “o risco não está numa substituição imediata do dólar, mas numa erosão progressiva da sua posição dominante — um cenário que se agravaria caso os EUA decidam limitar a livre circulação de capitais”.

Para já, a cotação da moeda dos EUA poderá andar ao sabor das perspetivas sobre o andamento da economia e da política monetária na maior economia do mundo e da forma como se vão ajustar ao impacto das tarifas de Trump.

“O desempenho do dólar no médio prazo dependerá principalmente do impacto das tarifas na inflação e no crescimento económico dos EUA. Se esse impacto for pontual e houver uma normalização das políticas fiscais, é provável que o dólar recupere parte do seu valor. No entanto, se as tarifas continuarem a pressionar os custos e a inflação permanecer elevada, ou se a instabilidade política persistir, a moeda poderá enfrentar dificuldades adicionais”, conclui Henrique Valente.

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