Banco de Portugal vigia “influenciadores” na educação financeira
Regulador alerta que há influenciadores que usam a "capa" da literacia para promover os seus próprios interesses financeiros e quer evitar "este tipo de influência enviesada de educação financeira".
O Banco de Portugal está atento a influenciadores financeiros que usam a “capa” da literacia financeira, promovendo iniciativas “didáticas”, mas que na verdade têm interesses financeiros por trás. O supervisor alerta que não pode limitar a divulgação de conteúdos, mas tem “uma estratégia muito forte e definida para tentar evitar este tipo de influência enviesada de educação financeira”, adianta Ricardo Sousa, diretor do departamento de supervisão comportamental do Banco de Portugal.
“Proliferam influenciadores — e de alguma forma também os financeiros — que sob a capa de entregar um conteúdo didático, na realidade há um interesse financeiro por detrás”, alertou Ricardo Sousa, num debate inserido numa conferência promovida pela Fundação António Cupertino de Miranda e pela Câmara Municipal do Porto, dedicada ao tema da literacia financeira no contexto local e nacional.
O diretor do departamento de supervisão comportamental destacou que “tem sido um foco do Banco de Portugal tentar assegurar que existem restrições, dentro das suas limitações”, a estas iniciativas. O supervisor “tem atuado, na medida do possível, e tem claramente uma estratégia muito forte e definida para tentar evitar este tipo de influência enviesada de educação financeira”.
Proliferam influenciadores, e de alguma forma também os financeiros, que sob a capa de entregar um conteúdo didático, na realidade há um interesse financeiro por detrás.
Relativamente às iniciativas para promover a literacia financeira desenvolvidas pelo Banco de Portugal com outras entidades, como é o caso da Fundação António Cupertino de Miranda, com a qual tem uma parceria no âmbito do Plano Nacional de Formação Financeira, destacou que, por um lado, tenta “angariar o máximo de parceiros possíveis que sejam credíveis, precisamente para alcançar esta particularidade, mas depois, obviamente, [tem] de fazer algum controle de qualidade deste tipo de iniciativas”.
Assim, naquilo que é a sua atuação no âmbito deste plano, Ricardo Sousa explicou que “os parceiros têm de ser acreditados para que possam usar símbolo de Plano Nacional de Formação Financeira. E, aí sim, há um juízo de qualidade sobre o tipo de iniciativas adotadas para que possam utilizar aquela marca”, remata.
O porta-voz destacou que esta é uma “restrição ativa que [quer] continuar a assegurar”. Porém, fora deste projeto “é muito difícil atuar no mercado e impedir a intervenção de terceiros sem ser sob esta capa”. “Não existe credenciação para entrega de conteúdos. Muitos deles têm não apenas a questão da qualidade, mas têm também muitas vezes associados a eles o problema do conflito de interesses“, reforçou.
A exemplo daquilo que se faz por muitos outros países, a meu ver, deveria haver uma acreditação desses programas [de literacia financeira].
Maria Amélia Cupertino de Miranda, presidente da Fundação António Cupertino de Miranda, entidade que tem desenvolvido vários projetos de promoção da literacia financeira, em particular com as escolas de vários ciclos de ensino do concelho do Porto, defende que “a exemplo daquilo que se faz em muitos outros países, deveria haver uma acreditação desses programas“.
A mesma responsável deu o exemplo do programa “No Poupar Está o Ganho”, desenhado para crianças e que está atualmente em 243 turmas e 77 escolas. Destacou que o Porto foi o primeiro município na implementação de projetos de educação financeira, e a autarquia liderada por Rui Moreira a primeira que desde 2010 implementa estes programas em regime contínuo”.

Tornar a literacia financeira obrigatória
Na abertura do mesmo evento, a presidente da Fundação António Cupertino de Miranda alertou ainda que “há que influenciar a matriz curricular” de modo a tornar a literacia financeira numa disciplina. Estes temas, atualmente integrados na disciplina de cidadania, deviam passar a “ser obrigatórios em todos os ciclos de ensino“. Para Maria Amélia Cupertino de Miranda, uma sociedade com níveis de literacia financeira mais elevada estará “muito mais preparada para lidar com as incertezas do futuro”.
A literacia financeira “devia existir enquanto disciplina”, concordou Manuel António Oliveira, diretor do Agrupamento de Escolas do Cerco (Porto), notando que ao estar na matriz é “obrigatório ter de a trabalhar” — o que não acontece se os conteúdos fizeram parte de outra disciplina, como atualmente. “Se tiver uma matriz curricular perfeitamente estruturada, objetivamente tenho de cumprir”, reforça.

Também o diretor do Banco de Portugal adianta que o supervisor está a trabalhar na atualização dos conteúdos para responder às mudanças tecnológicas e aos novos hábitos financeiros dos mais jovens. Até porque, ilustra, os jovens de 15 anos já têm cartão de pagamentos e mais de metade faz compras online. Há um “risco na impulsividade na compra”, alertou, acrescentando que “a estratégia dos próximos dois anos é trabalhar na atualização destes conteúdos”.
“Temos de começar a trabalhar na revisão do referencial de educação financeira e como podemos ganhar o efeito multiplicador na nossa instância”, completou Ricardo Sousa, lembrando que é preciso dar formação aos jovens para aprenderem a lidar com novos desafios que não existiam há uns anos, como a influência das redes sociais.
Educação financeira no pré-escolar? Quanto mais cedo, melhor. (…) Infelizmente, não é nas famílias que, muitas vezes, os jovens adquirem estes conhecimentos.
No que toca os temas da educação financeira, que “têm a ver com o bem-estar”, questionada sobre se devem ser introduzidos logo no pré-escolar, Inês Abreu, administradora da Fundação António Cupertino de Miranda, corroborou que “quanto mais cedo, melhor”. Para a responsável é “fundamental proporcionar igualdade em termos de ensino e também ensino financeiro”. “Infelizmente, não é nas famílias que, muitas vezes, os jovens adquirem estes conhecimentos”, lamenta.
“Perante mudanças estruturais, há que ter o foco no que é a capacitação das pessoas, especialmente no longo prazo”, argumenta Inês Abreu, acrescentando que é preciso preparar as pessoas para que estas sejam capazes de lidar com este fenómeno de incerteza. “Todos os dias temos decisões financeiras, desde a compra do café à escolha do crédito para o carro“, ilustrou.
Já Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), começa por destacar que, sendo uma escola de economia e gestão, tem nos seus currículos muita formação nesta matéria. Sublinha que, no caso dos alunos da faculdade, “esta parte de literacia financeira é uma área de que estudantes gostam muito” e até “são muito dinâmicos”, explorando o tema em vários organismos estudantis, como o Finance Club.

Mas o que acontece na FEP não é necessariamente o retrato do ensino superior, como um todo. “Se me pergunta se no ensino superior não precisávamos de mais formação nesta matéria? Diria que sim”, responde. “De repente são estudantes que vão começar a trabalhar e tomar as suas decisões entre poupar e gastar“, acrescentou Óscar Afonso, destacando a importância da literacia financeira também nesta faixa etária.
Por fim, o responsável da faculdade nortenha destacou ainda a importância da literacia financeira para o desenvolvimento e crescimento do PIB de um país. É que “para ter taxas de investimento significativas, Portugal vai ter de melhorar a taxa de poupança – e a literacia financeira é muito importante para isso”, argumentou.
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