“Agora a TVI já não é líder, podemos arriscar”

Rosa Cullell admite que a resposta da TVI à saída de Cristina Ferreira, uma das causas para a perda da liderança de audiências, não foi a melhor. "Foi de líder, de não querer arriscar o suficiente".

Rosa Cullell esteve à frente da Media Capital durante oito anos, e sai agora, por opção própria, para ser substituída por Luís Cabral, o líder das rádios do grupo. Em entrevista ao ECO poucas horas depois da reunião do conselho de administração que votou as mudanças na gestão, a gestora espanhola tem a convicção de que a TVI vai voltar à liderança. Mas deixa um aviso: É preciso transformar a forma como se faz televisão. E porque é que a TVI perdeu a liderança das audiências? A saída de Cristina Ferreira foi uma das razões, e a resposta foi a de um líder… “de não querer arriscar o suficiente”.

No futuro, gostaria de ver as direções de programação e de informação mais integradas, e também considera que José Alberto Carvalho poderia ter uma participação maior no canal. Rosa Cullell admite que um dos pontos mais difíceis dos seus mandatos foi o caso Banif, mas confia na informação do canal — “estive sempre ao lado do diretor de informação” — e considera que a informação, para ser relevante, tem de arriscar e investigar.

E uma revelação. O que mais gosta de ver na TVI? Ricardo Araújo Araújo Pereira. “Foi muito tentado a ir para a SIC, mas ficou connosco”.

Porque é que sai agora da liderança executiva da Media Capital?

Não quero ter um trabalho tão ativo, quero poder estar mais tempo em Barcelona, em Espanha, e quero deixar a primeira linha. Quero poder voltar a escrever com mais tranquilidade. Nos últimos anos não consegui, escrevi um livro com o meu marido [Javier Martím del Barrio, jornalista correspondente do El País em Portugal] e alguns artigos, mas não de uma forma constante. Manuel Mirat concordou, mas pediu-me para lhe dar um tempo, porque era CEO da Prisa há pouco. Já naquela altura acordámos que poderia ficar até junho/julho.

No início deste ano, começamos a falar: Que pessoas poderiam ser escolhidas, qual deveria ser a estratégia, e disse-lhe que gostávamos muito de encontrar uma solução interna. Ele concordou, mas disse que não queria uma proposta de solução interna só com um nome, porque não conhecia bem as pessoas. Então, sugeri duas ou três soluções, para ele falar com elas, e depois escolher a melhor [NR: o ECO sabe que José Eduardo Moniz e Olívia Mira foram os outros nomes sugeridos]. E decidimos que seria antes do verão.

Isso já foi depois do negócio falhado com a Altice?

Sim, isto foi no final do ano passado.

Mas porque sai agora?

São oito anos… Queria sair antes, ao fim de quatro anos. Gosto imenso de Portugal e de estar cá. Sempre pensei estar cá quatro anos, depois a Prisa vendia [a Media Capital] e eu ia para Espanha fazer outras coisas. Depois dos quatro anos disseram-me que não era o momento, que as coisas estavam a funcionar muito bem, decidiram não vender, e propuseram-me ficar para um novo mandato. Aceitei, mas disse que não ia completá-lo. Ajudava, mas depois…

Esse mandato ainda está em curso?

Acaba este ano, no início de 2020.

Então, já vai no terceiro mandato?

Exatamente, o primeiro foi curto, entrei a um ano do fim do mandato. Fiquei porque me disseram que não lhes podia fazer isso, porque também não tinham uma solução. Depois, começaram as mudanças na Prisa. Quando vi aquelas mudanças, pensei…

… que precisava de deixar acabar o processo em Espanha?

Sim. E quando o Manuel [Mirat] entrou estávamos já com a venda à Altice. Chegámos até aqui, também não me vou queixar por isso. Têm sido muitos anos e temos feito muito trabalho.

Isto é uma empresa com saúde financeira, com uma dívida menor do que nunca — temos 80 milhões de dívida –, acabámos de pagar, este mês, a última tranche de 35 milhões do empréstimo obrigacionista de 75 milhões. O ‘cash flow’ está ótimo, no segundo o trimestre o EBITDA está muito parecido com o do ano passado, o resultado líquido volta a ser positivo.

Rosa Cullell

A Rosa Cullell sai no momento em que a TVI perdeu a liderança de audiências. Fica a ideia de que sai por causa disso?

Acho que não, porque sempre pensei que qualquer pessoa pode ser substituída. Tens de fazer um bom trabalho, mas também não podes modificar a tua vida por isso. Não consigo ficar mais tempo e não é por causa das audiências. Isto é uma empresa com saúde financeira, com uma dívida menor do que nunca — temos 80 milhões de dívida –, acabámos de pagar, este mês, a última tranche de 35 milhões do empréstimo obrigacionista de 75 milhões. O ‘cash flow’ está ótimo, no segundo o trimestre o EBITDA está muito parecido com o do ano passado, o resultado líquido volta a ser positivo e, agora, há pessoas cá dentro muito capazes… de verdade, estou convencida disso. As audiências perdem-se e ganham-se e não é a CEO que vai conseguir isso, vai ser o plano de uma equipa forte que vai decidir que tipo de televisão vai querer ter. Estou convencida que o Luís Cabral — temos falado imenso sobre o que fazer até setembro – vai fazer imensas coisas. Vão dar a volta a isto. A Media Capital vai dar a volta. Eu vou sair agora, ponto final. Acho que vou ser avaliada pelos oito anos na Media Capital.

Não teme ser avaliada por sair no momento em que se perdem audiências?

Acho que não, porque fiquei neste primeiro semestre, com as audiências a cair. As audiências, depois, vão subir. Estou convencida disso. Eu já vivi isso noutras televisões. São ciclos. E, agora, há planos e há outras coisas que estão a funcionar muito bem. As rádios, quando cheguei, não eram ganhadoras e agora são. Não tínhamos digital e, agora, somos líderes. Há muitos projetos em marcha. A Champions foi comprada, vamos ter mais futebol, além da Champions. Há muita coisa em marcha. Estou convencida que, com a liderança do Luís Cabral, o que tem agora de acontecer é a transformação do modelo de televisão.

Media Capital

Mas o que fez a TVI perder a liderança de audiências? Foi uma questão de falta de investimento, foi a programação, a saída da Cristina Ferreira?

Foi uma mistura. Quando és líder muitos anos…quando entrei, estávamos a perder o horário de prime-time, era um drama. Voltámos a ganhar o prime, fizemos novelas muitos melhores, fizemos o Jornal das Oito e começámos a ganhar. Quando cheguei, perdíamos todos os dias contra as novelas da SIC e perdíamos o Jornal das Oito todos os dias, mas depois ganhámos.

Mas…

…Mas depois de ser líder tanto tempo, se calhar muitas pessoas acabaram por contentar-se com aquilo. É difícil mudar quando se está a ganhar, tem de se mudar quando não ganha. A SIC não ganhava, para eles foi mais fácil tomar decisões e mudar. Sobretudo, fizeram o que nós fazíamos, deixem-me dizer… Foram à procura de uma pessoa que já fazia as nossas manhãs e contrataram pessoas. E a pessoa que está lá – uma pessoa nova [o diretor Daniel Oliveira] – começou a pensar de outra forma. Mas isso é fácil quando estás a perder. Quando estás a ganhar, mudar é mais complicado. As pessoas, quando ganham, não querem mudanças. Têm uma aversão ao risco. Acho que uma das razões é isso: O medo a mudar um modelo ganhador, por isso acho que, agora, o modelo tem de ser outro.

Já lá vamos…

Tem de mudar, mas isso tem de ser o Luís Cabral a dizer, não tenho de ser eu, já não é o meu papel. Mas isso é o que acho que temos de fazer. O que temos estado a falar nos últimos meses é uma mudança a sério. Uma mudança de grelha a sério. Acho que é isso que vão fazer.

Estava a explicar as razões para a perda de audiências.

A outra razão, evidentemente, foi a saída da Cristina [Ferreira]. Foi levar daqui, foi ela com os seus… Um rosto importante como o da Cristina… Agora temos de encontrar outros rostos para a TVI. Temos também outros rostos bons, mas também há uma parte de modernização, de dar entrada a outras pessoas.

A TVI desvalorizou o impacto da saída da Cristina Ferreira?

O impacto tem sido importante…

Tem sido maior do que esperava?

‘Not really’. Quando se perde uma figura na manhã, normalmente faz mossa. Depois, também, o diretor é outro. Portanto, está a pensar de outra forma, é outra SIC. É uma SIC muito mais rápida.

E a resposta da TVI foi a adequada?

Foi uma resposta de líder, de não querer arriscar o suficiente, sabe? Agora já não somos líderes, portanto, podemos arriscar. Agora, podemos fazer, mas este mercado de televisão está a perder… A SIC não tem os shares de audiência que tínhamos no primeiro semestre do ano passado, porque os ‘rating’ são menores. O problema do ‘free to air’, os canais em sinal aberto, é que o mercado de televisão também caiu. A partir do verão do ano passado, começou a cair. Agora — eu vou estar na minha vidinha –, eles vão ter de mudar também. Que tipo de televisão é que querem? Temos falado muito disso nos últimos meses, para não reagir com custos que, depois, não íamos conseguir pagar. O tema é se se consegues vender publicidade suficiente, mas não compensa. Neste sentido, eu sempre fui muito financeira.

A liderança não vale tudo?

Tínhamos uma liderança com um investimento muito baixo. Fizemos uma liderança na TVI e nas rádios com um investimento muito controlado, com custos muito controlados. Este mercado é muito pequeno, portanto é preciso ter muito cuidado onde se põe o dinheiro e se é possível rentabilizá-lo, porque pode ser que não. Com estes ‘ratings’ que há agora na televisão, é preciso ter cuidado.

Henrique Casinhas/ECO

Mas não foi precisamente esse baixo investimento que conduziu à perda de liderança?

Ganhámos muitos anos com esta política. É verdade que não é tão fácil como ter todo o dinheiro do mundo. Adorava que alguém me dissesse “Faça este canal como quiser”, nunca foi o caso. Eu cheguei em 2011, no meio de uma crise. Ninguém, nenhum acionista com “dois dedos de frente”, como se diz em Espanha, diz “faça o que quiser, gasta o que quiser”. Não. O que disseram foi “Tente ver se controla os custos”, e conseguimos. Se calhar, depois, poderíamos ter feito mais investimento, se calhar sim, mas, depois, fomos vendidos à Altice.

E aí, parou tudo?

Nessa altura, pensei: Uma televisão ‘free to air’, sozinha, é o futuro da televisão em Portugal? Ainda hoje penso que é muito complicado. Portanto, pensei, “se calhar vai ser com uma plataforma, com uma ou com outra, com uma estrangeira”. Com alguma que consiga vender os meus conteúdos fora do país.

Quando o negócio foi anunciado, afirmou ao ECO que não queria estar triste com a operação, com a venda da Media Capital a uma operadora de telecomunicações.

Por um lado, tinha a tristeza de não poder ter um grupo de media forte, saudável, independente. Mas há poucos desses grupos. E nas televisão ‘free to air’, os informativos, os jornais, estão a acabar. A Quatro [em Espanha] já não tem informação.

É tudo programação?

É tudo entretenimento.

Era o que temia que podia acontecer?

Aqui não tanto. Sobretudo, pensei que ia ser mais complicado. Eu tinha a confiança da Prisa. Era duro trabalhar naquelas circunstâncias, com pouco dinheiro, nunca ter a possibilidade de dizer “Deixem-me investir na grelha mais dez milhões”. Isso não era uma possibilidade. Nunca foi. Mesmo assim, o custo com o entretenimento está muito mais elevado do que estava há três anos, sobretudo em novelas, com mais produção de novelas, e também na informação há mais comentadores, mais qualidade de informação.

O relatório da Prisa fazia exatamente referência ao aumento do custo com a programação…

Tanto no ano passado como em 2019 tivemos mais custos com programação e parte deles vão ver-se depois. Mas a verdade é que se existe um concorrente ou se as empresas que concorrem contigo também não colocam muito dinheiro, para que é que vais colocar muito dinheiro? Isto, do ponto de vista do gestor… Não se pode desestabilizar.

A venda da Media Capital à Altice condicionou a estratégia e o investimento?

Sobretudo depois da Altice… Antes de sermos vendidos, trabalhava-se, tentando fazer o melhor com o ‘budget’ disponível. Quando chega a venda, então, deixamos de investir ou deixamos de mudar coisas ou de comprar… Tens cuidado porque a empresa está vendida em determinadas condições. Portanto, no ano de 2017 e 2018, condicionou um bocado.

Que avaliação faz das direções de programação e de informação?

Quando cheguei, encontrei duas pessoas — um diretor de programas José Fragoso] e um diretor de informação [José Alberto Carvalho] — que chegavam da televisão pública e com um pensamento, sem dúvida, mais calmo do que eu estava habituada. Era muito mais de empresa pública, mas a verdade é que eu também vinha de uma empresa pública, a Corporação Catalã de Rádio e Televisão, portanto dei-me muito bem com eles. Era o tipo de pessoas a que estava habituada até.

Diretores que não arriscam?

E com medo dos reguladores… Quando cheguei cá, pensei: que bom, tenho estas pessoas! Começámos a trabalhar, com o José Fragoso e o José Alberto Carvalho, e renovámos completamente a TVI24. Os dois ajudaram a dar uma força enorme à TVI24. Quando chegámos, a TVI24 não tinha audiências. Eu e o José Fragoso comprámos a Champions. O José Alberto queria muito ter na informação o Mais Futebol. Também, ter o José Alberto e a Judite [de Sousa] na informação deu uma grande credibilidade à informação da TVI. Depois, o [José] Fragoso foi embora, para Angola, e comecei a ter o Luís Cunha Velho na programação, e o José Alberto [Carvalho] ficou um pouco mais como diretor de informação. Também contratei o José Eduardo Moniz. Estávamos a fazer ficção que não conseguia concorrer contra os brasileiros. [da Globo]. Mas conseguimos dar a volta, com o Luís, e o Moniz como consultor, começamos a trazer guionistas novos… A ‘Única Mulher’, em Angola, foi o que deu a volta. Começámos a vender novelas lá para fora, foi um período muito doce… as novelas eram boas, os jornais também…

DR

Começou tudo a encaixar…

Encaixou tudo, contratámos a direção de informação do Sérgio [Figueiredo], que chegou cheio de força. Foi um período, desde 2015/2016, cheio de força, onde fizemos muito ao nível do entretenimento, com o Bruno Santos como diretor de programas, fizemos o ‘Pesadelo na Cozinha’ que teve muito sucesso. As mudanças foram boas e internacionalizamos mais o nosso produto. Conseguimos fazer entretenimento na Plural, e a Plural só fazia ficção, e lançámos o Player. Tudo isso foi feito com pouco dinheiro.

Passados estes anos, o modelo para a direção de programas e para a direção de informação mantém-se válido? Ou precisa de uma volta?

Precisa de dar uma volta. As direções têm que trabalhar mais próximas. Mas há também o ‘infotainment’, mas dando mais informação que entretenimento. O que funciona muito bem hoje, noutras televisões, e estou a falar de televisão e não internet, é aquilo que une a realidade com a dramatização, e passa até por incluir o debate no entretenimento.

Há exemplos em que está a pensar?

Alguns. Veja, a Sexta, canal espanhol, é quase só de informação, mas é informação muito trabalhada. Muitos diretos, muitos debates ao mesmo tempo, contactos em direto com três ou quatro locais, votações digitais em direto, interatividade…

Já se vê isso em Portugal?

Pequenas coisas. Os ingleses também já fazem muito isso, na BBC, no Channel 4 também, e nos EUA.

As direções têm que trabalhar mais próximas. Mas há também o ‘infotainment’, mas dando mais informação que entretenimento. O que funciona muito bem hoje, noutras televisões, e estou a falar de televisão e não internet, é aquilo que une a realidade com a dramatização, e passa até por incluir o debate no entretenimento.

Rosa Cullell

Porque é que não há uma maior integração entre as direções de programas e de informação. É um problema de pessoas ou de organização?

É um problema de organização e, sobretudo, do tipo de conteúdo que queremos fazer. Temos que mudar. Os próprios jornalistas têm que querer fazer outro tipo de conteúdo. Os jornalistas podem fazer isso bem… para os diretos, para informação, não podemos continuar a fazer jornais com as notícias 1, 2, 3, 4 e, depois, um comentador. Precisamos de outras fórmulas para que os mais novos adiram, a informação não tem interesse para eles. Vão ver o Netflix, ou vão para o Twitter zangar-se uns com outros… Temos que os trazer para aqui, mas estou convencida que isso vai ser feito.

Antes havia um diretor-geral, um diretor de programas e um diretor de informação. Agora, há um diretor de programas que acumula com a direção-geral de antena. É um modelo que precisa de mudar?

Todas estas direções precisam de ser mais integradas e transversais. Se olharem para a forma como estamos dispostos, fisicamente, é um modelo muito antigo. As pessoas precisam de estar mais próximas. E nesta televisão, como nas outras, há muitas ‘quintas’, é tudo muito regrado e o mundo já não é assim, é muito rápido. Isto já não funciona assim. Se alguém na base da estrutura tem uma ideia ótima, até chegar ao topo, lá acima, pode perder-se.

A rádio é um bom modelo…

O modelo da rádio é muito melhor. Daí, também, a escolha do Luís Cabral. Acho que tudo vai ser muito mais aberto, e mais com base numa organização por conteúdos do que por direções de programação e de informação.

Como é que avalia o mercado publicitário durante estes anos?

O mercado de publicidade é muito pequeno, nos últimos tempos só crescia o digital. A televisão voltou a crescer desde 2014, mas a um dígito. É dinheiro, não vamos dizer que não, mas até mais a televisão por cabo do que a televisão generalista, ‘free to air’.

Entretanto, surgiram as gigantes tecnológicas…

A Google e o Facebook basicamente, não há mais ninguém. Estiveram a crescer a dois dígitos, agora a um dígito, mas estiveram a crescer muito. O digital nacional, agora, também está a crescer, mudámos e temos um produto muito mais atrativo e pensado diretamente para o digital. Os diretores de marketing das empresas, finalmente, querem produtos que sejam digitais e de vídeo. Mas temos de apresentar propostas, não é só pôr ‘branded content’ dentro dos conteúdos. Temos de pensar em conteúdos diretamente para essas marcas. Nós, na TVI, temos o “Querido Mudei a Casa” que é pensado para eles, também já fizemos um produto sobre cabelos desenvolvido para uma marca. Não podemos encher o grande ecran com isso, mas temos algumas franjas onde isso é bom. E no digital temos imensas possibilidades para faze coisas com qualidade. Mesmo na informação.

Queremos voltar ao tema das telenovelas, porque, com a Plural, houve uma mudança muito grande que deu a liderança à TVI. As mais recentes apostas de telenovelas na TVI explicam a perda de audiência em ‘prime-time’?

Acho que, neste caso, não tem nada a ver com a qualidade das nossas novelas. As telenovelas da SIC são mais fáceis, muito mais clássicas. Uma pessoa tem um golpe de sorte e ganha dinheiro… As pessoas aderem porque é um desejo que toda a gente tem. Já vi esse argumento 40 vezes. É ótimo, mas é o modelo clássico.

A TVI apostou, agora, numa telenovela que tem uma história sobre um médico muçulmano, revolucionário mas não fundamentalista, com referências a conflitos religiosos, num país católico. Foi um risco?

A Teia teve muito sucesso, o Valor da Vida teve muito sucesso. Agora, A Prisioneira teve menos. Se calhar, o tema islâmico não entrou tão bem… mas estão bem-feitas, estão! E a Plural está preparada para fazer novelas mais simples ou menos, qualquer novela. Se quisermos uma novela com mais amor, fazemos. No final, manda o espetador. Mas também temos de estar preparados para fazer uma série com a Netflix, por exemplo, no futuro. Espero que consigam fazer isso.

É um ponto que tem vindo a apontar: a Media Capital quer fazer séries para as plataformas de ‘streaming’.

Ainda não estamos a conseguir fazer isso, mas espero que, para o ano, consigamos transpor para Portugal a diretiva europeia sobre as plataformas digitais, que obriga a ter 30% de produção nacional. Acho que estamos a perder tempo, e é pena, porque, realmente, Portugal tem tudo para ser relevante na indústria de conteúdos, mas não somos ninguém. É pena. Temos o clima, atores e atrizes…

A infraestrutura…

Tem a infraestrutura, a Plural é enorme.

O que é que se arrepende de não ter feito?

Séries. Mais do que arrepender-me, tenho pena de não podido fazer uma série internacional com uma qualidade para vender fora. Mas estou muito contente por poder ter feito novelas que conseguiram viajar, como foi o caso d’ A única mulher, a Herdeira… Fiquei com um bocadinho de pena.

E a lição que retira desta experiência?

A resistência acaba sempre por ser reconhecida e acaba por ser recompensada, mesmo em tempos de dificuldades. A resistência para arriscar. Dizer “temos uma crise, mas vamos continuar a fazer televisão e a ganhar”. Querer ganhar e resistir para ganhar, isso é uma coisa que aprendi muito. E, depois, outra coisa que aprendi foi a ter paciência, e isso acabou a fazer-me uma melhor pessoa.

A venda da Media Capital deixou de ser um tema? Isso só o acionista sabe, e nem sempre há uma resposta igual ao longo do tempo. Para além dos acionistas, está o conteúdo, e se tivermos um modelo de produto que funciona em todo o tipo de plataformas, a empresa e os seus ativos vão ter sempre valor. Se calhar, agora não é o melhor momento [para vender], mas, com esta transformação, vamos ser diferentes.

Rosa Cullell

O Luís Cabral vai entrar. Quais são os desafios que se colocam à nova gestão?

A transformação da televisão. Chegou o momento de começar a transformação da televisão, já começámos com o tema digital, mas temos que transformar, e as audiências não podem ser as que temos. Quando transformas a televisão, como medimos as audiências para efeitos publicitários? Temos um painel de audiência com pouquíssimos lares, isso não mede as audiências. Tem de se transformar a forma como se medem as audiências. Temos muita audiência no digital e isso não é valorizado, ninguém paga por isso.

A guerra na definição das regras de medição das audiências de televisão foi outro momento perdido?

Foi totalmente perdido. Quando há muita burocracia, as coisas não funcionam. Era muito importante ter emissões de televisão no digital, para medir bem o que o que o espetador faz ou quer. E é preciso ter mais contacto direto com o espetador, isso também era importante. Temos de saber o que o cliente quer, temos de investir em CRM (Customer Relationship Management).

Tendo em conta o histórico, as exigências do acionista e o contexto económico do mercado, Luís Cabral vai ter os meios para investir na transformação da TVI?

Se calhar, temos de investir mais na parte digital, em redes e em franjas de telespetadores que consigam ter muito maior interatividade com o digital. Para podermos analisar os clientes. Também espero que, num, futuro próximo, se calhar não é no próximo ano, a Media Capital consiga ter parceiros com outra dimensão, fora de Portugal.

A venda da Media Capital deixou de ser um tema?

Isso só o acionista sabe, e nem sempre há uma resposta igual ao longo do tempo. Para além dos acionistas, está o conteúdo, e se tivermos um modelo de produto que funciona em todo o tipo de plataformas, a empresa e os seus ativos vão ter sempre valor. Se calhar, agora não é o melhor momento [para vender], mas, com esta transformação, vamos ser diferentes.

Essa transformação deve ser a prioridade para as direções de programas e de informação?

Eu acho que sim. Da mesma forma que transformámos a rádio, na televisão também teremos de fazê-lo. Já temos dado passos, como a Selfie, que não funciona na televisão, mas funciona no digital. Temos de nos atrever…

E isso exige outras pessoas?

Se calhar, sim. Acho que, primeiro, temos de ter grelhas diferentes e outros públicos. Temos de avançar em dois níveis, em paralelo, temos de manter a televisão que há e temos de fazer novos produtos ao lado. Não temos todos os perfis, temos pessoas e equipas muito boas, mas há outras pessoas que nos faltam. E também temos de ter outros rostos. Agora, o Luís [Cabral], que vem da música, vai trazer outras coisas. Já estava connosco no comité estratégico da Media Capital.

Qual é o caminho dessa transformação?

Há um ano já pensava que a televisão tinha de mudar, e pensava que seria com as plataformas [Altice, NOS e Vodafone], mas hoje já acho que não é nas plataformas, é com as plataformas em alguns casos, e não em outros. É no digital, e com parceiros parecidos connosco,

Também inclui outros setores, numa verticalização do negócio?

Agora, já não estou tão convencida disso, porque acho que as plataformas perderam interesse nisso. Compram muitos direitos, mas perderam interesse, deixaram de fazer novos canais, novos conteúdos.

Que programa mais gosta de ver na TVI? O ECO24…

(Risos)… gosto muito do Ricardo Araújo Pereira…

Que foi recentemente tentado a ir para a SIC?

… foi muito tentado, mas ficou connosco… estou muito agradecida. O que conseguimos fazer com o Ricardo [Araújo Pereira] e com a redação a favor… há uns anos, não queriam, agora apoiam, e isso foi uma mudança importante. O Ricardo, agora, também vai fazer um programa para as eleições legislativas, que vai ser ótimo. Também gosto muito dos programas de entretenimento, d’A Tua Cara, e depois gosto da informação… gosto muito de ver o jornal do Miguel [Sousa Tavares]. Foi uma ideia do Sérgio [Figueiredo] e do Miguel, um jornal de autor, é muito bom. Eu espero para ver, aquele não é mais um jornal, e eu adiro a isso, sou uma telespetadora.

Em termos de informação, um tema difícil foi, efetivamente o Banif, mas a minha posição foi “não olhem para mim, porque isto é informação” e eu não entrei nisso. Estávamos num momento complicado do ponto de vista político, de pressão, e a única coisa que poderia fazer era dar o meu apoio ao diretor de Informação e manter-me ao lado dele, e foi o que fiz.

Rosa Cullell

A TVI tem dois dos mais relevantes pivôs de informação do país, o José Alberto Carvalho e a Judite de Sousa…

Eu sei de quem está a falar. Acho que o Zé Alberto deveria ter uma maior participação, deveria fazer mais coisas, mas isto é uma opinião pessoal. Os dois são ótimos, ótimos jornalistas, e podem fazer mais coisas, mas eles têm de querer fazer, porque há pessoas que não querem, não podemos forçar isso.

E nas televisões da concorrência, o que gosta mais de ver?

Adoro ver o Preço Certo, adoro o Fernando [Mendes], adoro o homem, e também tenho pena de não ter feito outra coisa com o Fernando, não O Preço Certo, mas outra coisa… Teria adorado fazer um ‘Late Night’ com o Fernando. Mas ele quer fazer o que quer, como eu, agora, quero escrever os meus artigos.

José Eduardo Moniz, no papel de consultor, suscitou dúvidas sobre quem manda na programação da TVI, tendo em conta o seu peso e conhecimento, em relação ao diretor de programas, o Bruno Santos?

É evidente que o José Eduardo sabe muito de televisão, toda a vida trabalhou na televisão, confio nas suas opiniões e tem resultado muito bem. Agora as audiências estão a cair, mas também esteve cá muitos anos e fomos líderes. Acho que o peso depende da personalidade de cada um, do seu caráter. Não podemos assegurar que uma escolha é boa ou má, se calhar o meu caráter é bom para umas coisas e se calhar para outras não é tanto. O José Eduardo é a mesma coisa. Se uma pessoa é fraca e o José Eduardo é forte… são coisas que acontecem na televisão… são ‘shares’ de audiência todos os dias, isto é um pesadelo. Isto é para quem gosta de adrenalina, e para quem tem capacidade de resistência e de paciência para não perder a calma. O José Eduardo é um caso desses, pode zangar-se ou não, mas resiste muito bem, porque é mesmo uma pessoa de televisão. E há outros que não, o meio é muito stressante.

Qual foi o momento mais difícil da sua gestão nestes oito anos? A perda da liderança das audiências, o caso Banif?

Em termos de informação, um tema difícil foi, efetivamente o Banif, mas a minha posição foi “não olhem para mim, porque isto é informação” e eu não entrei nisso. Estávamos num momento complicado do ponto de vista político, de pressão, e a única coisa que poderia fazer era dar o meu apoio ao diretor de Informação e manter-me ao lado dele, e foi o que fiz. E, depois, temos tido o tema da IURD, mas eu acredito que a informação, para ser relevante, tem de arriscar e tem de investigar. Se um dia alguma coisa não sai bem, temos de assumir as nossas responsabilidades.

E na gestão propriamente dita?

Nos primeiros meses, foi complicado…

Arrependeu-se?

Não, não, não me arrependi nada, estava em Lisboa (risos). Mas lembro-me de ter pensado “será que isto é para mim?” Não foi por causa da informação. Um dia, no início, a SIC tinha boas telenovelas e eu fui com o José Fragoso [antigo diretor de programas] para a Plural para ver uma nova telenovela. Eu estava ali sentada e a pensar “isto é mau mesmo”, o Fragoso estava ficar doente com o que estava a ver e saiu, eu fiquei com as pessoas da Plural, com atores e atrizes… Perguntavam-me “A Rosa, gostou?”. Eu achava aquilo muito mau, mas o que poderia responder? Aqui gostam de novelas, mas eu achava aquilo muito mau. O que é que estávamos a fazer? Lembro-me que vivia sozinha em Lisboa, fui para casa e adormeci com uma enorme dor de cabeça. Quando acordei, pensei que tinha que ligar ao meu marido para lhe dizer “eu vou voltar”, fazemos más novelas, e este país adora novelas. Questionei-me: “O que estás aqui a fazer!?”. Foi um momento trágico-cómico, mas saímos disso.

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