“Bancos têm de ser mais proativos nas oportunidades de mercado”

Isabel Ucha é presidente da Euronext Lisbon desde o início do ano, está otimista em relação ao ano de 2019, elogia as medidas do Governo e pede mais cultura de risco e proatividade dos bancos.

A presidente da Euronext Lisbon acredita no potencial de dois novos instrumentos de promoção do mercado de capitais, aprovados recentemente pelo Governo, as sociedade de fomento e de desenvolvimento empresarial e o regime das sociedades de investimento e gestão imobiliária. Mas critica os bancos e outras sociedades finnceiras. “É preciso que, também aí, exista mais proatividade e mais informação disponível sobre as opções e oportunidades que existam”. E quantas empresas vão entrar na bolsa de Lisboa em 2019? “Não tenho uma bola de cristal”, responde.

Estamos a atravessar um período particularmente difícil no mercado de capitais, tendo em conta que a bolsa caiu no ano passado 12,1% e houve várias empresas que falharam o acesso ao mercado de capitais?

O ano de 2018 começou de uma forma positiva. Tínhamos diversas operações projetadas para o mercado, o que refletia uma atitude e um interesse maior dos investidores pela bolsa portuguesa. Das várias operações que estavam previstas, concretizaram-se três. Entraram três novas empresas na bolsa portuguesa em 2018. Depois tivemos um final de ano menos positivo, fruto do contexto internacional, que se viveu em Portugal, mas que se viveu em toda a Europa e que inviabilizou um conjunto de IPOs.

Caíram três operações. As três que entraram, sendo importantes, apesar de tudo, são pequenas operações. Foram empresas pequenas, comparadas com aquelas que caíram. Recordo a Sonae. Ainda assim, disse que entrou num bom momento na presidência da Euronext. Porquê? Este contexto parece exatamente o contrário…

O facto de terem entrado três novas empresas quando há algum tempo que não entravam empresas, e de ter havido interesse de mais empresas, embora não se tivessem concretizado, é por si um facto positivo. E é também de si um facto positivo que as empresas têm-se financiado pelo mercado de capitais, não só por instrumentos de capital, mas também por dívida e emissões de obrigações. Esse é, porventura, um contexto menos conhecido e que é interessante revelar. Nos últimos cinco anos, tivemos na bolsa portuguesa 25 novos emitentes, novas empresas que emitiram obrigações. E, dessas 25, 17 são empresas que não têm o capital cotado. Portanto, fizeram emissões de obrigações. Para alguma delas, foi o primeiro contacto com o mercado.

Pediram dinheiro emprestado aos investidores…

…é capital permanente, é dívida de médio e longo prazo. E é um contacto com o mercado. Estas empresas já cumprem o conjunto de requisitos de transparência e de organização que não são idênticos àquelas que abrem o capital, mas que, de qualquer modo, já fazem um caminho de abertura e de diversificação e que também as faz chegar a um conjunto de investidores mais diversificado.

Há uma falta de dinamismo no mercado de capitais?

Naturalmente que não concordo, porque continuamos a ter operações. Uma novidade é que vamos ter a primeira green bond admitida no nosso mercado (enfim, já tinha havido uma outra, também no mercado Euronext, de uma empresa portuguesa [fora de Lisboa]). Portanto, também aqui há inovação. Tivemos uma primeira sociedade de fomento e de desenvolvimento empresarial, uma SIMFE, e que também poderá ser um instrumento que poderá vir a dar mais dinâmica, porque esta sociedade que, no fundo, investe no capital de um conjunto de empresas mais pequenas e depois vai buscar financiamento aos investidores que precisam de dimensão e de liquidez para poderem investir. E temos agora outro novo instrumento, que acabou de ser aprovado em decreto-lei: o regime das sociedades de investimento e gestão imobiliária [os REIT’s], muito aguardadas já há bastante tempo e que poderão também trazer novidades.

Cita dois novos instrumentos que eram muito reclamados pelos investidores, mas, nos últimos anos, já apareceram outros mecanismos que, depois, não tiveram os resultados esperados. Estes novos fundos estão talhados apenas para investidores institucionais, para grandes fundos, e não para os particulares?

A nossa experiência nos nossos vários mercados Euronext, é que os SIMFE servem quer investidores institucionais, quer investidores individuais. E aqui, para os investidores individuais, uma novidade em particular: hoje em dia, os cidadãos têm o seu investimento muito concentrado em depósitos bancários. E os depósitos bancários têm diversas vantagens, nomeadamente liquidez e disponibilidade, mas têm normalmente prazos limitados e remunerações também de acordo com o respetivo risco nos prazos que têm. Para termos uma poupança de médio e longo prazo com remuneração relevante, é importante diversificar esse investimento, essa poupança dos portugueses.

Este é um caminho que é importante fazer, porque estamos a perder uma oportunidade. São as empresas que geram valor. Nós ainda não encontrámos outra forma de organização económica que seja capaz de gerar valor acrescentado. Portanto, se as pessoas, os cidadãos, não investirem nas empresas, quer por via de ações, quer por via de obrigações, não vão partilhar esses rendimentos gerados pela economia.

Os portugueses estão cientes da importância desse tipo de investimento, e da possibilidade de, a médio e longo prazo, terem outro tipo de rentabilidade?

É preciso fazer mais promoção, mais divulgação, e promover mais informação sobre o que é, no fundo, uma carteira de investimento, de poupança, adequada ao prazo, ao objetivo, e à remuneração e ao risco…

…Sendo que os níveis de poupança são baixos, historicamente baixos…

Sendo que o nível de poupança deveria ser mais elevado face ao rendimento disponível. Aí, também há trabalho a fazer, seguramente. Mas, sobretudo, acho que há que investir melhor. E há que ser mais exigente também com quem nos presta o serviço de apoio ao investimento.

Os bancos?

Estou aqui a pensar nos bancos e noutros consultores financeiros e na assessoria financeira em geral. É preciso que, também aí, exista mais proatividade e mais informação disponível sobre as opções e oportunidades que existam. E talvez estejamos aqui a passar um momento onde, depois de algumas dificuldades que existiram e que depois correram menos bem, talvez tenhamos caído numa situação onde alguns prestadores de serviços tenham algum receio adicional em serem muito proativos. E não podemos passar do oito para o oitenta. Temos, talvez, de recuperar alguma da capacidade para desenvolver alguma cultura de risco. Porque, sem essa cultura, esse investimento diversificado e adequado, não vai ser feito da mesma forma e vão ser oportunidades perdidas para os cidadãos, para as empresas e para o país.

Até que ponto é que o Governo tem dinamizado este mercado de capitais e o que é que era importante fazer do ponto de vista governativo.

O Governo tomou algumas medidas interessantes com o programa Capitalizar. Há um programa muito interessante a começar agora, o Finance for Growth, que é um programa que vai ajudar a informar, capacitar, mobilizar as empresas e os empresários para as diferentes formas de financiamento e como é que elas podem ajudar as empresas a financiar a sua estratégia de crescimento, de internacionalização, de investigação e de inovação. Abrange as várias formas de financiamento, e portanto, desse ponto de vista, é bastante completo.

Junta-se, aliás, a dois outros programas que a própria Euronext já tem a funcionar em Portugal. O programa Tech Share, dedicado às empresas tecnológicas, e o programa Family Share, dedicado às empresas familiares.

Em particular em relação ao setor tecnológico, o grupo Euronext está a fazer um investimento e um esforço muito grande de desenvolvimento de uma oferta específica para as empresas tecnológicas, que não tem só este programa Tech Share, mas também tem um conjunto de índices dedicados às empresas tecnológicas.

A Farfetch acabou por ir para uma bolsa internacional. É possível captar para a Euronext Lisbon empresas tecnológicas que nasceram e estão a operar em Portugal?

Claro que sim. Nós, no grupo Euronext, fizemos 80 operações de dispersão de capital nos últimos cinco anos de empresas tecnológicas. Temos todas as condições, como principal bolsa europeia no setor tecnológica. Temos o Euronext Tech Hub que é, neste momento, a plataforma de preferência das empresas tecnológicas para entrarem em mercado. Não há nenhuma razão para que as empresas portuguesas não vejam nesta plataforma as condições necessárias, adequadas, para poderem abrir o seu capital e financiarem o seu crescimento. Até porque, ligada a esta plataforma está um vastíssimo número de investidores institucionais por essa Europa fora….

… que também podem olhar para o mercado português.

Naturalmente. E temos empresas extraordinárias que poderiam beneficiar de todo este ecossistema.

O Governo que faz o programa Capitalizar é o mesmo que discute a possibilidade de nacionalização de empresas privatizadas nos últimos anos. Isso não acentua o receio dos investidores sobre a confiança, a estabilidade, a previsibilidade do mercado?

Naturalmente que temas dessa natureza são extraordinariamente delicados, e nós estamos em crer que as empresas que estão cotadas no mercado estão a fazer o seu caminho, têm o seu plano de atividade e de desenvolvimento, e não vão ser afetadas por medidas dessa natureza.

Outra exigência para a dinamização do mercado de capitais seria, seguramente, uma reforma no financiamento da segurança social, que poderia verdadeiramente alterar as condições de investimento das famílias no mercado. É uma perspetiva mais longínqua?

O sistema de financiamento das poupanças é um tema estrutural em Portugal, que tem que ser repensado, revisto à medida que a evolução da própria demografia vai trazendo condicionantes a esse tema. Já referi publicamente que penso que era benéfico virmos a ter um pilar privado de financiamento das pensões em Portugal, por várias razões.

Não só porque é um elemento de sustentabilidade do problema, das nossas pensões, mas também porque é um elemento que vai trazer a tal necessidade de aumentar a poupança, ao canalizar poupança pela via privada vai acrescentar financiamento também às empresas portuguesas e ao mercado em geral, liquidez, a própria literacia financeira dos cidadãos também sai beneficiada porque vão haver opções que as pessoas vão ter de tomar em função de como vão querer aplicar as poupanças e o investimento.

O momento político, e até ideológico, que vivemos permite essa mudança?

Independentemente da ideologia, temos de ser realistas na forma como encaramos estes problemas de natureza estrutural, como é este tema. Encaramos temas que têm impactos claramente identificados, e nós sabemos como funcionam, porque existem experiências de vários países onde este caminho já foi feito. Não é um caminho fácil, e possivelmente deverá ser um caminho progressivo até se chegar a uma solução diferente daquela que temos hoje.

O Euronext, para além da dimensão de praça bolsista, tem também um centro de desenvolvimento e inovação no Porto. Tendo em conta o que é a realidade, não corre o risco da Euronext Lisbon ficar reduzida ou limitada ao centro de inovação, e acabar por perder a listagem de empresas?

De todo, o centro de inovação veio trazer mais peso e mais relevância à Euronext em Portugal. Não é só um centro de inovação, é um centro de operação, é a partir deste centro que todas as bolsas do grupo Euronext são geridas operacionalmente.

São os empresários portugueses que não estão a perceber a importância potencial de estarem listados no mercado de capitais?

Portugal passou um período muito complexo e difícil, mas o que nos vimos observando, e o ano de 2018 foi ilustrativo de alguma mudança e virar de página da economia portuguesa e da situação de Portugal, com muito menos desemprego, crescimento económico, contas externas equilibradas, contas públicas também de alguma forma equilibradas, embora existam reformas estruturais importantes a fazer, como a segurança social, mas há um tema que para nós é particularmente sensível, que é o tema da justiça. Não há mercados de capitais confiáveis se não houver uma justiça célere, rápida e eficiente, de modo a quando existam problemas ou situações ilícitas identificadas elas sejam devidamente averiguadas, punidas, investigadas e penalizadas quando é o caso.

O mercado português não é confiável?

Temos que fazer um caminho para que a nossa justiça seja mais célere, para que possa haver mais confiança, esse é um aspeto muito importante. Não era no sentido de não ser confiável, era no sentido de em vez de termos mais regulação ou supervisão, em vez de se investirem mais recursos nesse aspeto de melhorar a infraestrutura do mercado, que é importante, mas talvez fosse de repensar o peso que se dá a uma componente e à outra. Talvez beneficiasse mais do aspeto da celeridade da justiça, em vez de pôr o ónus em mais regulação ou elementos mais complexos de supervisão, que acabam por pesar em todos os intervenientes do mercado e não só naqueles onde depois efetivamente podem ter surgido alguns problemas.

O Brexit é uma oportunidade para o mercado de capitais em Portugal?

O Brexit é um evento estrutural marcante com impactos potencialmente muito negativos para o Reino Unido, para a Europa, para Portugal, e portanto, nós e o grupo Euronext vemos com muita preocupação o que está a acontecer. Temos colocado a ênfase em ajudar os nossos clientes, sobretudo os nossos membros de mercado que têm presença no Reino Unido por causa da ligação que têm diretamente à Euronext. Também algumas empresas cotadas que têm por exemplo “duo listings” com o Reino Unido, para que tenham planos de contingência devidamente preparados, e começamos a fazê-lo logo desde 2016, para os cenários que possam vir a colocar-se. Estamos ainda longe de perceber qual vai ser o resultado, e portanto a nossa preocupação tem sido esta.

Vê mais riscos do que oportunidades para a Europa continental e para a Euronext com a saída do Reino Unido?

O principal risco, neste momento, é a indefinição do processo. Todos ganharíamos muito se se soubesse um caminho definido tão cedo quanto possível, sendo que, naturalmente, aquele que é menos negativo seria a continuidade.

Consegue antecipar quantas empresas a Euronext será capaz de atrair para o mercado em 2019?

Não tenho uma bola de cristal, e naturalmente que queremos ter mais empresas. Trabalhamos todos os dias para isso, com todos estes programas que apresentei, e iniciativas, reuniões individuais que fazemos com empresários todos os dias, mas enfim é preciso também que o contexto de mercado facilite, ajude, para que seja também possível fazer mais operações, mas não tenho um número para vos dar.

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