Diogo Lacerda Machado: “O acionista chinês não manda na EDP”

O gestor defende as virtudes do investimento chinês em Portugal e salienta que, na troika, ninguém olhava para Portugal. Mas afirma que o acionista chinês, a CTG, não manda na EDP. Foi no ECO24.

Diogo Lacerda Machado viveu em Macau e é um defensor do investimento chinês em Portugal. Elogia a disponibilidade para investir no país quando ninguém queria fazê-lo e salienta a perspetiva de longo prazo com que os chineses. Sobre a EDP, não esconde uma avaliação diferente entre a gestão, de António Mexia, e o principal acionista, a China Three Gorges, que é chinês. “A China Three Gorges é um acionista, é o maior de todos, mas não manda na EDP”.

Um acionista chinês entrou no capital da TAP através de um acordo com os privados da Atlantic Gateway, a holding que tinha David Neeleman e Humberto Pedrosa. E há outro conjunto de grandes empresas que têm acionistas chineses. Não é uma posição de dependência excessiva de Portugal face a um único investidor?

Deixe-me responder-lhe com a História. Se há lugar singular no mundo, é Macau. Macau é um exemplo extraordinário de como duas culturas completamente diferentes, há 505 anos, foram capazes de se encontrar, de convergir na primeira esquina do mundo, de desenvolver a capacidade de conviver harmoniosamente. É um lugar exemplar. Eu, que tive o privilégio de viver lá e mudar a minha perspetiva do mundo a partir dessa nobilíssima experiência, percebi o que é que significa essa capacidade de convivência. Percebi como os chineses, na sua cultura milenar, cultivam mesmo essa ideia de harmonia e convivência. Diria que são os investidores menos agressivos que poderá haver. Outra coisa, que tem a maior importância: durante estes anos sombrios do resgate e da troika, ninguém aqui investiu. Ninguém se aproximou sequer. E se houve quem se perfilou numa altura em que precisávamos de ajuda foram os chineses. Foi a China. Temos que saber valorizar isso, respeitar isso.

O país sabe respeitar isso?

Olhemos para os exemplos dos investimentos feitos e a pergunta que faço é: Encontram algum conflito? Algum caso de busca, de imposição de uma vontade própria unilateral? De querer a hegemonia? De querer mandar ou dispor? Os chineses e a China têm um sentido do tempo histórico que é maior do que o nosso. Fazem investimentos a longuíssimo prazo. Não é para terem um benefício amanhã. Esse ponto de vista, esse olhar e essa maneira de olhar a vida e de conviver com os outros tornou-os parceiros estratégicos de Portugal.

Durante estes anos sombrios do resgate e da troika, ninguém aqui investiu. Ninguém se aproximou sequer. E se houve quem se perfilou numa altura em que precisávamos de ajuda foram os chineses. Foi a China. Temos que saber valorizar isso, respeitar isso.

Diogo Lacerda Machado

Como interpreta, então, as críticas do Governo à EDP? O primeiro-ministro considerou que a EDP é uma empresa hostil a este Governo, e é controlada por um grupo chinês, a China Three Gorges.

Essa é outra questão. A ideia que eu tenho é que a maior acionista da EDP, a China Three Gorges, não manda na EDP… consabidamente. Se quisesse ser simpática e amigável para o Governo português, influenciaria os processos de formação de decisão de uma outra maneira. A EDP tem o seu comportamento, os seus órgãos próprios que formam a sua vontade, e escolheu este… Creio que não manda na EDP consabidamente. A China Three Gorges é um acionista, é o maior de todos, mas não manda na EDP.

O que é que o leva a dizer isso?

Tem 23% do capital. Mas, se reparar, a gestão da EDP é basicamente a mesma que lá estava em 2006, quando eu entrei no conselho geral e de supervisão da companhia. Não foi mudada sequer…

…O CEO, António Mexia, não mudou. Mas é possível que a EDP seja hostil ao Governo sem a cobertura do principal acionista? E o maior acionista propôs a continuidade de António Mexia para outro mandato.

Essa é a demonstração do que lhe disse antes: não há uma hegemonia. Não manda, não controla e, desse ponto de vista, dir-se-ia justamente que tem um comportamento apropriado para quem tem uma participação muito relevante, mas não manda na gestão, não dá ordens, tanto quanto sei, à gestão. E o que o primeiro-ministro disse, carregado de razão na minha opinião (não sou necessariamente imparcial) foi: Mas o que é isto? Com o anterior Governo, pagavam aquela taxa [a CESE]. Quando este Governo entra em funções, mudam de opinião e deixam de pagar. Não é preciso extrair um juízo. É a evidência.

Terão feito a sua avaliação de que a taxa não é justa.

Diga-me lá onde é que ela deixou de ser justa e passou a ser injusta, quando é a mesma taxa…

…Acrescento um ponto: era suposto ser uma taxa extraordinária…

E, portanto, havia ali uma espécie de tempo de caducidade sobre esse período da troika. Não, o que eu digo é que deve ter havido um momento em que a EDP entendeu que o que era até aí justo, passou a ser injusto. É uma evidência. Uma evidência.

Face à avaliação que faz sobre essa diferença entre o que é a posição dos principais acionistas, surpreendeu-o a proposta de renovação de mandato de António Mexia?

Não, é a continuidade.

Apesar de tudo, as críticas duras do primeiro-ministro à gestão e a essa hostilidade poderiam levar a uma avaliação diferente do acionista.

A EDP é uma empresa integralmente privada.

Sim, daí ser surpreendente que o primeiro-ministro fale no Parlamento dessa empresa privada…

…Não, perguntado, tanto quanto me recordo. Eu vou seguindo as intervenções do primeiro-ministro.

Mas não o surpreendeu que o primeiro-ministro fale naqueles termos de uma empresa privada?

Nada. Cada um no seu lugar. O senhor primeiro-ministro tem de defender os interesses de toda a coletividade que nós somos.

Mesmo quando se trata de uma empresa cotada em bolsa?

E por que não? Está cotada em bolsa como outras empresas congéneres de outros países, mas tem uma importância extraordinária. Felizmente, hoje, temos outros concorrentes para pôr a coisa bastante melhor. Nós ainda estamos naquilo a que eu chamo o fim de três ou quatro décadas em que a questão da energia era puramente de investimento público. Não era negócio para ninguém. Não era mercado. Trazer isso, que era obrigação de todos — levar energia a todos os cantos do mundo –, até àquilo que os tempos de um certo liberalismo (algo excessivo para mim) nos trouxeram, tem alguns sacrifícios, tem alguns momentos de incomodidade relativa. Haja, como aliás há, uma entidade reguladora que, a esse propósito, garanta uma espécie de equidistância na avaliação do que está em causa.

  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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