Eduardo Catroga: Gestão da pandemia “compara mal” e foi pautada por “propaganda, ideologia e arrogância política”

Quase um ano depois da pandemia chegar a Portugal, Eduardo Catroga é bastante crítico da atuação do Governo, mas espera que tenha aprendido com os erros. E desafia Marcelo a ter um papel mais ativo.

Afastado da política após ter ajudado Pedro Passos Coelho em vários dossiês entre 2011 e 2014, Eduardo Catroga vê à distância o estado da política nacional: em entrevista ao ECO publicada esta quarta-feira, o economista defende que o Governo deve continuar, afasta o cenário de um Governo de salvação nacional e pede que o PS defina o rumo do país para os próximos anos. Quanto à gestão da pandemia, não perdoa: diz que “compara mal” com os países asiáticos e outros países europeus e ataca a “propaganda”, “ideologia” e “arrogância política” do Governo.

O Presidente da República afastou definitivamente o cenário de um Governo de salvação nacional. É necessário?

Eu sou partidário da estabilidade governativa e do princípio de que os Governos devem ser julgados no final dos seus mandatos. Não estamos perante nenhuma crise política. Estamos perante a necessidade do PS, que está no poder, interiorizar não só as medidas de curto prazo de apoio à economia, mas quais são as medidas estruturais adequadas e necessárias para a melhoria da produtividade, como por exemplo no campo da justiça económica, da justiça tributária, da redução drástica da burocracia, da qualidade da despesa pública, no campo das prioridades quanto à alocação dos recursos estruturais da União Europeia, nas políticas de incentivo ao investimento produtivo e ao IDE, etc. O Governo, ultrapassada a fase de emergência, tem de ter um plano de reformas para aumentar a taxa potencial de crescimento económico, que é a grande questão quer a nível português, quer a nível da Zona Euro. A Europa, se não aumentar a sua taxa potencial de crescimento económico, vai perdendo relevância económica face à China, face aos EUA, face a outros blocos económicos. Portugal vai caminhar para a cauda da Europa em termos de rendimento per capita se não aproveitar este novo impulso.

Mas será necessário um Governo de salvação nacional?

Politicamente, o facto de haver um chamado Governo de salvação nacional… seria contrário às regras de funcionamento da nossa democracia. Só [admito isso] em períodos excecionais em que o partido mais votado pede apoio a outros partidos. Agora, o problema político português deriva de que não existe uma convergência entre as forças que acreditam no projeto europeu, na economia de mercado, que tem de ser competitiva e socialmente inclusiva. Esse conjunto de forças está repartido por vários partidos. Mas não é preciso nenhuma coligação formal para que haja uma convergência sobre as políticas estruturais necessárias para que Portugal melhore a produtividade e o ritmo de criação de riqueza.

PS e PSD deviam sentar-se para definir um rumo para o país?

Quem está no poder devia definir objetivos. Daqui a 10 ou 15 anos, como é que eu devo estar em rendimento per capita face à UE? Como é que eu contrario a tendência de caminhar para a cauda da Europa em termos de rendimento per capita? Quais são as reformas necessárias? Aí penso que o senhor Presidente da República podia ter um papel fundamental na convergência de um conjunto de políticas estruturais condizentes a estes objetivos.

Para o atingir é preciso uma maioria política e presumo que isso não fosse viabilizado à esquerda… teria de haver um entendimento do “centrão”?

Bem, cada partido assumiria as suas responsabilidades. Alguns elementos do PS eram capazes de não apoiar um programa deste tipo. Seria natural um fracionamento de apoios quer à esquerda, quer ao centro, quer à direita, entre as forças que acreditam no projeto e na economia de mercado socialmente inclusiva. Mas há muitas medidas que não precisam sequer de ir ao Parlamento, que são medidas de gestão, por exemplo no campo da justiça económica e tributária, medidas para incentivar o investimento direto estrangeiro (IDE), medidas para reforçar o ensino técnico-profissional, para introduzir a formação digital nas escolas, etc. Há medidas estruturais que eu identifico detalhadamente no meu livro — “Desenvolver Portugal – Reflexões em Tempos de Pandemia” — que são da competência pura e simples do Executivo.

Como é que classifica o desempenho da gestão da pandemia?

Quando comparo a performance económica de Portugal ou de uma empresa, costumo comparar com a performance económica dos parceiros no mesmo espaço económico ou costumo comparar com a performance económica das empresas do setor porque a performance é sempre relativa. Relativamente à performance da gestão da crise pandémica, não há dúvida de que a Europa geriu a crise pandémica com uma performance inferior à generalidade dos países da Ásia, atendendo aos seus impactos económicos e sanitários. Este é um facto. Podemos encontrar várias razões. Por sua vez, Portugal geriu a sua crise sanitária no espaço europeu e a performance relativa, até à data, é fraca. Estamos muito mal posicionados no contexto europeu.

O que falhou?

Não sou especialista, portanto não tenho remédios, mas a política de comunicação num determinado momento era mais orientada para a propaganda, do que propriamente para a informação, e houve demasiada ideologia e um insuficiente diagnóstico na fase inicial. Quando temos um qualquer problema, temos de ter um bom diagnóstico para termos uma boa terapia. E aqui não tivemos um bom diagnóstico. Estamos agora a tentar aprender com os erros e olhar para as boas práticas a nível europeu.

Quem está no poder devia definir objetivos. Daqui a 10 ou 15 anos, como é que eu devo estar em rendimento per capita face à UE? Como é que eu contrario a tendência de caminhar para a cauda da Europa em termos de rendimento per capita? Quais são as reformas necessárias?

Eduardo Catroga

Economista

Há falta de planeamento?

Claro. Quando eu tenho um problema seja ao nível de um país, de uma empresa ou ao nível de uma família, eu tenho de fazer um bom diagnóstico, ou seja, identificar as causas do problema para depois definir uma boa terapia. Não há dúvida de que o vírus era novo, não havia experiência, os cientistas também não se entendiam muitas vezes… Pode haver atenuantes para os erros cometidos, mas não há atenuantes para alguma arrogância política numa primeira fase. É preciso humildade quando sabemos pouco sobre uma determinada matéria. Eu agora vejo uma tentativa de se aproveitar os erros e caminhar na linha mais correta. Falta reforçar e orientar os apoios para as empresas.

Chineses a comprarem mais empresas em Portugal por causa da pandemia “é um não problema”

Na crise anterior foram principalmente os chineses que compraram ativos portugueses que tiveram de ser vendidos. Vai acontecer de novo ou a União Europeia mudou?

A crise veio pôr a nu as insuficiências de capital próprio que tem a ver com a evolução longa negativa da poupança nacional bruta da economia portuguesa (a soma da poupança das famílias, do Estado e das empresas). Andava quase na casa dos 30% e chegou na crise de 2011 à casa dos 8%. Nós não tínhamos poupança e quem não tem poupança não tem capitais próprios para fazer investimento. No fundo, a anterior crise, veio mostrar que não tínhamos capitais suficientes para estar no núcleo duro acionista das grandes empresas portuguesas, como a EDP, a PT, a Cimpor, etc. E este fenómeno vai agravar-se. Se olharmos para as estruturas acionistas e para os capitais de quem está a investir em venture capital e em private equity, concluímos que são fundos de investimento internacionais e que os capitais portugueses têm um montante meramente residual. Estamos dependentes dos capitais estrangeiros, da poupança estrangeira, para a nossa recapitalização. Por isso é que muito importante aproveitar os subsídios europeus para a recapitalização das empresas e ter uma política ativa de captação de IDE.

Isso significa que pode acontecer o mesmo que em 2011, com a China a comprar ativos em Portugal?

Eu trato esse problema no capítulo do meu livro sobre o IDE, os campeões europeus e o capital chinês. Se formos analisar o stock de IDE (não confundir o stock com fluxos anuais em determinados anos) chinês em Portugal comparamos mal com outros países europeus como a França e a Alemanha e o montante é muito fraco relativamente ao PIB. As empresas chinesas estão apenas em alguns setores, como por exemplo: detêm quase 20% da EDP, 20% da REN, está no setor dos seguros, dos bancos e da saúde e mais noutros setores. É um stock de IDE muito baixo relativamente ao PIB comparativamente do stock de capital de outras origens, como os EUA, a Alemanha, a Espanha, etc.

Ou seja, considera que é um não problema?

É um não problema. O que não significa que, ao nível da UE, seja encontrado um contrato de parceria estratégica UE-China para o comércio e o investimento com regras equitativas justas. É essencial o princípio da reciprocidade. Temos de ter regras recíprocas no sentido de encontrar projetos win-win. Estamos a caminhar para um mundo multipolar. A globalização ao longo da história produziu sempre ciclos com períodos de abrandamento e até de recessão. Vamos ter um período de abrandamento e de estagnação, a caminhar para a redução dos fluxos internacionais do comércio e de investimento por X tempo que é difícil de avaliar. Os EUA e a China, já desde 2014, têm economias cada vez mais baseadas na dinâmica da procura interna justificada pela sua grande dimensão.

A Europa tem capacidade para fazer o mesmo?

A Europa não tem ainda condições para ter um modelo económico primordialmente baseado na procura interna por um conjunto de fatores. A Europa precisa de uma economia aberta internacional com regras. Precisa de fluxos de comércio e de investimento das economias mais dinâmicas do mundo que estão na Ásia e com as economias emergentes em geral. Temos de defender os nossos interesses, mas não podemos ter derivas ideológicas como certas correntes extremistas e fundamentalistas que procuram criar aqui um novo tipo guerra de fria e de tipo ideológica EUA/China. Temos de defender no quadro europeu um modelo de cooperação económica internacional de acordo com regras justas e no quadro da OMC [Organização Mundial do Comércio]. E com a China temos de saber tirar proveito das nossas relações históricas porque não podemos ignorar que a prazo será a maior economia do mundo.

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