Espaço da Web Summit vai mesmo duplicar? “Não fui informado de nada em contrário”, diz Paddy Cosgravepremium

A duplicação da área da FIL está acordada desde 2018, mas nunca chegou a acontecer por divergências entre a câmara e a AIP. O CEO da Web Summit espera que seja para o ano, como ficou acordado.

Além de um cheque anual de 11 milhões de euros, um dos compromissos assumidos pelo Estado português e o município de Lisboa com a empresa de Paddy Cosgrave foi a duplicação do espaço da FIL até 2022. O tema é de grande importância para a Web Summit, já que o crescimento da área permitirá receber mais expositores e visitantes, logo trazer muito mais receita.

A data original para a ampliação era outubro de 2021, mas a falta de acordo com a Fundação AIP (proprietária da FIL) não permitiu que ela se realizasse. A Câmara de Lisboa conseguiu fazer uma adenda que estendeu o prazo em um ano. Agora o CEO da Web Summit espera que o compromisso seja honrado. "Não fui informado de nada contrário", garante em entrevista ao ECO.

Procura não é um problema, garante o cofundador. "O evento poderia facilmente ter 100 mil pessoas e duas a três vezes mais espaço de exibição". Até porque "Lisboa é a cidade mais quente do momento". Este ano, com as restrições pela Direção-Geral de Saúde (DGS), a conferência vai receber apenas 40 mil visitantes.

Paddy Cosgrave deixa ainda elogios ao sucesso do processo de vacinação em Portugal. O número de inscrições foi crescendo, "sobretudo pelo facto de Portugal ter estado na primeira página de todos os jornais do mundo por ser o país com a maior taxa de vacinação. Todo esse marketing gratuito sobre Portugal ajudou a que trazer a Web Summit de volta muito mais depressa".

O ano passado disse esperar 70 mil participantes na Web Summit (WS) de 2021. Virão 40 mil. Efeito pandemia ou...

Em 2019 tivemos 70 mil participantes. Inicialmente, comunicamos ao Governo que as nossas estimativas conservadoras apontavam para 10 mil pessoas, depois fizemos uma atualização para 15 mil, depois 20 mil. Com as restrições implementadas, a capacidade máxima para o evento é 40 mil pessoas, não vamos acima deste número.

Se não fossem as restrições da pandemia os números seriam ainda maiores? O evento em Lisboa ainda tem esse poder de atração?

Temos uma responsabilidade para com a DGS e a Organização Mundial de Saúde (OMS), que olharam para os nossos protocolos. O desenho do evento visa satisfazer protocolos muito sensatos definidos por especialistas. Não vou contradizer cientistas.

Teriam 60 a 70 mil visitantes? Tinham procura para atingir esses números?

A WS poderia ter 100 mil visitantes. No Collision, em Toronto, vendemos mais espaço de exibição no primeiro ano do que em Lisboa em 2019. A única restrição em Lisboa é a dimensão do espaço de exibição e, em 2021, há restrições adicionais que têm que ver com a circulação, densidade, distanciamento social. O evento poderia facilmente ter 100 mil pessoas e duas a três vezes mais espaço de exibição.

Fala-se há muito do compromisso para duplicar o espaço do evento. Tem alguma indicação da FIL ou do Governo de que este plano ainda se mantém?

Não fui informado de nada em contrário. Depois da WS vamos começar a discutir os próximos anos, estou desejoso de fazer isso. Neste momento, é a nossa final da Liga dos Campeões, que acontece na próxima semana. É a única coisa em que consigo pensar. Depois, começamos a discutir a próxima época, no final de novembro, dezembro.

Nos seus planos para a "próxima época" referiu a vontade de expandir a WS com eventos para além de Lisboa. Ainda se mantêm?

Em 2022, vamos realizar eventos adicionais. Este ano vamos fazer o CIS e o Venture -- dois eventos que se realizam no domingo e na segunda antes do arranque da WS. Em 2022, vamos adicionar outros. Onde vamos fazer isso? Do ponto de vista logístico é fisicamente mais simples e apelativo para os participantes que vêm de todo o mundo se tudo se realizar em Lisboa ou na zona circundante. Estivemos a analisar fazer coisas em Coimbra, Porto, Açores, Madeira, Faro, mas a questão é sempre a disponibilidade dos participantes em viajar duas vezes, porque muitos vêm do outro lado do mundo. Iremos fazer eventos adicionais, se os iremos fazer em cidades adicionais ou localizações está ainda em aberto. Penso que deveremos fazer em áreas circundantes na zona de Lisboa.

Paddy Cosgrave, CEO da Web Summit.Luís Ribeiro 26 outubro, 2021

O Hub Criativo do Beato (HBC) poderá ser um dos locais a receber eventos? Como sabe ainda está em construção.

O maior desafio será os espaços [para os eventos]. Usamos tantos espaços durante o dia e à noite. A WS não acontece apenas na FIL, no Altice Arena ou na zona da Expo, acontece em toda a cidade e está a expandir. Depois há os eventos de terceiros, todas as noites há literalmente centenas de eventos a acontecer por toda a cidade em restaurantes, bares, teatros... Há um limite natural na cidade, simplesmente não há espaço suficiente. Se o HCB estiver disponível iremos devorá-lo, adoramos usar qualquer espaço cool, não temos quaisquer objeções.

Pode especificar quais os eventos que quer lançar em 2022?

Um deles é o Gathering. Organizamos um evento depois da WS chamado Founders, que reúne fundadores de 150 unicórnios e empresas quase unicórnios, de terça à noite até domingo de manhã. O Gathering irá realizar-se de sábado à noite até segunda à tarde, e traz 150 ou 200 fundadores das mais interessantes companhias early stage do mundo, sobretudo empresas série A. Além disso, queremos organizar uma série de encontros para executivos de nível C que vêm à WS, mas que não são necessariamente oradores. Cada vez mais, empresas blue chip e techs de grande dimensão usam muitas vezes a WS como um offsite. Penso que há uma oportunidade de juntar os CEO de 200 das mais interessantes companhias tech do mundo, que podem aprender em conjunto, estarem juntos durante dois dias, comparar notas, e repetir isso para os CMO e CTO.

O número [de participantes] foi crescendo, sobretudo pelo facto de Portugal ter estado na primeira página de todos os jornais do mundo por ser o país com a maior taxa de vacinação. Todo esse marketing gratuito sobre Portugal ajudou a que trazer a Web Summit de volta muito mais depressa.

Paddy Cosgrave

CEO da Web Summit

Voltando ao espaço de exibição. A expectativa inicial era de que poderiam estar 70 mil. Mas a pandemia e as restrições limitaram esse número.

Num ano normal. As nossas expectativas em junho, e comunicámos isso ao Governo, é que teríamos 10 mil pessoas. Esse número foi crescendo, sobretudo pelo facto de Portugal ter estado na primeira página de todos os jornais do mundo por ser o país com a maior taxa de vacinação. Muitos outros países, sobretudo os maiores, não esperavam que Portugal fizesse isto melhor do que eles. Os alemães e os franceses tiveram dificuldades com o seu programa de vacinação. Todo esse marketing gratuito sobre Portugal ajudou a que trazer a Web Summit de volta muito mais depressa.

A menor participação teve algum impacto no número de empresas que pagaram para estar na Web Summit?

O espaço de exibição esgotou mais cedo do que em 2019, ainda em setembro.

Com os mesmos preços?

Foi o mesmo preço. E esgotou quatro semanas mais cedo do que em 2019. Temos o mesmo espaço de exibição, não temos é a grande tenda que tínhamos, porque a circulação do ar não é suficiente. Temos menos, sobretudo, para o segundo maior palco, a Pandaconf.

Ter o antigo comissário europeu para a Inovação como presidente da câmara é bom em qualquer cidade.

Paddy Cosgrave

CEO da Web Summit

Já falou com o novo presidente da CML, Carlos Moedas?

Conheço muito bem o Carlos Moedas.

Mas numa posição diferente, era Comissário Europeu.

Estamos em contacto e vou estar com ele esta quarta-feira.

O que é que tem para lhe dizer? Quais são as suas preocupações?

Para este ano, não temos preocupações. Trabalhamos de forma muito próxima com o Ministério da Saúde, a DGS e a OMS. Não acredite em tudo o que vê nas redes sociais, acho que são de facto muito bons. Toda a gente no mundo percebeu que os portugueses conseguiram organizar-se e resolver a pandemia.

Disse que não esperava que nada mudasse com a nomeação do novo presidente da câmara. Mas tem ideia de quais serão as expectativas de Carlos Moedas em relação à Web Summit?

Não vou pôr palavras na boca dele. Espero descobrir esta quarta-feira. Estive com ele umas 40 vezes nos últimos cinco anos. Falei com ele muitas mais. Ele é muito competente, muito ambicioso e compreende muito bem a tecnologia. Ter o antigo comissário europeu para a Inovação como presidente da câmara é bom em qualquer cidade.

Quando chegamos há cinco anos pensei que Lisboa iria ter um momento, muita imprensa não acreditou, mas Lisboa está "on fire", é a cidade europeia mais quente no momento.

Paddy Cosgrave

CEO da Web Summit

Durante a campanha autárquica Moedas disse querer criar em Lisboa uma "fábrica de unicórnios". É a forma correta para elevar ao estatuto unicórnio o ecossistema de startups português?

Portugal tem sido incrivelmente bem-sucedido, tem um elevado número de unicórnios per capita. Um ecossistema que começou a desenvolver-se mais tarde do que noutros países europeus. Quando chegamos há cinco anos pensei que Lisboa iria ter um momento, muita imprensa não acreditou, mas Lisboa está on fire, é a cidade europeia mais quente no momento. Isso traz muitas oportunidades mas também muitos desafios. No que toca aos unicórnios, do meu ponto de vista é fantástico haver unicórnios pois são grandes exemplos e podem servir de inspiração, contudo se olhar para a economia alemã, a sua espinha dorsal são pequenas e médias empresas.

É preciso apostar também nas pequenas e médias empresas.

A única coisa melhor do que 10 unicórnios são 100 companhias de 100 milhões. E melhor do que isso são 1.000 empresas de 10 milhões. Percebo que para políticos e jornalistas seja mais fácil escrever sobre a empresa de sucesso, as Farfetch ou as Defined Crowd deste mundo, mas na verdade a economia é sustentada pelas pequenas e médias empresas. E muitas dessas empresas estão a emergir. O Road 2 Web Summit [programa com a Startup Portugal] é um evento que fazemos há vários anos e uma série de coisas mudaram.

Que mudanças vê no ecossistema português?

Há 3 ou 4 anos eram praticamente só empreendedores homens. Hoje a maioria dos empreendedores não são de Portugal, são de países de todos os cantos do mundo que decidiram que Portugal é o país onde querem construir uma companhia. Há 3 anos nenhuma dessas empresas early stage eram financiadas, não havia um ecossistema vibrante para financiar empresas portuguesas, havia um número reduzido de venture capitals em Portugal e as empresas portuguesas tinham dificuldade em levantar financiamento no mercado internacional. Isso mudou completamente. Se uma empresa portuguesa contacta uma venture capital de Silicon Valley não é tema. Portugal tem um bom e crescente histórico, o número de empresas na Road 2 to WS já com financiamento de 5, 10 ou 20 milhões é uma diferença maciça.

Penso que os unicórnios são incrivelmente importantes, mas igualmente importante é o que se está de facto a passar no nível mais baixo. E não estou a contradizer Carlos Moedas, porque sei que ele concorda com isso. É preciso ter mil empresas de 10 milhões a empregar 50 pessoas e 100 companhias de 100 milhões que empregam 200/300 pessoas. Isso cria uma vibração de longo prazo muito maior.

Diz que para muitas das empresas no Road 2 WS Portugal é o país que gera mais interesse...

Para construir uma empresa. É muito diferente da situação da Irlanda, onde grandes empresas decidem instalar ali o seu call centre. Não se deve dizer não a esses empregos, mas são categoricamente diferentes de o CEO ou o CTO mudar-se para um país e dizer é aqui que nos vamos sedear. É materialmente diferente e tem um impacto cumulativo na força do ecossistema como um todo.

Portugal desceu cinco posições, para o 17.º lugar, no The Global Startup Ecosystem Report 2021...

Esse relatório tem por base dados com quatro anos. Vi isso no Twitter e inicialmente a minha reação foi 'isto é terrível', mas isso é um relatório com base em dados de 2017, o que em anos startup é como se fosse do século passado.

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