Félix Morgado: “É mesmo necessário uma mudança de marca” para diferenciar o banco Montepio da Mutualista

O ex-presidente do Montepio diz que é preciso separar a marca entre o banco e a Associação Mutualista. Para Félix Morgado, a casa está arrumada depois do "trabalho notável" da sua administração.

Félix Morgado esteve dois anos à frente do Montepio. Na hora da saída, não tem dúvidas que a missão que tinha pela frente era difícil, mas diz que está cumprida. Hoje, garante, a casa está arrumada, mas falta separar claramente o banco da Associação Mutualista.

Em entrevista ao ECO24, uma parceria entre o ECO e a TVI24, diz-se defensor da separação das marcas entre o Montepio e a Associação Mutualista, mas admite que a ideia não foi sua. Foi do Banco de Portugal. De resto, confessa que existe um estudo feito pela instituição a dar conta dos custos dessa alteração e até da marca que se deveria escolher. Uma decisão que caberá ao acionista.

Sobre o seu futuro, diz que agora vai de férias. Depois vai tirar uma sabática que, diz, “acha que merece”, até porque “este conselho de administração [que liderou desde 2015] fez um trabalho notável”.

Falou da separação entre a Associação Mutualista e a Caixa Económica, leia-se o banco. Em que medida é que avalia a separação entre as duas entidades?

A separação teve início em 2015, logo após este conselho de administração ter tomado posse em agosto. O balanço que fazemos é positivo. Recordo que, por determinação do Banco de Portugal, a Caixa Económica foi transformada em sociedade anónima, um regime jurídico equivalente às demais instituições de crédito e toda a gestão, quer em termos de processo de decisão, quer em termos de gestão de custos, foi imediatamente separada. Em 2018, o novo conselho de administração encontra uma casa que, de vários pontos de vista, mas também desses, é uma casa arrumada e que tem uma situação normalizada. O que são custos da Caixa Económica, são custos da Caixa Económica, o processo de decisão em termos de governo societário da Caixa Económica é processo de decisão do governo societário da Caixa Económica…

E financiamentos cruzados entre as duas entidades? Isto é, do banco à Associação Mutualista… o que encontrou e o que é deixa?

O que lhe posso dizer é que desde agosto de 2015 não houve qualquer financiamento cruzado da Caixa Económica à Associação Mutualista.

A Associação Mutualista não se financiou no banco para acomodar e melhorar as suas contas?

Não.

Sublinhou a necessidade da separação de marcas, de forma clara, entre a Associação Mutualista e a Caixa Económica. Isso era uma imposição do Banco de Portugal ou era uma ideia sua?

Há uma determinação do Banco de Portugal, em 2015, para haver uma diferenciação e uma separação de marcas. Não foi uma ideia minha, mas sim uma determinação do Banco de Portugal. Depois basta ouvir comentadores, políticos e até o primeiro-ministro para se perceber que é urgente separar porque não se percebe de quem falam. O regulador do banco é o Banco de Portugal, o regulador da Associação Mutualista é o Ministério do Trabalho e da Segurança Social. Penso que basta a situação atual para justificar que é mesmo necessário uma mudança de marca. É importante que os clientes percebam que quando entram e fazem um depósito na Caixa Económica estão a fazer um depósito na Caixa Económica e quando estão a subscrever qualquer outro produto da Associação Mutualista estão a subscrever um produto da Associação Mutualista.

Nós desenvolvemos esta ideia durante um ano, foi acompanhado com grande proximidade e detalhe pelo regulador e é um plano que está em curso. A fase final desse plano será uma decisão do acionista, que vai ter que decidir se muda de marca ou não, e se muda para que marca. Há uma determinação do Banco de Portugal e haverá uma decisão do acionista nessa matéria. É evidente que se o acionista decidir não mudar isso terá depois consequências, em termos de risco e, em termos de necessidades de capital impostas pelo regulador.

É essa a consequência? O Banco de Portugal exigirá mais capital?

Normalmente é essa a consequência. Como o senhor governador do Banco de Portugal explicou, os temas do capital dependem do risco do negócio. Se houver mais risco, é preciso mais capital. De resto, procedemos à alteração da designação de alguns produtos de poupança. Neste momento são depósitos “3D Caixa Económica”, têm a designação incorporada da Caixa Económica percetível. Mudamos também a imagem dos balcões, em cerca de 1/3 dos balcões, criámos um espaço próprio para o atendimento dos associados, foi alterada a sinalética que existe relativamente às áreas de negócio, ou seja, foram dados um conjunto de passos nessa matéria. Também já foram feitos estudos de quais as consequências em termos de uma alteração de marca.

"Basta a situação atual para justificar que é mesmo necessário uma mudança de marca. É importante que os clientes percebam que quando entram e fazem um depósito na Caixa Económica estão a fazer um depósito na Caixa Económica e quando estão a subscrever qualquer outro produto da Associação Mutualista estão a subscrever um produto da Associação Mutualista.”

José Félix Morgado

Ex-CEO do Montepio

Mas essas mudanças têm sido percetíveis para os consumidores?

Têm sido percetíveis para uma grande parte dos consumidores. Se me perguntar se é suficiente? Tenho que dizer que não. Por isso é que isto não é um fim. É um processo. Volto a dizer: as recentes notícias e o modo como se aborda as duas entidades demonstram como é necessário que essa decisão seja tomada.

 

Mas deixa o trabalho a meio, é essa a conclusão que tira?

Não. Tínhamos um plano estratégico para o período de 2016-2018. Grande parte foi feita nestes dois anos, em termos de organização do banco, do reforço do sistema de controlo interno, do modelo de negócio. Em 2015, a Caixa Económica teve um resultado negativo de 250 milhões, em 2016 — que foi o primeiro ano do nosso mandato — esse resultado foi ainda negativo, mas passou de 250 milhões para 86 milhões, e em 2017, voltámos aos lucros com 30 milhões. Sempre disse que a Caixa Económica tinha entrado mais tarde neste período de recuperação, que todos os bancos tiveram, mas que sairia mais cedo. E foi isso que aconteceu. Diria que falta um terço desse trabalho, relativamente a uma ou duas áreas, para completar o plano inicial.

Por onde é que passa o seu futuro? Vai continuar ligado à banca?

O meu futuro passa, neste momento, por férias. E depois por uma sabática, que acho que mereço. Ao longo de dois anos e meio, este conselho fez um trabalho notável de recuperação não só da Caixa Económica, mas deu uma contribuição enorme para o sistema financeiro. Este trabalho é meu e de toda a equipa, os 3.200 trabalhadores da Caixa Económica, o que é muito significativo porque em 2015, quando pegámos no projeto, havia um risco sistémico que, neste momento, não existe. Há aqui uma grande contribuição para a economia social e para o sistema financeiro de todos os trabalhadores da Caixa Económica.

  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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