“Há muito mais pessoas afetadas pelas alterações climáticas, do que pela atual crise de saúde pública”

Susana Fonseca, da direção da Zero, diz que o novo coronavírus veio mostrar que "quando a causa é relevante, é possível intervir de forma muito clara e com elevado impacto, no mundo empresarial".

Susana Fonseca, membro da direção da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, não hesita em dizer que há impactos positivos e negativos da pandemia de Covid-19 no ambiente e na luta contra as alterações climáticas. De um lado a redução momentânea das emissões de gases poluentes e do consumo excessivo, do outro a enorme produção de resíduos descartáveis e o adiamento de debates e decisões importantes em diferentes áreas ambientais, como a luta contra os plásticos.

Mas se há algo que o novo coronavírus veio mostrar, garante, é que “quando a causa é relevante, é possível intervir de forma muito clara e com elevado impacto, no mundo empresarial e nas vidas dos cidadãos. Leva-nos a perguntar por que razão o mesmo não acontece em questões prementes como a crise dos refugiados, as alterações climáticas, a perda de biodiversidade ou a poluição do ar?”

Em entrevista ao Capital Verde, do ECO, Susana Fonseca responde à sua própria pergunta: “Talvez porque as pessoas e os decisores políticos não conseguem sentir, da mesma forma, a ameaça à sua integridade física quando se fala de alterações climáticas, nem as consequências tendem a ser tão próximas. Mas o facto é que já hoje há muito mais pessoas afetadas de forma profunda pelas alterações climáticas, com riscos para a sua saúde (em termos de abastecimento de água e alimentos, de fenómenos extremos como secas e cheias), do que pessoas afetadas pela atual crise de saúde pública. Mas estes impactos são, no essencial, tendencialmente longínquos, sem rosto e dispersos no tempo”.

Que impactos positivos e negativos da pandemia de Covid-19 podem ser identificados no ambiente e na luta contra as alterações climáticas?

Positivos

Redução conjuntural nas emissões de gases poluentes devido ao abrandamento de muitas atividades económicas e da mobilidade dos cidadãos.

– Demonstração de que quando a causa é relevante, é possível intervir de forma muito clara e com elevado impacto, no mundo empresarial e nas vidas dos cidadãos. Leva-nos a perguntar por que razão o mesmo não acontece em questões prementes como a crise dos refugiados, as alterações climáticas, a perda de biodiversidade ou a poluição do ar (que leva à morte prematura de cerca de 7 milhões de pessoas por ano de acordo com a Organização Mundial de Saúde), entre vários outros temas.

– Oportunidade para as pessoas e empresas testarem as potencialidades do teletrabalho e desmistificarem mitos; desta experiência poderá resultar uma maior aposta neste modelo de trabalho, tendencialmente menos impactante em termos de aquecimento global.

– Oportunidade para as pessoas perceberem que, de facto, não necessitam de muitos bens de consumo, como roupas, acessórios, etc. com a cadência habitual. Pode até ser uma experiência interessante de autorreflexão sobre as nossas reais necessidades.

Negativos

Enorme produção de resíduos descartáveis, cuja produção e fim de vida (muitas vezes incineração) irão aumentar as emissões e a exploração de recursos essencialmente não renováveis;

– Algumas famílias apresentam um comportamento de açambarcamento de bens alimentares que poderão, se não for feita uma boa gestão, resultar em desperdício alimentar;

– Adiamento de debates e decisões importantes em diferentes áreas ambientais como a luta contra os plásticos ou as alterações climáticas. O período de retoma da economia (que se espera aconteça eventualmente daqui a uns meses) será também pouco propício à implementação das mudanças estruturais necessárias ao combate às alterações climáticas a não ser que haja a visão para prevenirmos próximas crises que se sabe irão ter lugar. A bem da sustentabilidade, era excelente se aproveitássemos esta emergência pandémica para reconstruirmos um sistema global mais apostado na prevenção, alterando a forma como vivemos, produzimos e consumimos.

Hoje há muito mais pessoas afetadas de forma profunda pelas alterações climáticas, com riscos para a sua saúde (em termos de abastecimento de água e alimentos, de fenómenos extremos como secas e cheias), do que pessoas afetadas pela atual crise de saúde pública.

Susana Fonseca, ZERO

As atenções que em 2020 estavam todas viradas para a temática ambiental foram desviadas para esta crise de saúde pública?

Sem dúvida. E esse desvio poderá não ser apenas momentâneo, mas antes perdurar no tempo, devido à necessidade de voltar a pôr de pé o atual modelo de produção de consumo sem qualquer questionamento, repetindo-se erros de crises passadas.

Porque é que há uma união mundial tão grande para combater o vírus mas não se passa o mesmo com a crise climática?

Talvez porque as pessoas e os decisores políticos não conseguem sentir, da mesma forma, a ameaça à sua integridade física quando se fala de alterações climáticas, nem as consequências tendem a ser tão próximas. Mas o facto é que já hoje há muito mais pessoas afetadas de forma profunda pelas alterações climáticas, com riscos para a sua saúde (em termos de abastecimento de água e alimentos, de fenómenos extremos como secas e cheias), do que pessoas afetadas pela atual crise de saúde pública. Mas estes impactos são, no essencial, tendencialmente longínquos, sem rosto e dispersos no tempo. Um pouco como a estória dos caracóis: se são colocados em água a ferver fogem, mas se a água for aquecendo…

A baixa nas emissões poluentes para a atmosfera (menos aviões, menos carros, menos fábricas) será benéfica a médio prazo ou apenas temporária?

Estamos perante uma alteração conjuntural e não estrutural, pelo que o mais provável é que a médio e longo prazo de pouco valerá, a não ser que a injeção de dinheiro na economia seja feita com contrapartidas que proporcionem emprego e salvaguardas ambientais.

Quando os países e as economias voltarem à normalidade o ambiente vai sofrer?

Talvez não venhamos a assistir a mais poluição, mas é pouco provável que venha a ser diferente (no sentido de ser menor) da situação prévia anterior à crise. Não estamos a refletir sobre nada. Não há pensamento sobre o que poderemos fazer diferente na retoma. Há um estado de alerta que não parece dar espaço para qualquer reflexão mais estrutural. A urgência é perceber como as empresas, as famílias, as próprias instituições públicas e a sociedade em geral conseguirá ultrapassar este momento difícil. Talvez entre os pequenos contributos desta crise em prol do ambiente possa ser a experiência, ainda que forçada, de trabalhar a partir de casa ou de algumas restrições ao consumo de certos bens.

A pandemia pode travar a expansão das renováveis?

Não nos parece que exista qualquer relação entre uma coisa e outra. Poderá haver algum desaceleramento em termos de investimentos públicos e privados, mas parece-nos ser mais um dos setores afetados pela presente situação, que recuperarão paulatinamente quando ultrapassarmos este período mais crítico.

No que diz respeito ao plástico, sobretudo de uso único, a pandemia pode aumentar o seu consumo?

Sem dúvida a pandemia tem contribuído para um aumento muito significativo da utilização de produtos descartáveis/de uso único, no sentido de aumentar, em alguns casos de forma correta, noutros apenas em termos de perceção, a segurança das pessoas. Existem inúmeras áreas onde, de facto, o aumento terá necessariamente de ocorrer. Na área da saúde isso é inegável. Contudo, existem outras, onde podem surgir medos infundados, nomeadamente relacionados com a reutilização de determinados objetos, recipientes, etc. O facto é que os sistemas de lavagem de copos, pratos, talheres, por exemplo na restauração, têm que garantir a higienização plena dos mesmos, pelo que por essa via não ocorrerá qualquer contágio. Portanto, não é tanto a utilização de recipientes, embalagens reutilizáveis que é um risco, desde que sejam seguidas as regras básicas de higienização, mas antes o seu manuseamento, algo que também acontece com os descartáveis.

Quando a causa é relevante, é possível intervir de forma muito clara e com elevado impacto, no mundo empresarial e nas vidas dos cidadãos. Leva-nos a perguntar por que razão o mesmo não acontece em questões prementes como a crise dos refugiados, as alterações climáticas, a perda de biodiversidade ou a poluição do ar (que leva à morte prematura de cerca de 7 milhões de pessoas por ano de acordo com a Organização Mundial de Saúde

Susana Fonseca, ZERO

As pessoas fechadas em casa reciclam menos?

Não necessariamente. Até poderão separar os seus resíduos seletivamente com maior frequência, visto que em muitos casos têm mais tempo e podem aproveitar a colocação num ecoponto para passearem um pouco e apanharem sol.

Que dicas de eficiência energética deixam para as pessoas que estão em casa em isolamento social?

Neste momento de temperaturas mais amenas, aconselhamos ao arejamento da casa a meados do dia, quando a temperatura está mais elevada, para melhorar o conforto térmico. Desligar a luzes e os equipamentos desnecessários se não estiverem a ser utilizados.

Gastam mais água, mais eletricidade e mais gás. Como podem poupar na carteira e no ambiente?

Em termos pessoais haverá mais gastos pelo tempo passado em casa e por isso mesmo se torna mais relevante comportamentos de poupança, dado que muitos desses gastos aconteciam nos locais de trabalho. Como muitas pessoas estarão com mais tempo disponível, nem que seja no tempo que poupam por não terem que fazer deslocações, podem também aproveitar para se informarem melhor sobre como poupar água, gás ou eletricidade. Há muitas oportunidades, sendo a prioridade na gestão da água para a redução do tempo de duche; na eletricidade, admitindo que a climatização não é atualmente necessária, a ênfase deve ir para a gestão das máquinas de lavar roupa e loiça que devem ter cargas máximas aquando da lavagem e em programas mais económicos e de preferência, se tiverem tarifa bi-horária, ser usadas no período mais barato; no gás, poupar nos banhos e em lavagens com água quente.

Consideram que estes serviços básicos deviam ser oferecidos pelas empresas neste momento?

Os dados indicam que o preço é um fator importante para promover um uso mais regrado. Assim, para já, não somos apologistas da ideia de tornar gratuitos estes serviços básicos.

Mais tempo em casa é igual a mais lixo e resíduos. O esforço de reciclagem deve ser maior?

O esforço de separação é idêntico, visto que se já faziam a separação seletiva em casa, separar uma embalagem ou cinco ou seis não altera significativamente a tarefa. O que pode alterar é a frequência de visita ao ecoponto, mas na conjuntura atual até pode ser uma oportunidade para poder dar um pequeno passeio.

Quem tem ecopontos longe de casa, como faz?

Aproveita para dar um passeio um pouco mais longo e fazer um belo exercício

Que dicas de consumo sustentável deixa para quem está em casa?

Dado que terá menor atividade física (mesmo que pratique alguma atividade, há várias deslocações e movimentos que neste momento não acontecem), deve reduzir o aporte calórico, isto é, reduzir as quantidades de alimentos consumidas e privilegiar uma alimentação baseada nos princípios da dieta mediterrânica.

Deve também ter confiança de que não haverá quebras de abastecimento, pelo que não há necessidade de açambarcar. O açambarcamento tem um elevado risco associado de aumentar o desperdício alimentar, na medida em que as pessoas fazem compras movidas pelo medo e não orientadas por uma lista de necessidades real.

Aproveitar para desenvolver atividades lúdicas que não impliquem gastos de recursos naturais, como jogos, atividades desportivas em família. Aderir a um cabaz de produtos frescos entregues em casa. Estes cabazes são uma excelente forma de reduzir a quantidade de embalagens usadas. Ter atenção à correta colocação dos resíduos em particular se suspeita que pode ter o corona vírus. Neste caso todos os resíduos devem ser bem acondicionados em sacos duplos e colocados no lixo comum. Caso não esteja infetado, então deve seguir os seus procedimentos habituais de separação seletiva e encaminhamento para os ecopontos. É fundamental que as luvas e máscaras descartáveis que eventualmente utilize, sejam colocadas nos contentores de lixo comum e nunca no ecoponto, visto não serem passíveis de reciclagem e poderem ser uma fonte de contaminação.

Com mercados tradicionais e lojas a granel fechados, consumidores têm de optar por produtos embalados, e com maior validade?

Não há razões para os mercados tradicionais ou as lojas a granel fecharem. Se é possível controlar as pessoas num supermercado, também o é num mercado tradicional (principalmente se este decorrer num recinto vedado). Nas lojas a granel também é possível ter cuidados de higiene aumentados, garantindo assim a possibilidade das famílias se abastecerem de forma mais ecológica (e sempre segura).

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