Impacto da nova variante? “Os economistas têm de ter muito cuidado com as suas previsões”, diz António Mendonçapremium

O ex-ministro das Obras Públicas e professor do ISEG candidata-se a bastonário da Ordem dos Economistas cuja eleição decorre esta sexta-feira. Em entrevista, fala de economia e da Ordem.

António Mendonça vai disputar esta sexta-feira o cargo de bastonário da Ordem dos Economistas com Pedro Reis, ex-presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP). Já foi ministro das Obras Públicas (2009-2011) na fase final do segundo Governo PS de José Sócrates e foi fundador da Ordem dos Economistas. Em entrevista ao ECO, o professor de economia do ISEG fala de economia, política e do futuro da Ordem.

Sobre a nova variante da Covid-19 e o seu potencial impacto económico, o economista diz que é preciso ter "muito cuidado" com previsões neste momento de elevada incerteza. Para as eleições legislativas antecipadas, António Mendonça mostra a esperança de que haja um consenso para implementar as "necessidades estruturais" que o país precisa para crescer mais.

O professor do ISEG não se inibe de criticar o atual Governo pela proposta do Orçamento para 2022, o qual classifica de "tímido e receoso porque ficava aquém daquilo que se podia fazer", mas reconhece que há um receio sobre uma mudança drásticas das condições económicas e políticas na União Europeia. Relativamente à inflação, diz que não é um "papão", que deve ser transitória e que até pode beneficiar os países mais endividados.

Emergiu uma nova variante de Covid-19. Ainda não há certezas, mas caso seja semelhante à variante Delta teme que haja consequências económicas?

Sim, é claro. Continua a haver muita incerteza, mesmo antes de aparecer esta nova variante. Temos sinais de recuperação económica, mas é algo que nós desconhecemos e por isso temos de estar preparados. E depois desta temos de estar preparados para outras variantes. A incerteza continua a marcar a situação económica atual, com tudo o que isso implica. Os efeitos económicos são mais graves porque a Covid-19 abateu-se quando ainda não tinham sido esgotados completamente os efeitos da crise 2008/2009. Estamos a atravessar um período de grandes incertezas a que estão associadas a transformações muito importantes do ponto de vista do funcionamento da economia global, desde o Brexit, à viragem dos EUA para o Indo-Pacífico, as novas alianças entre EUA, Reino Unido, Austrália e Japão, a orientação do Reino Unido a afirmar-se como potência global... Tudo isso aponta para um quadro de profundas alterações que ainda não sabemos exatamente no que vai resultar, mas estão a ocorrer e esta crise pandémica acelerou-as.

Como temos a vacina, com a informação existente no momento e a ressalva de que não é epidemiologista, é expectável que o impacto económico não se assemelhe aquilo que houve no passado?

Espero que não. Não sou epidemiologista, não me atrevo a fazer grandes conjeturas porque todas as que têm sido feitas acabam por esbarrar em qualquer coisa que não tinham previsto. Os economistas têm de ter muito cuidado com as suas previsões. São sempre sujeitas a erro. Basta haver uma pequena coisa para mudar completamente o cenário. Espero que haja capacidade de dar resposta aos efeitos. Temos mais instrumentos no quadro europeu, onde há consciência da importância da solidariedade, veja-se a resposta do Banco Central Europeu, o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) ou o Quadro Financeiro Plurianual (QFP).

Independentemente de quem for Governo vai lidar com o que se está a passar na inflação e política monetária. Está alarmado ou concorda com os bancos centrais e acha que é passageiro?

As orientações e declarações dos bancos centrais, não apenas do BCE mas também da Fed, são no sentido de que a inflação neste contexto não é um problema e pode ser transitório. Há um problema de adaptação da oferta à procura porque estava esteve muito comprimida e depois soltou-se. Hoje em dia também temos tendência de chamar inflação a qualquer simples subida de preços. Eu sou do tempo em que se discutia que a inflação não era apenas uma subida de preços, mas era uma subida permanente. No quadro europeu, repare que há muitos anos que o objetivo do BCE (2%) não é atingido há muito tempo. O BCE está com uma política de flexibilidade, mais até que os ministros das Finanças da Zona Euro, o que é curioso porque normalmente quem é mais ortodoxo na condução de política são os bancos centrais e neste momento parece que há uma inversão. E é de notar que a inflação pode ser um fator importante para a diluição das dívidas (públicas). Ou seja, não sou daqueles que vê a inflação como um papão. A inflação pode ter um papel positivo em determinados contextos.

"É de notar que a inflação pode ser um fator importante para a diluição das dívidas (públicas). Ou seja, não sou daqueles que vê a inflação como um papão. A inflação pode ter um papel positivo em determinados contextos.”

António Mendonça

Candidato a bastonário da Ordem dos Economistas

Temos eleições a 30 de janeiro. O professor já foi ministro e é economista. Seria positivo para o país ter uma maioria absoluta?

Sou economista, não sou político. Passei pelo Governo, um ano e oito meses, e fui convidado como economista e não por pertencer a um aparelho partidário ou ser amigo deste ou daquele. Não lhe falo como político, mas como economista e cidadão. Às vezes temos muito medo da instabilidade política, mas estamos num país que as instituições democráticas funcionam. O que está a ocorrer é algo que temos de considerar normal. O país está há duas/três décadas com dificuldades em ter uma trajetória sustentada de crescimento. Temos que olhar para isso. Independentemente do quadro de referências político-partidárias, toda a gente converge e está a de acordo que é preciso retomar uma trajetória de crescimento sustentado. O país precisa de um consenso relativamente às grandes transformações que é preciso pôr em marcha. Não sei se isso se faz com maioria absoluta, com aliança de partidos, mais à direita, mais à esquerda, ou mais ao centro. O que eu acho é que se ganhe a consciência dessa necessidade. Julgo que é importante, tendo em conta não apenas o contexto internacional e de pandemia mas sobretudo a necessidade de ultrapassar os constrangimentos que a economia portuguesa tem, existir consensos. Espero que nestas eleições haja capacidade de gerar um consenso ou, pelo menos, um largo apoio para as necessidades estruturais que é necessário introduzir.

O que retiro da sua resposta é que tem de haver acordos de longo prazo entre PS e PSD?

Tem de haver alguma convergência nessa matéria efetivamente. Espero que haja consciência da necessidade de encontrar consensos. Não sei se vai haver maioria absoluta porque é muito difícil de conseguir. Independentemente disso, é importante que haja acordos entre esses dois partidos com responsabilidade governativa.

A proposta do Orçamento para 2022 era boa e não devia ter sido rejeitada?

Era um Orçamento tímido e receoso porque ficava aquém daquilo que se podia fazer. Podia ter-se ido mais longe em termos de medidas, de contexto, aproveitando as taxas de juro zero e o contexto internacional. Poderia ter havido um pouco de ambição no aproveitamento da conjuntura. Mas compreendo também o receio porque também na crise 2008/2009 as primeiras orientações era para investir e gastar e depois passado um ano -- eu estive no Governo e assisti a essa mudança -- voltou tudo atrás. O Governo também tem medo. De um momento para o outro pode haver uma alteração e pode vir aí uma crise das dívidas soberanas. Seria um desastre para toda a Europa um retrocesso nas orientações.

Rui Rio venceu as internas do PSD. Ele também é economista. É um bom candidato a primeiro-ministro?

Venceu contra todas as expectativas. Ele é economista e é membro da Ordem de Economistas. É uma pessoa com consciência e experiência. Já tivemos outros primeiros-ministros que não tinham tanta experiência à partida como ele tem. Acredito que possa ser um bom candidato, mas é importante ver qual é o desempenho. Espero que tenha a consciência sobre a necessidade de colaborar na construção de uma estabilidade política que permita ultrapassar os obstáculos que o país tem tido.

"Espero que [Rui Rio] tenha a consciência sobre a necessidade de colaborar na construção de uma estabilidade política que permita ultrapassar os obstáculos que o país tem tido.

António Mendonça

Candidato a bastonário da Ordem dos Economistas

Os economistas dão bons ministros?

Não necessariamente. Como qualquer profissão, como advogados ou médicos, podem dar bons ou menos bons ministros dependendo de vários fatores. Um bom investigador em economia pode não ter qualidades para o exercício dos cargos políticos. Depende das conjunturas e dos contextos porque podem levar a que a pessoa não se afirme, por várias razões. É o exemplo de um ministro de Economia que queira seguir políticas expansionistas, mas pode estar limitado pelas dificuldades financeiras. Quando fui ministro no ministério das Obras Públicas, direcionado para investimentos, o que mais fiz foi cortar tudo.

Para que serve a Ordem dos Economistas?

É para dar resposta a esta questão que eu me candidato. Hoje a Ordem dos Economistas está aquém do que podia ser e aquém das necessidades. Há colegas meus que dizem que a Ordem é um diamante por lapidar. Reunimos um conjunto de pessoas com competências diversas, economistas macro, de empresas, financeiros, a especialidade como gestão fiscal ou auditoria. Hoje o conceito de economista é muito amplo. A Ordem pode ser um fator de sustentabilidade sistémica: mobilizam os economistas para, por exemplo, em relação ao Plano de Recuperação estar atento como se desenvolve, como os dinheiros são gastos, para estar atento às necessidades de fazer mudanças, adaptações, etc. A Ordem tem obrigação de estar atenta e dar a sua opinião. Pode mobilizar, fazer encontros entre economistas e produzir pareceres e opiniões para quem tem responsabilidade decidir.

Propõe criar um observatório. Estamos a falar de análises, propostas, como um think tank?

Exatamente. Isto é importante para os próprios economistas. Não é economista quem quer mas quem tem a formação e as competências adequadas. É importante que os economistas sejam chamados a exercer as suas competências. Isto é verdade no plano microeconómico e macroeconómico, mas atualmente não é feito. Hoje toda a gente faz um cursinho aqui e acolá e acha que é economista e pode emitir opinião. Tem o direito, não estou a negar isso, mas é importante que os economistas se afirmem como pessoas com competência e isso é um fator de exigência porque a Ordem pode dizer, seja um membro seu ou não, que determinada pessoa não tem as competências para exercer essas responsabilidades.

Os economistas são bem-vistos atualmente pela sociedade portuguesa?

Há economistas que são mais bem-vistos do que outros. Há uma subvalorização do papel dos economistas. Há muita gente que acha que pode ser economista. Uma das coisas que queremos fazer com a Ordem é prestigiar os economistas. Afirmar os economistas como classe profissional que tem competências que, independentemente das suas opções políticas, também há consenso em matéria económica. É importante ajudar a construir respostas para os nossos problemas estruturais. É isso que nos falta. Não podemos estar permanentemente a mudar de orientações: muda o partido ou muda o ministro e mudam as orientações todas. O país precisa de coerência estratégica e que tal exista durante alguns anos, mas não temos tido. É o drama do nosso país.

"Não podemos estar permanentemente a mudar de orientações: muda o partido ou muda o ministro e mudam as orientações todas. O país precisa de coerência estratégica e que tal exista durante alguns anos, mas não temos tido.”

António Mendonça

Candidato a bastonário da Ordem dos Economistas

Propõe institucionalizar um relacionamento regular com os órgãos de soberania. O que quer em concreto?

Queremos ser mais intervenientes. A Ordem deve ser ativa, interveniente e influente. Passa por exigir a participação da Ordem em organismo que tenham a ver com o controle e observação económica, não apenas no Conselho Económico e Social mas eventualmente no próprio conselho que está a acompanhar o PRR. Mas também ter encontros regulares com os órgãos de soberania: o Governo, o Presidente da República, a Assembleia da República. E com instituições empresariais.

O regime jurídico das ordens profissionais está em discussão no Parlamento. Vê com preocupação aspectos das propostas que outras Ordens já criticaram ou se acha que é positivo?

Conheço o projeto do PS e da IL. As Ordens são acusadas de corporativismo e naturalmente há sempre a preocupação de defender essa classe profissional. No caso da Ordem dos Economistas nem sequer é obrigatória a inscrição. Queremos tornar a Ordem imprescindível para os economistas, que sintam que pertencer à Ordem é um fator que lhes dá credibilidade. Queremos que a Ordem dê a chancela de qualidade e exigência, mais do que tornar obrigatório. Os Governos não devem ter medo das instituições. As Ordens devem adaptar-se e temos de estar abertos à mudança, mas é importante que quem tem responsabilidades governativas veja nas instituições um papel importante. Podem ser incómodos, mas isso é importante para a sociedade. Nada pior que exercer responsabilidades governativas sem ter ninguém a dizer "atenção que isso não está bem". É mais importante que essa ação seja feita de forma transparente através de uma instituição do que por trás por lobbys e grupos de pressão que não conhecemos.

O que é que o diferencia de Pedro Reis?

Diferencia-me tudo. Por exemplo, o percurso na Ordem: sou fundador da Ordem dos Economistas e exerci responsabilidades internas. Tenho uma dinâmica de conhecimento e experiência na Ordem. O dr. Pedro Reis entrou agora para a Ordem. Ele é bem-vindo, não é isso que está em causa, mas a origem da nossa lista vem de dentro. Foi a primeira lista a candidatar-se e reúne gente que ainda tem responsabilidades internas.

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