• Entrevista por:
  • António Ferreira

Inês Raimundo (Habit Analytics): “O nosso modelo de negócio está indexado ao crescimento do nosso cliente”

A Habit, a startup mais inovadora na região EMEA, considera muito interessante a "postura atual das seguradoras, que preferem fomentar a prevenção e o cuidado ao invés da reação em caso de sinistro."

ECOseguros questionou a insurtech relativamente ao impacto da crise pandémica na operação e sobre a estratégia da tecnológica num horizonte a 18 meses. Em resposta por escrito, Inês Raimundo (Product & Business Development Manager) e Domingos Bruges (cofundador e Chief Executive Officer) explicam como a Habit se diferencia a transformar hábitos tradicionais das incumbentes, apontam desafios e oportunidades e testemunham que as seguradoras estão agora mais atentas às necessidades dos clientes.

Elaborando cenário pós-Covid, a insurtech assume que quer ajudar as seguradoras a reinventarem-se face aos novos comportamentos do consumidor. Abordando temas como atividade operacional, ambiente concorrencial e quadro de regulação, Domingos Bruges revela que a Habit “reforçou recentemente a equipa de parcerias e posicionamento estratégico do produto, impactando a sua capacidade de contacto com clientes e uma redução no tempo de implementação de um seguro, respetivamente”.

Para o cofundador da Habit, “existe um círculo vicioso nestes fatores, uma vez que lançar um produto de seguros em semanas, em vez dos tradicionais 6-8 meses, está a solidificar-se como um elemento adicional na nossa proposta de valor e a aumentar a nossa taxa de conversão de clientes.

No mercado, “a maior barreira que temos encontrado à adoção de soluções mais digitais neste setor é a postura ainda reservada dos players que veem nos canais digitais uma ameaça à cadeia de distribuição de seguros. Na nossa opinião, o digital vive e complementa os canais que existem, fazem sentido e funcionam bem, acrescentando valor à oferta das seguradoras”, afirma.

Um parceiro facilitador, elo de transição para a jornada digital

Uma das propostas que a insurtech oferece ao mercado dirige-se às seguradoras do ramo automóvel: uma solução UBI (Usage-based Insurance) ou PAYD (pay as you drive), comummente designada pay per mile (pago ao quilómetro, em tradução livre), que substitui o habitual seguro automóvel por uma cobertura mais adequada à real utilização do veículo. A este produto, a Habit juntou soluções digitais para seguros pet e seguros para o lar.

Inês Raimundo salienta que a Habit tem a missão “de tornar fácil, rápido, seguro e desburocratizado o acesso a produtos de seguros, através de soluções com uma forte componente digital”. Para tal, a tecnológica “apresenta-se como o elo de transição entre um seguro tradicional e um seguro com uma jornada digital ou parcialmente digital. Nos seguros, o modelo tradicional ainda é o mais adotado, reunindo uma base de clientes maioritária. Para estimular a transformação digital deste setor, o nosso modelo de negócio está indexado ao crescimento do nosso cliente: sem custos de início ou contratualização ou de operação, operamos num modelo SaaS (Software as a Service)”.

Questionada sobre os
segmentos de negócio mais dinâmicos, a responsável pelas áreas de Desenvolvimento e Produto aponta o fator oportunidade: “Ninguém acorda a pensar em comprar um seguro, pelo que ter informação contextual é chave para que seja possível demonstrar o valor acrescentado de um produto a um cliente”. Para Inês Raimundo, “é claramente mais fácil promover um seguro de viagem a alguém que está em viagem ou prestes a fazê-lo. E é aí que está o nosso foco.”

Os segmentos de Animais, Carro e Casa “são também bons exemplos”. No caso do seguro de animais, “é interessante ver que as seguradoras começam a preocupar-se em fomentar planos de cuidado preventivos e a recompensar os clientes que cuidam devidamente dos seus companheiros. O resultado é obviamente positivo para ambas as partes: o cliente que proporciona um maior cuidado clínico e melhor qualidade de vida ao seu animal, e a seguradora que reduz o número de sinistros”, explica.

Esta conclusão é reforçada porque as soluções para estes segmentos “estão a ter uma adoção extremamente interessante, dada a postura atual das seguradoras, que preferem fomentar a prevenção e o cuidado ao invés da reação em caso de sinistro”, nota Inês Raimundo.

Pandemia não condicionou execução, mas afetou o lado humano

“Por muito criativa que seja a equipa e por muitas que sejam as iniciativas, uma videochamada não substitui um pequeno-almoço ou um fim de tarde entre colegas, que também são amigos”, afirma Bruges, que partilha a liderança da empresa com Sasha DeWitt, cofundadora e COO (responsável pela área operacional).

Por isso, o confinamento determinado pelo contexto de pandemia condicionou o fator humano: “O distanciamento tornou tudo um pouco mais difícil”, reconhece. No entanto, no dia-a-dia de trabalho e execução, “a equipa está fortemente habituada a trabalhar com base em tecnologias e em qualquer lado, pelo que a atividade da empresa não foi afetada pelas restrições sociais”, afirma o CEO da empresa cujas soluções correm nos sistemas de seguradoras globais como a Allianz e a SAVA.

“Seguradoras portuguesas estão bastante atentas à realidade e contexto dos clientes”

De qualquer forma, como documentou um inquérito recente às fintech nacionais, a crise está a ter impacto negativo na economia e nos negócios, mas também sugere desafios. Nesse contexto, dar resposta adequada às necessidades dos consumidores de seguros pode constituir oportunidade. “Felizmente, as seguradoras portuguesas estão bastante atentas à realidade e ao contexto dos seus atuais e futuros clientes”, observa Domingos Bruges. Não se aplicando diretamente a Portugal, diria que as seguradoras estão, na maior parte dos casos, confortáveis pelo histórico de performance”.

Em muitos casos, diz, “revela-se um total combined ratio inferior a 75% (o combinado de custos de operação e sinistros é inferior a 75% do total dos prémios), o que indica que nos últimos 150 anos, as seguradoras foram capazes de acumular uma riqueza impressionante. O ponto de conforto é alto”, considera Domingos.

Mas o CEO concretiza: “a nossa mensagem centra-se em promover que as seguradoras continuem a fazer o que sempre fizeram até hoje; a proteger e a oferecer os produtos e preço que mais fazem sentido no contexto e risco atual”.

Mercados do Médio oriente e África no radar

A empresa constrói e operacionaliza produtos digitais em Lisboa, mas tem o escritório em Nova Iorque. “A Habit trabalha com seguradoras ou com marcas que tenham um ecossistema de clientes ou utilizadores e pretendam lançar o seu próprio produto de seguros. Temos como missão democratizar o acesso a produtos de seguro, reduzindo o custo do prémio pelo aumento de eficiência na distribuição e aquisição de clientes”, explica Domingos Bruges.

A digitalização “representa uma forte componente do nosso produto, no entanto, consideramos que o grande diferenciador está na elevada alavancagem de dados contextuais e contínuos sobre o tomador da apólice ou o bem/pessoa
protegido”.

A expansão internacional prossegue e, nesse sentido, a Habit “tem focado a sua energia em parcerias na Europa e Estados Unidos da América, sendo que novas regiões como Médio Oriente e África começam a surgir no radar através de pedidos feitos por clientes”, revela o CEO da Habit.

Perspetivando o futuro, Bruges adianta: “Os anos de 2020 e 2021 irão representar um ponto de crescimento significativo, pelo que pretendemos manter a execução da visão. A atual estrutura da empresa foi crítica para alcançar o estado atual e será chave para a execução da estratégia em direção à visão global.”

A Habit Analytics surgiu em 2018 e acumulou experiência em Portugal, onde mantém o desenvolvimento de produto. Desde então, atraiu investidores e completou rondas de financiamento, coroando o percurso com distinções globais, sendo a primeira da região EMEA e uma das oito mais inovadoras do mundo na edição de 2019 do Zurich Innovation World Championship.

Na sua génese, a insurtech passou o crivo dos mais rigorosos aceleradores de startups nos EUA, como a 500 startups e a plataforma Techstars, que passou a integrar. A Habit foi também um dos maiores investimentos da Bright Pixel, o veículo e estrutura de investimento da Sonae IM, contando ainda com investidores distribuídos pelos EUA, Canadá e Portugal, entre outros, o FundersClub (Silicon Valley), BuildingLink (Nova Iorque) ou o Banco BiG (Lisboa).

(Atualizado às 14h30 de 29 de maio, com mais informação)

  • António Ferreira

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