Novos vistos. “Portugal não tem ideia da quantidade de brasileiros que se vai candidatar”

Novo visto vai trazer uma "avalanche" de emigração brasileira, acredita Patrícia Lemos, fundadora de Vou Mudar para Portugal, que já ajudou mais de 3.500 famílias brasileiras a virem para Portugal.

O Governo aprovou uma nova tipologia de visto que possibilita a entrada em território português de nacionais de Estados estrangeiros que venham à procura de trabalho. Passa também a ser atribuído um visto de estada temporária ou de residência para os nómadas digitais. As medidas surgem no “momento certo” para os cidadãos brasileiros e vão provocar uma “avalanche” de emigração brasileira ao país. Vão chegar pessoas de todas as classes sociais e todo o tipo de profissionais, desde os altamente qualificados ao emigrante mais simples, que, antes, não tinha acesso aos vistos, acredita Patrícia Lemos, fundadora e CEO da Vou Mudar Para Portugal, empresa especializada em relocation, venda de imóveis e planeamento de emigração.

“Portugal não tem ideia da quantidade de brasileiros que querem sair do Brasil e vir para Portugal, não tem ideia da quantidade de gente que se vai candidatar ao visto. Vão vir milhares de brasileiros, milhares de famílias. Não tenho a menor dúvida, vai ser uma avalanche”, afirma Patrícia Lemos, que, desde 2017, altura em que se mudou para Portugal, já ajudou mais de 3.500 famílias no processo de emigração para terras lusas.

Quando se mudou com a família, há cinco anos, já era possível identificar um movimento de brasileiros a emigrarem para Portugal, mas não era tão intenso como atualmente. Em 2021, a população estrangeira residente em Portugal aumentou pelo sexto ano consecutivo, totalizando 698.887 cidadãos. A comunidade brasileira mantém-se como a mais representativa e a que mais cresceu, representando 29,8% do total, o valor mais elevado desde 2021, revelam os dados divulgados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Patrícia Lemos não tem dúvidas que estes números vão disparar. Na sua conta de Instagram @voumudarparapotugal, através da qual partilha informações e serviços para quem pondera emigrar para Portugal, soma já 420 mil seguidores. E, em apenas dez dias, depois do anúncio do novo visto, “crescemos 20 mil seguidores”, conta.

O Conselho de Ministros aprovou um novo visto que possibilita a entrada em território português de estrangeiros que venham à procura de trabalho pelo período de 120 dias, extensivo a mais 60 dias. Que impacto antecipa que este novo visto venha a ter entre os cidadãos brasileiros?

Muitos brasileiros não se enquadravam nas regras dos vistos anteriormente, especialmente na regra financeira de cada visto. Cada visto tinha de ter um pré-requisito financeiro e muitos não se encaixavam.

Portugal não tem ideia da quantidade de brasileiros que querem sair do Brasil e vir para Portugal, não tem ideia da quantidade de gente que se candidatar ao visto. Portugal oferece-nos uma perspetiva de vida que não temos [no Brasil]. Vão vir milhares de brasileiros, milhares de famílias. Não tenho a menor dúvida, vai ser uma avalanche. [O visto] chega num momento em que o Brasil está caindo, caindo, caindo… E sem esperança.

Surge como uma uma espécie de boia de salvação…

É. Resgata a esperança das pessoas. A esperança de os filhos terem uma vida boa, com dignidade. Ninguém vem para Portugal para ficar rico — se querem ficar ricos, vão para os Estados Unidos — vêm para viver. Simples. Viver sem medo.

Portugal não tem ideia da quantidade de brasileiros que querem sair do Brasil e vir para Portugal, não tem ideia da quantidade de gente que vai aplicar para o visto.

Curiosamente, recentemente fizemos uma live — porque vou abrir uma nova turma do meu curso “Check-in Portugal” — e tivemos quatro mil pessoas a assistir. É uma coisa impressionante. O meu Instagram cresceu muito ao longo dos últimos anos, estamos com 420 mil seguidores, mas, desde o novo visto, em menos de dez dias, crescemos 20 mil seguidores.

Que tipo de emigração é que Portugal vai atrair com a criação deste novo visto?

Este novo visto permite que o profissional altamente qualificado venha em busca de emprego, o que, antes, não era possível, porque ele tinha de vir já com emprego. Mas também permite que venham os profissionais independentes, o que abre um leque muito grande, desde o profissional da área da construção civil ao comerciante, pintor, massagista, cabeleireiro…

Vai vir um perfil de emigrantes que antes não se enquadrava nos vistos, mas que também queria mudar. Hoje, Portugal precisa de mão de obra não só qualificada. Restaurantes estão sem profissionais, hotéis…

Uma coisa que também é muito interessante é que, por exemplo, um profissional de educação física no Brasil tem de fazer a validação do seu diploma para exercer a profissão aqui em Portugal. Muitas vezes, as pessoas não fazem essa validação, então é possível haver um gap de uma mão de obra com formação no Brasil em processo de regularização, mas que, num primeiro momento, pode ser mão de obra para restaurantes, por exemplo.

Entre os brasileiros vos procuram para agilizar o processo de emigração para Portugal, destaca-se algum perfil?

É absolutamente transversal. Temos desde clientes que compram casas de 3,5 milhões de euros em Portugal até ao pedreiro que está extremamente esperançoso de trabalhar na construção civil em Portugal e dar uma perspetiva melhor para os seus filhos.

Mas vê algum aumento particular em alguns desses grupos?

As classes média e média baixa do Brasil ficaram muito prejudicadas com todas as dificuldades que o país está passando. Olham para Portugal como um ‘El Dourado’. Uma pessoa da classe média ou média baixa no Brasil tem muita dificuldade de acesso a educação e saúde de qualidade. Portugal está com um problema agora na saúde, mas é uma crise, é pontual. O nosso ponto de vista é totalmente diferente do dos portugueses. Os portugueses comparam-se com a Inglaterra. É muito acima do que temos no Brasil.

As classes média e média baixa do Brasil ficaram muito prejudicadas com todas as dificuldades que o país vai passando. Essas pessoas olham para Portugal como um ‘El Dourado’.

Uma pessoa da classe média ou média baixa no Brasil, com poder aquisitivo baixo, vai ter aqui a dignidade que não tem lá. Vai poder pôr o filho a estudar numa escola pública, esse menino vai falar inglês e nada impede que amanhã vá trabalhar para França. Muda a vida dessas famílias. Não há razão para não tentar. Vai trazer o emigrante mais simples, sem dúvida nenhuma.

Foi também criado um visto para nómadas digitais. Que tipo de profissionais brasileiros podem estar interessados em entrar em Portugal por esta via?

Há uma quantidade enorme de brasileiros que trabalham na área do marketing digital e que trabalham remotamente. Há também uma quantidade enorme de profissionais das tecnologias da informação que prestam serviços na área de tecnologia para países como a Bélgica, a AlemanhaEssa é uma categoria.

A outra categoria que eu vejo são os funcionários públicos brasileiros, que, depois da pandemia, trabalham a partir de casa. Muitos funcionários públicos brasileiros trabalham, agora, remotamente. Essas pessoas não querem, necessariamente, ir para os grandes centros urbanos. Querem tranquilidade. Ir para o centro de Portugal, para a Costa Vicentina, que é um lugar paradisíaco para os brasileiros que trabalham remotamente, é uma oportunidade incrível.

Nota uma tendência de descentralização?

Totalmente. Vejo esse movimento claramente. A cidade queridinha dos brasileiros, e que também tem muita oferta de emprego, é Braga. É o número um. A segunda escolha é, normalmente, Leiria.

Porquê Braga?

Por mais que seja fria, Braga tem o melhor hospital público do país e tem, também, escolas públicas muito boas. No Brasil, vivemos a ausência do público. Segurança, educação e saúde são três coisas que não temos lá. Braga tem tudo isso e é uma cidade pequena, com um custo de vida menor, mas com emprego.

Por mais que seja fria, Braga tem o melhor hospital público do país e tem, também, escolas públicas muito boas. No Brasil, nós vivemos a ausência do público. Segurança, educação e saúde são três coisas que não temos lá. Braga tem tudo isso e é uma cidade pequena, com um custo de vida menor, mas com emprego.

Cascais é para o brasileiro de alto padrão. Muitas vezes, ainda tenta em Oeiras. Lisboa também já está muito caro. Então, começa a olhar para a margem sul. Também acha caro ou não gosta tanto. Por isso, vai para cidades menores. Vemos claramente este movimento.

Quais os três principais conselhos que dá a quem planeia emigrar para Portugal?

Em primeiro lugar, não pensar que, só por falarmos todos português, Portugal é o 27.º estado brasileiro. Existe essa ilusão, e chega a um ponto que até é ingénuo. Às vezes perguntam-me: ‘O meu fundo de garantia do Brasil serve em Portugal?’. As pessoas precisam de perceber que é outro país. A Europa é diferente.

Depois, planeamento. Muito planeamento. É uma das maiores mudanças das nossas vidas. É uma mudança cultural e é também uma mudança emocional gigante. As pessoas são diferentes de nós.

O terceiro é tirar as lentes cor-de-rosa. Quando sonhamos com uma coisa, sonhamos de forma linear, mas a vida não é assim. É um processo que tem altos e baixos. O que distingue uma mudança de país bem sucedida dos brasileiros que voltam é, simplesmente, o planeamento.

É importante vir preparado para aceitar esse outro país. Os brasileiros chegam aqui e não encontram o ‘jeitinho’ que se custa dar no Brasil, e que foi esse ‘jeitinho’ que estragou o nosso país. O português tem regras, regras que são cumpridas. O nível de educação também é outro. Temos de vir preparados. Estamos a entrar na casa do outro, as regras são do outro.

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