Os segredos da liderança. “É verdade, tenho mesmo mau feitio”, diz Fernando Santospremium

Fernando Santos vai anunciar a convocatória para o Europeu no dia 20 de maio. Ao ECO/Pessoas, revela os bastidores da estratégia para a competição. "Vamos para vencer", atira.

Fernando Santos recebeu o ECO/Pessoas na cidade da Federação ao início da tarde de 29 de abril. Descontraído, aproveita cada oportunidade para 'matar o vício' do cigarro. Respondeu a tudo, sem filtros. O selecionador nacional e engenheiro de formação está em contagem decrescente na preparação para o campeonato da Europa de Futebol, que começa a 11 de junho. Portugal é o campeão em título, e Fernando Santos é o selecionador campeão da Europa. Aceitou falar com o ECO/Pessoas sobre liderança, gestão e experiência. O "olhómetro" continua a ser essencial no trabalho de Fernando Santos, um líder com mau feito -- "como pessoa, acho que sou um gajo excelente, mas no resto, no terreno, sou horrível" -- que não acredita no excel. Sem equívocos ou ambiguidades, revela os segredos da preparação para o Europeu do futebol que se realiza em junho e julho, o estilo de liderança, as regras dentro da cabine e a relação com os jogadores, desde logo com Cristiano Ronaldo. E vai vencer o Europeu? "Nós vamos ao Campeonato da Europa para vencer, mas sempre fomos... o que vai acontecer amanhã não sei dizer, não tenho nada dons adivinhatórios, não tenho mesmo".

É o selecionador campeão europeu em título. Como é que se motiva a si próprio para uma nova competição?

A motivação é sempre alcançar os objetivos a que nos propomos. E nas seleções, os objetivos a que nos propomos é ser campeão em cada ano. Ser campeão não é forçosamente ganhar o título, pode ser campeão por não descer de divisão, depende do objetivo a que nos propusemos. Nos clubes isto é ano a ano e a motivação é constante. E motivação, para mim, sempre foi igual quando treinava uma equipa cujo objetivo era não descer de divisão ou quando treinava uma equipa em que o objetivo era ser campeão ou entrar numa prova UEFA. O que sempre me motivou foi, na realidade, alcançar objetivos.

Obviamente, na seleção há um objetivo intermédio, e o objetivo mesmo é vencer estas competições, Campeonato da Europa, Campeonato do Mundo, Liga das Nações, portanto as provas nas quais podemos participar efetivamente. A motivação é sempre constante. Depois, há aquele ponto intermédio que é alcançarmos o “lá chegar”. É uma ponte. Eu quero ir para aquela margem e tenho uma ponte que tenho de atravessar, e se não conseguir atravessar a ponte não chego à margem, que é a fase final. A motivação é estar presente, mas não é só isso. Aquilo que sempre me motivou nunca foi só chegar à fase final, esse é um objetivo intermédio desde que eu cheguei às seleções. Mas o meu primeiro objetivo, depois de chegar à fase final não era só competir... O meu objetivo sempre foi ganhar, mesmo... Se limitamos os objetivos, passar a fase de grupos...

Em tempos, Portugal foi assim...

Não sei se os selecionadores pensariam assim, acho que o povo pensava assim. O povo marca objetivos que os selecionadores dificilmente marcarão, agora temos consciência se é mais difícil ou menos difícil. O objetivo é chegar e ganhar... como na própria vida, quando se começa a ganhar, a motivação ainda é maior.

Há mais responsabilidades agora?

Não digo mais responsabilidade. A minha responsabilidade é igual e vai ser igual. Agora, há o vício. É como nas empresas, não queremos sequer pensar que deixámos de ser o líder de mercado. Ninguém quer passar para segundo, faz tudo para continuar a ser o primeiro. Agora, sabemos que a concorrência é forte, em determinado momento é mais forte, noutros menos forte.

É possível fazer uma comparação entre as duas equipas e fazer uma avaliação de pontos fracos e pontos fortes de uma equipa portuguesa?

É possível, mas para ser mesmo real e verdadeira, tinha de ser a mesma equipa. Aí poderia dizer, e obviamente que diria, que esta seleção seria melhor. Porquê? Porque tem mais cinco anos em cima, mais 50 jogos, mais trabalho em conjunto, mais afinação da máquina. Quando, agora, comparo uma equipa que jogou em 2016 com uma equipa na qual estão sete, oito ou nove jogadores que vão chegar a uma fase final em que nunca lá estiveram, alguns deles chegarão à sua primeira fase final... felizmente para alguns já não é bem assim porque já ganharam a Liga das Nações em 2019, mas se não tivesse sido a Liga das Nações, estes jogadores todos, com exceção dos que ganharam em 2016, não teriam estado numa fase final ou não teriam ganho a fase final. Não tinham tido esse sabor, essa experiência. Felizmente, alguns destes que não estiveram em 2016 já passaram pelos dois momentos: o momento do Campeonato do Mundo, um dissabor, foi curto, e uma Liga das Nações em que ganhámos. Portanto, é uma equipa em crescimento ainda. Tem poucos jogos em cima como equipa, coletivamente. Na última janela de oportunidade que tive de estar com os jogadores, no primeiro jogo três jogadores nunca tinham jogado na seleção nacional, por exemplo.

Fernando Santos, selecionador nacional, em entrevista ao ECO/Pessoas - 29ABR21
Hugo Amaral/ECO

Essa experiência de trabalho de grupo faz muita diferença?

Faz essencialmente nas seleções. Num clube temos 330 dias de trabalho contínuo. Na seleção é tudo ao contrário, não temos os jogadores, não os vimos. No último ano e meio, oficiais, tivemos nove jogos. E além disso, quando a base de recrutamento e de construção desta equipa não são um ou dois clubes...

Da história do futebol, com exceção da Dinamarca e Portugal, a maior parte das seleções era montada em dois clubes. Por exemplo a Espanha era montada no Barcelona e Real Madrid. Isso já é diferente porque vão buscar os jogadores que já se conhecem, estão ligados. É como ir recrutar para uma empresa um conjunto de pessoas para a área comercial que já vêm de outra empresa e, portanto, já se conhece bem, está habituada a trabalhar junto. Ou, por outro lado, ir buscar uma comercial a cada uma das empresas concorrentes...Vai demorar muito mais tempo a fazer com que isto funcione para vender bem. No futebol é igual. Nós vamos buscar os jogadores aos clubes, e os clubes fazem-nos à sua maneira. Digo sempre aos jogadores que lá [nos clubes] fazem aquilo que o treinador mandar... Por exemplo, digo sempre ao [João] Cancelo, aos jogadores do City, lá têm de fazer o que o Guardiola diz, ele é que sabe naquele contexto o que tem de fazer, a melhor estratégia para os objetivos. Aqui, as coisas são diferentes, não podem jogar segundo essas estratégias, porque os outros [treinadores] não sabem o que eu estou a fazer, jogo de uma forma completamente diferente. Mas eu tenho estes jogadores, não tenho aqueles.

Esta construção, nas seleções, faz-se essencialmente com jogos. Jogando, jogando, jogando... Com uma exceção que é esta janela de oportunidade que eu vou ter, e normalmente a seguir as coisas funcionam melhor... Pela primeira vez, os jogadores vão ter dez, onze ou doze treinos, que é coisa que nunca têm. E como é que se afinam as máquinas? É com treino e é no terreno. Podemos fazer slides giros, umas apresentações porreiras e falar com eles, mas é conversa só. Como é que se valida e corrige? Só no terreno. Para se melhorar há que perceber o que aconteceu de errado. O treino vai-nos dar isso. Eu posso pegar naquilo que fizemos nos últimos jogos, naquilo que achei bem e naquilo que não achei muito bem, e ver onde podemos melhorar. Nunca nada é perfeito.

Tem mau feitio? Tenho, como pessoa acho que sou um gajo excelente, de resto, no terreno, sou horrível. É verdade, tenho mesmo mau feitio, mas as pessoas que me vão conhecendo sabem que é profissional, não tem nada a ver com a minha relação pessoal... e essa parte nunca muda, vem do passado, é a forma. Mas eu não acredito no excel, numa fórmula de fazer isto, não acredito.

Fernando Santos, selecionador nacional

Tenho 15 dias para dizer aos jogadores "este comportamento, na ação defensiva, não foi o correto porque deviam ter fechado mais por aqui, deviam ter pressionado mais em cima, não deviam ter vindo para trás...", e vamos fazer isto em treino. Eu digo e depois vão ao treino. E, se em treino não fazem, eu volto a dizer. Mas eu só posso melhorar a equipa se tiver treino. Se não tiver treino, fico mais dependente daquilo que é a capacidade individual, mas também muito daquilo que se consegue, em termos de liderança, criar, que é o grupo. É essa capacidade que podemos conseguir ou não, mas é mais falível. Quando se juntam as três variantes, é menos falível. Quando ia para os clubes, e mesma nas seleções, na primeira palestra que dava, usava esta placa... o Michael Jordan dizia "O talento ganha jogos, mas as equipas ganham campeonatos".

Como é que se renova uma liderança?

As lideranças têm de ser reinventadas... A base do líder, essa, está intrínseca no seu ADN, isso não mudas... eu não vou mudar o meu mau feitio...

Tem mau feitio?

Tenho, como pessoa acho que sou um gajo excelente, de resto, no terreno, sou horrível. É verdade, tenho mesmo mau feitio, mas as pessoas que me vão conhecendo sabem que é profissional, não tem nada a ver com a minha relação pessoal... e essa parte nunca muda, vem do passado, é a forma. Mas eu não acredito no excel, numa fórmula de fazer isto, não acredito.

Não estuda liderança?

Já li algumas coisas, mas nunca estudei liderança. O meu estudo da liderança foi empírico, veio da escola, porque eu era o líder natural... quando íamos de viagem, eu é que ficava com a bolsa de toda a gente e, de alguma forma, já era líder. Mas principalmente quando fui trabalhar para o hotel com 25 anos, de repente vi-me ali com 60 homens a trabalhar, gente que sabia mais do que eu...

Nessa altura, acumulava com o futebol?

Sim, nessa altura era jogador do Estoril. Fui para o Hotel Palácio em 1981, onde estive 17 anos. De repente vi-me confrontado com 12 ou 13 profissões, uns mais novos, outros mais velhos, e até profissões que eu, pura e simplesmente, não sabia sequer o que era. Eu era formado em engenharia eletrónica e de telecomunicações e, portanto, dominava algumas áreas e outras não dominava de todo. E, portanto, a minha aprendizagem de liderança foi muito pelo lado empírico, do dia-a-dia, do terreno, da experiência.

Depois, afina a minha liderança quando começo a ser treinador, porque acho que as duas coisas me ajudaram a cimentar a minha liderança. Passo a estar em dois mundos diferentes: treinador de futebol e engenheiro do Hotel Palácio, onde era diretor-geral de serviços e operação, de ‘Facilities’... Esta liderança foi crescendo naturalmente, e teve de se adaptar. No hotel, quando havia qualquer coisa, ia para o gabinete e pronto. No futebol, fiz a primeira convocatória e deixei a porta aberta e, de repente, vi um miúdo a sair a chorar. A partir daquele dia, comecei a fechar a porta porque não sabia o que havia de fazer. Não percebia muito bem como é que se geria isto, como é que se gerem os jogadores que não jogam?

Para ser líder, não devemos ser hipócritas e, se calhar, no hotel funcionou, depois no futebol mantive o mesmo estilo, e uma das coisas que fazia é que nunca chegava ao pé dos jogadores que não convocava e dizia que estava a treinar muito bem. Seria uma hipocrisia. Eu tenho sempre a porta aberta a todos os jogadores, é uma das minhas condições de liderança, para todos os aspetos menos para saber quem joga, e um dia, um jogador veio ter comigo [Chippo, do FCPorto] e disse-me que tinha uma dificuldade a melhorar. "Você não se relaciona com quem não joga, não apoia quem não joga". Eu expliquei porquê e ele respondeu: "Mas sabe, alguns jogadores precisam de “tangas”, precisam mesmo desse conforto, de uma conversa". E eu comecei a pensar que, se calhar, para alguns deveria continuar a ser como era, mas para outros tinha de ser de outra forma, tinha de dar a tal “palmadinha nas costas”. E por isso é que digo que acredito pouco no excel, porque aquilo que é fundamental na vida, e não é só na liderança, são os outros. Quando partimos do princípio de que a liderança somos nós próprios, alguma coisa está a falhar.

Como é que define a sua liderança? É emocional na exigência?

Se eu estiver a fazer um treino e aquilo que eu quero que se faça não se faz, aí sou muito exigente e sou intratável. Se eu vou para um jogo, monto uma estratégia e vejo um jogo feito ao contrário, eles sabem como é que eu sou, então ao intervalo... Ou seja, sou exigente naquilo que foi planificado, naquilo que é o trabalho e naquilo que tem de ser feito. Mas também uma das coisas que caracteriza a minha liderança é a relação pessoal que tenho com os meus jogadores.

Perguntam-me muitas vezes se a tecnologia no treino é muito importante, já que conseguimos ver quantos quilómetros correram, a performance... Claro que são importantes, mas há uma área de análise que é mais importante que isso tudo, que é o “olhómetro”. É, no mínimo, tão importante como a tecnologia. Se [o jogador] está cansado, eu vejo. E também sei quando é que ele está cansado por uma razão ou por outra. E com o olho percebemos se o cansaço vem de outro lado, não é de uma lesão ou não é porque se deitou tarde. O “olhómetro” é uma medida fundamental na liderança.

Fernando Santos, selecionador nacional

Tem relação pessoal com os jogadores?

Sim... enquanto eles são os meus jogadores de clube, não posso fazer isso, porque depois o grupo pode quebrar ali algumas regras, nas seleções é mais fácil. Mas tenho esse orgulho de dizer que dou-me bem com todos aqueles que foram meus jogadores e alguns são verdadeiramente meus grandes amigos. A verdade é que tenho uma relação muito forte com a maioria e ainda hoje muitos me ligam.

Há dois exemplos que marcam a minha liderança na Grécia, e eu nem falava bem a língua. Foi marcante na minha liderança, na minha forma de estar. Um dos meus jogadores deixou de jogar e resolveu comprar um clube, tornando-se presidente, e veio pedir-me para ajudá-lo porque o clube ia falir. E depois, mais tarde, aconteceu algo semelhante. Nesse caso, o clube não ia falir, mas o jogador ia tomar conta do clube e pediu-me para ir para lá, para o ajudar. E isto não se faz só pela competência, tem de haver relação.

Como é que faz uma preparação para uma competição como esta?

No dia a dia, tenho uma relação muito forte com eles. Todos sabem que podem falar comigo quando quiserem e do que quiserem, principalmente de uma área que considero fundamental para que as coisas possam funcionar, que é aquilo que é mais pessoal.

Acho que isso sempre foi algo importante na minha forma de liderar, e não só no futebol, também fora do futebol. Quero que as pessoas tenham à vontade suficiente para partilhar comigo... Uma vez, o Jorge Andrade, quando foi meu jogador no Estrela da Amadora, veio ter comigo, ia ter exame de matemática e estava aflito, e disse-me “Mister, estou ali aflito”, e eu perguntei-lhe se queria que eu lhe desse explicações. Este é um exemplo... Tens um problema em casa, está aqui um tipo que pode ser pai, amigo, o que quisem, com quem podem falar à vontade.

Eu gosto de falar de futebol com os meus jogadores, por exemplo, gosto de falar de cinema, gosto de falar de outras coisas... E procuro manter esta abertura e este contacto porque acho que faz parte do papel do líder. É uma coisa natural. Eles podem telefonar-me e dizer-me alguma coisa e eu tenho a liberdade de lhes ligar e de dizer “não jogaste porquê, o que está a acontecer...”

Agora, há coisas que não faço. Se, normalmente, convoco o António e não o convoco esta semana, não vou explicar-lhe, porque vou ter de fazer contas e se um dia me esquecer de fazer com um? Crio um precedente grave porque, depois, eles vão todos falar e dizer que tenho filhos e enteados. Há coisas que não se podem fazer e aqui entra a regra do bom senso. Aliás, na liderança uma das coisas que tem sempre de entrar é a regra do bom senso.

Perguntam-me muitas vezes se a tecnologia no treino é muito importante, já que conseguimos ver quantos quilómetros correram, a performance... Claro que são importantes, mas há uma área de análise que é mais importante que isso tudo, que é o “olhómetro”. É, no mínimo, tão importante como a tecnologia. Se [o jogador] está cansado, eu vejo. E também sei quando é que ele está cansado por uma razão ou por outra. E com o olho percebemos se o cansaço vem de outro lado, não é de uma lesão ou não é porque se deitou tarde. O “olhómetro” é uma medida fundamental na liderança.

Fernando Santos, selecionador nacional, em entrevista ao ECO/Pessoas - 29ABR21
Hugo Amaral/ECO

Usa muito essa tecnologia?

Usamos todas as tecnologias ao nosso dispor.

O futebol sofisticou-se também na tecnologia?

Muito. A grande evolução do futebol não é naquilo que é o jogo. O jogo é igual, é meter a bola na baliza deles e não deixar a bola entrar na nossa. Sempre foi dos primórdios e vai continuar a ser. É o que conta no futebol, montar uma estratégia para esse objetivo. O que é que mudou? As valências táticas...4-4-2, 4-3-3, hoje há muitas mudanças, mas antigamente não havia!? O “quadrado mágico”... outros nomes, mas aquilo que é a estratégia não vai mudar, aquilo que é talento não muda, aquilo que é condição física sim. Mudou muito... Antigamente havia um treinador e não havia apoio nessas outras valências. O que é que mudou isto? A ciência, a ciência e o ensino, mas uma está ligada à outra. Antigamente não havia ninguém formado.

O primeiro preparador físico que tive enquanto jogador era campeão nacional de salto à barra. Nós treinávamos naquelas caixas de areia, para ganharem potência muscular. A sofisticação veio daí. E no jogo? A diferença é que, antes, havia tempo e espaço. Nós, jogadores, sabíamos que tínhamos tempo e espaço para fazer as coisas. Isso mudou totalmente.

As novas exigências do futebol do ponto de vista físico, nas suas várias vertentes, levaram a que estes dois vetores desaparecessem. Hoje não há tempo, não há espaço. Antes, dizia aos jogadores "tens de perguntar-te para onde, para quem e para quê"; há uns dez ou 15 anos, passei a dizer "temos de pensar rápido"; e hoje digo "temos de pensar antes". Os melhores são os que têm esta capacidade de decisão antecipada. Esses são os melhores e vão ser sempre os melhores.

Para isto, temos de treinar duas áreas importantes. Não só a condição física, para poderem reagir rápido, mas temos também aquilo que hoje é um processo muito importante no futebol, de pensar mais rápido e antecipadamente. Felizmente, devido à própria educação... naquele tempo havia gente brilhante e inteligente, mas agora, há conhecimento, e também a forma de pensar. Quem nunca foi posto, na sua infância, em situações de ter de pensar mais rápido, de ter de competir. Eu só apanhei trabalhos de grupo quando fui para o instituto [o ISEL], eu não era treinado para pensar. Isto é algo que os jogadores hoje já trazem na sua bagagem, uns mais afinados, outros menos afinados. Quanto mais conhecimento, maior a probabilidade de ser melhor nestes aspetos, pelo menos teoricamente.

Como é que se prepara uma competição como o campeonato da Europa? Quais são os pontos críticos desta preparação?

A escolha, em primeiro lugar. Essa vai ser decisiva e determinante. Isto é um puzzle sem tempo de emendar e, por isso, ou se escolhe bem ou paciência... E vai haver sempre alguma lacuna perante aquilo que é o padrão do treinador. O que é que eu arquiteto para este campeonato da Europa, jogadores mais rápidos, menos rápidos, com mais profundidade, mais verticais...

É possível ter tudo? Numa seleção é desejável ter alternativas?

O ideal é isso. Porque é que me questionaram quando eu levei o Éder? Para mim o Éder fazia parte nesse ideal, ele não assentava na minha primeira forma, naquilo que eu queria da minha equipa, mas criava-me uma alternativa. E sem alternativas somos demasiado previsíveis e sendo demasiado previsíveis a probabilidade de ter êxito acaba por ser menor. Portanto, o ideal é conseguirmos criar alternativas, por isso é que não podemos levar cinco ou seis jogadores iguais. Até posso levar jogadores que para o comum do adepto são quatro trincos, mas têm de ser distintos.

A escolha é o primeiro critério...

...primeiro, a escolha do processo que quero usar face às características atuais dos jogadores portugueses que estão disponíveis para convocar. E esse trabalho eu já fiz, eu sei como vou querer jogar nos vários momentos do jogo. Depois, escolher bem os jogadores que vão preencher cada uma das posições para as várias estratégias que quero. A terceira condição, e essa é muito importante, tem a ver com capacidade e forma de estar em termos de grupo.

Já não escolheu jogadores tecnicamente muito bons, mas que não tinham essa capacidade?

Se tiver dois jogadores iguais, dispenso um e claramente o que não tem essa capacidade. Esse é um fator de critério para mim. Se tiver dois jogadores que, numa escala de zero a dez, um é dez e outro é sete, isso como dizermos “jogam todos”... não jogam nada, jogam sempre os melhores, ou então estaria a dar tiros nos meus próprios pés. Mas esse é um critério de avaliação, já tive vontade de mandar jogadores embora, aqui e nos clubes, porque cumpriam bem vetores importantes, mas não um a que eu dou ênfase muito grande que é espírito de equipa. Se não faz parte deste “nós”...

Somos muitos e poucos ao mesmo tempo. Somos 70, mas, realmente, jogadores são 26. Depois, o ruído exterior no futebol é incomparável a qualquer outra profissão, e qualquer outra área.

A única vez que tive de falar com os jogadores sobre isto foi, por acaso, em Marcoussis [no campeonato da Europa de 2016, em França], quando percebi que o ruído que estava a chegar de fora começou a ser mau. Quando comecei a ouvir falar, à boca pequena, a falar sobre o que diziam, que a equipa não ganhou, empatou... tive de falar com os jogadores: A gente tem um objetivo para cumprir, acreditamos ou não acreditamos naquilo que estabelecemos? Se acreditamos, esqueçam lá tudo o resto e não me... não quero ouvir mais estas conversas. Se não acreditamos, temos de repensar isto tudo para dar a volta a isto...

Podem ler jornais nos estágios?

Sim, fazem o que quiserem, não tenho nada a ver com isso. Só não quero nas cabines, infelizmente é algo que tive de parar... Não tive tanto essa questão em 2016, em 2018 comecei a ter mais. Não tem só a ver com os jogadores, hoje é fácil pegar num telemóvel e mandar mensagens, o Instagram, toda a gente faz comentários, e tive de dizer “calma lá, que isto assim não funciona”. Quem manda em matéria de comunicação sou eu, sou responsável pela comunicação da minha equipa no aspeto do jogo, e de repente tenho um jogador a mostrar a camisola, a dizer que vai jogar, isso assim está tudo errado. Andei a esconder ao treinador adversário qual vai ser a equipa, disse na conferência de imprensa que não dizia a equipa antes do jogo e depois há um que vai dizer que vai jogar ou que não vai jogar...

O espírito de grupo é muito importante, depois, o ruído à volta da seleção é muito maior do que nos clubes, porque nos clubes pode haver a liderança da força, “eu quero, eu mando”, e quem não quer é encostado ou é multado, na seleção não pode ser fazer isso, não temos jogadores. Depois, enquanto num clube são cinco ou seis ou sete os melhores e e os outros passam um bocado despercebidos, na seleção têm todos apoio comunicacional. Eles, os agentes, é tudo gente importante, mas é uma realidade, existe e condiciona muito.

A única vez que tive de falar com os jogadores sobre isto foi, por acaso, em Marcoussis [no campeonato da Europa de 2016, em França], quando percebi que o ruído que estava a chegar de fora começou a ser mau. Quando comecei a ouvir falar, à boca pequena, a falar sobre o que diziam, que a equipa não ganhou, empatou... tive de falar com os jogadores: A gente tem um objetivo para cumprir, acreditamos ou não acreditamos naquilo que estabelecemos? Se acreditamos, esqueçam lá tudo o resto e não me... não quero ouvir mais estas conversas. Se não acreditamos, temos de repensar isto tudo para dar a volta a isto...

Foi quando disse, numa conferência de Imprensa, que tinha bilhete até Paris, até à final do campeonato da Europa?

Foi. Era uma afirmação essencialmente para dentro. Atenção, eu acreditava, não disse por dizer, porque achei que o jogo da Hungria, para o que tinha sido a minha estratégia, tinha sido uma bênção. Sofrermos três golos naquele jogo foi uma bênção, porque os jogadores diziam que podemos sofrer golos, mas marcámos mais. Naquele jogo, marcámos três e não ganhámos o jogo, e isto provou o que eu dizia desde o início. Aí, eu senti “agora vai, porque eles perceberam isso”. A partir daí, Croácia, Polónia, Gales e França e só sofremos um golo. Nesse momento, achei que era importante passar aquela mensagem para dentro e também abafar o ruído que vinha de fora. Escandalizar, surpreender um pouco, e passou a ser aquele o foco. “Ele está maluco? Agora perdes o próximo jogo e vamos cair em cima de ti”. De repente, durante dois ou três dias, não se falou nos três empates, mas na afirmação que fiz. Não me importava que caíssem em cima de mim, era o meu papel.

Na verdade, é CEO de uma multinacional, porque tem quadros em todo o lado. Como é que se gere uma equipa assim?

Começa tudo logo no trabalho de base feito pela própria Federação, na qual eu estou incluído. A descoberta de talento passa muito pelas zonas da formação ainda, para tentar chegar lá. A seleção, comigo, está sempre aberta, nós vamos ver jogos seis ou sete jogos por semana, em média, eu e os meus colaboradores... em Portugal e no estrangeiro. E em vídeo, mais de vinte jogos por semana, às vezes mais. Temos um leque alargado, entre os 40 e os 50 jogadores, que pontualmente dá um salto e noutras vezes reduz-se. De repente aparecem três ou quatro jogadores interessantes, e entram, depois já vimos três ou quatro que não têm qualidade para a seleção, e esta é uma análise que temos de fazer. Uma coisa é ver se um jogador tem qualidade para jogar no Estoril, outra coisa é ir ver se tem qualidade para jogar na Seleção Nacional. Pode ser muito bom jogador naquele clube, mas o contexto na seleção é outro.

Como faz essa gestão de escolha, dos 40 a 50 jogadores para o lote dos selecionados?

Primeiro, é a qualidade, técnica e tática, nos dois parâmetros. Em segundo lugar, tentar perceber quem é o jogador como pessoa, qual é o seu caráter... Este tipo é bom jogador, mas cria sempre problemas, com os colegas, está sempre a levantar os braços, que é uma coisa que eu não gosto, parece que é o treinador de campo, e mais líderes não preciso... eu quero jogadores inteligentes, que saibam pensar, mas quem faz a equipa sou eu, decido eu. Depois de passarem esta malha, vamos começando a apertar o filtro. Como? Com ritmos de jogos, tempos de jogos e sempre a filtrar cada vez mais até chegar aos 23 jogadores. O primeiro parâmetro é sempre a qualidade e o último que define os 23 é o puzzle que quero construir, e vou deixar alguns que já tinham passado esta malha, mas não podem entrar todos.

Como é que faz a integração entre os jogadores que foram campeões da Europa e os mais novos?

Foi muito importante termos vencido a Liga das Nações para quebrar esse risco, esse gelo. Eu senti muito na Rússia, esse peso que os jogadores que não tinham jogado nenhuma competição tinham. Eles não se sentiam campeões da Europa e estava-se a exigir a uma equipa que ganhasse o Campeonato do Mundo porque era campeã da Europa. E não era verdade. E foi um peso excessivo.

A integração [dos jogadores] é global, não faço isso sozinho. É com os mais velhos, com alguns mais novos que têm esta capacidade, também com os adjuntos, com os médicos, com toda a gente que aqui está, com o João Vieira Pinto e com o Humberto Coelho. Eu posso chegar bem a um jogador, e não chegar bem a outro. Dou um caso concreto... o João [Vieira] Pinto não faz parte da equipa técnica, é diretor da Federação... eu percebo que há uma ligação com um jogador, pode ser o João Pinto. Eu uso tudo o que posso. Todos são importantes, estão no terreno.

Fernando Santos, selecionador nacional, em entrevista ao ECO/Pessoas - 29ABR21
Hugo Amaral/ECO

O Fernando Santos é obviamente um líder, mas tem outro líder dentro da equipa, o Cristiano Ronaldo. Partilha a liderança na gestão da equipa?

Nesse aspeto não... vamos lá ver os níveis de liderança. Escolher os jogadores, como se joga e quem joga só compete a uma pessoa. Depois, ao definir estratégia do jogo, posso sentir que os jogadores não estão confortáveis por qualquer razão com esta estratégia, e já aconteceu, e aí tento ouvi-los, aqueles que acho que me podem dar algum feedback. Alguns não me vão dizer nada, mas há outros que percebemos que têm mais tendência para isso, e percebemos quem são os líderes dentro do grupo...

...todos se lembram daqueles últimos minutos na final contra a França, o selecionador nacional e o Cristiano Ronaldo ao seu lado, outro líder...

Não estava lá nenhum líder, acho que é um erro, não me levem a mal, mas eu não acho isso. Estava um homem que tem uma paixão do outro mundo, e o que queria era ganhar, não estava ali a exercer nenhuma liderança. Ele não me quis ultrapassar a mim ou ser o líder, e isso é importante... Eu conheço-o bem, e sei de outros que estavam no cantinho a sofrer da mesma forma, mas não vieram cá para fora. E tive outro que me dava uns ‘calduços” e só me dizia “ó velho, já ganhámos, ri-te, ri-te”. Cada um reage à sua maneira.

[Mas] não tenho líderes instituídos. Eles próprios se autodefinem. Se eu quiser chegar a determinados elementos do grupo, eles não são todos iguais, sei que chego mais depressa através de afinidades, porque jogaram juntos muito tempo, porque partilharam equipas.... O Pepe, é normal, o Cristiano também, o João Moutinho, obviamente que eles, de alguma forma, são líderes.

Quais são as suas referências?

Só tenho uma, é Cristo.

Tem importância na sua vida pessoal. Tem importância para o jogo, para a preparação para a competição?

Claro que sim. É uma fonte de inspiração, para o jogo e para tudo na vida.

Vai fazer a convocatória a 20 de maio, já tem o plano de ação para o Europeu?

Eu sei o que vai acontecer num plano macro. Num plano micro, muitas vezes decido nos últimos cinco minutos. Muitas vezes. Sei que vou fazer uma palestra, e que vou dizer “aquilo”, chamo os meus adjuntos para projetar umas frases, depois, fui treinar de manhã e houve ali qualquer coisa que me chamou à atenção, sou capaz de decidir que não mostro nada e que falo sozinho. Organização, sim. Eu tenho tudo organizado até ao fim do campeonato da Europa. Hoje [29 de abril] acabei de ver um adversário, na semana passada vi outro, para a semana vou ter o outro adversário estudado, já tenho o planeamento da minha equipa, tudo isso está a ser preparado para quando chegarmos aqui no dia 27. Mas tem de haver sempre flexibilidade por parte do líder. Um exemplo: vou entrar em treino dia 27 [de maio]. Se me acontecer uma contingência e me disserem que tem de ser em “bolha” [por causa da pandemia], não entro em estágio dia 27.

É muito cedo?

É muito cedo, para entrar em “bolha” [isolamento], nem pensar. Vou matar os meus jogadores, então digo, "venham daqui por uma semana". Vamos perder seis treinos, mas tenho os jogadores com a cabeça fresca. Eles acabam por ficar cansados. Uma das coisas que eu aprendi quando fui para a seleção da Grécia foi que os jogadores vão à seleção, porque querem jogar pela seleção, mas têm outro objetivo, que é ver a família, tomar café com um amigo.

A pandemia, a “bolha” e a necessidade de isolamento por causa dos riscos de saúde, muda a preparação da equipa?

Neste momento, há alguns pontos que ainda não consegui resolver. Vou esperar para ver o que vai acontecer nos próximos dias. Conforme vejo os jogadores, o ambiente ou se os vejo mais triste, deixo-os irem onde quiserem durante uma manhã ou uma tarde. Faço muitas vezes isto porque sei que é importante para os jogadores

Sabe que o país lhe vai pedir para dizer que vai ser campeão europeu?

Tenho noção que vai pedir, eu é que não vou dizer nada. Não sou adivinho, eu não sou adivinho. As fotocópias são sempre piores do que o original, as fotocópias são sempre más.

Como é que um líder gere as expectativas, neste caso de um país?

Os meus jogadores sabem, eles pensam como eu... vamos ao Campeonato da Europa para vencer, mas sempre fomos. A gente não muda em nada a nossa forma de estar e de pensar. Aquilo [Marcoussis] foi um contexto, foi uma frase, o que vai acontecer amanhã não sei dizer, não tenho nada dons adivinhatórios, não tenho mesmo.

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