Pedro Reis espera “estabilidade com ímpeto reformista” após as eleições de 2022premium

O ex-presidente da AICEP e diretor de banca institucional do BCP candidata-se a bastonário da Ordem dos Economistas cuja eleição decorre esta sexta-feira. Em entrevista, fala de economia e da Ordem.

Pedro Reis vai disputar esta sexta-feira o cargo de bastonário da Ordem dos Economistas com António Mendonça, ex-ministro das Obras Públicas (2009-2011). Já passou pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) e é atualmente diretor de banca institucional no BCP. Em entrevista ao ECO, o economista, que conta com o apoio do atual bastonário, fala de economia, política e do futuro da Ordem.

A expectativa do economista para as eleições legislativas antecipadas que se aproximam é que o resultado passe por uma "estabilidade com ímpeto reformista". Não confunde o "bloco central", o qual rejeita por ser favorável a alternativas claras, com "acordos de regime" entre o PS e o PSD, os quais dizem ser necessários para implementar as reformas que diz serem necessárias para acelerar o crescimento económico.

Para o próximo Governo, Pedro Reis deixa um alerta sobre a execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), deixa menos alarmismo sobre a inflação -- "não é claro que as tensões inflacionistas venham para ficar com materialidade expressiva", nota -- e refere que o grande desafio são as reformas estruturais: "Há que imunizar as reformas estruturais do ponto de vista ideológico e contratualizar com a sociedade um plano a 10 anos".

Emergiu uma nova variante de Covid-19. Ainda não há certezas, mas caso seja semelhante à variante Delta teme que haja consequências económicas?

Manda a cautela e o respeito pela informação científica e o exemplo destes dois anos para que estejamos muito prudentes na projeção de qualquer avaliação. Pode-se inferir destes dois anos que o mundo soube responder relativamente bem, através de estímulos e ajustamentos públicos e privado, articulados institucionalmente internacionalmente e intervenções mais focadas nacionalmente, face ao que poderia ser uma crise de maiores dimensões em termos económicos. Dito isto, parece-me claro que ainda não está digerido o impacto da pandemia, até ver, em termos económicos. Quanto mais incorporar dentro dos modelos o que pode ser o impacto de uma nova variante quando ainda não sabemos os seus contornos. Neste caso, respeitosamente e humildemente, seria bastante prudente. Não sou capaz de lhe projetar o que isto vai significar. Se for equivalente à variante Delta, diria que podemos começar a acreditar que no próximo ano estaremos a entrar numa nova normalidade.

O aparecimento desta variante ensina algo aos líderes das economias mais avançadas em termos de política pública, nomeadamente sobre a distribuição das vacinas em países mais pobres e sobre a a administração da dose de reforço?

Seja a nova variante, seja a pandemia, seja os desafios climáticas, entre outros, todas estas questões carregam uma lição: nós estamos nisto juntos e urge políticas articuladas, concertadas e humanistas, se quisermos vencer os desafios enormes que temos pela frente. O diretor da OMS referiu isso: enquanto não tivermos isto resolvido a nível global, ninguém está protegido, seja em termos sanitários seja em termos económicos. Seja qual for a gravidade desta variante -- e espero que seja relativamente baixa --, é um alerta de que isto tem de ser resolvido a nível mundial e isso passa pelo desenvolvimento e produção rápida de vacinas e disseminação na população mundial como um todo.

Independentemente de quem for Governo vai lidar com o que se está a passar na inflação e política monetária. Está alarmado ou concorda com os bancos centrais e acha que é passageiro?

Situo-me na corrente de opinião que acredita que ainda não é claro que as tensões inflacionistas venham para ficar com materialidade expressiva. Muitos dos fatores que estão a provocar inflação resultam de razões que podem vir a ser atenuadas nos próximos meses. Há já quem diga que só o efeito desta variante nova vai, infelizmente, pelas más razões, atenuar a pressão inflacionista ao nível do consumo. Entre essas duas escolas, estou mais na hipótese que reconhece os sinais inflacionistas, mas que diz que ainda temos um espaço em que se convive de forma saudável com esse impulso e, portanto, aguardemos e não nos precipitemos.

Temos eleições a 30 de janeiro. Enquanto economista, seria positivo para o país ter uma maioria absoluta?

Não fixo tanto no tema da maioria absoluta. Fixo em dois contornos, que tenho esperança que saiam das eleições: estabilidade com ímpeto reformista. Uso estabilidade em vez de maioria absoluta porque esta implica que é monopartidária. O ponto é que, seja qual for a solução e geometria, dê garantias ao país e à economia que não estamos um ano ou dois anos depois numa situação igual ou pior. Não serve ao país voltar a uma crise política. Mas também não serve ter uma estabilidade pura e simples só para manter e ir aprovando Orçamentos porque nós temos reformas profundas por fazer. A razão delas está à vista de todos: um crescimento anémico, um excesso de dívida, uma falta de produtividade, uma necessidade de maior investimento, uma premência de maior capitalização das empresas. A estabilidade só é virtuosa se tiver dentro dela uma agenda reformista, que crie condições para implementar reformas estruturais. Se assim não for, a estabilidade é estéril porque aparentemente não temos problemas na frente política mas na prática estamos a marcar passo economicamente.

"Não serve ao país ter uma estabilidade pura e simples só para manter e ir aprovando Orçamentos porque nós temos reformas profundas por fazer.”

Pedro Reis

Candidato a bastonário da Ordem dos Economistas

É possível ter esses dois resultados nas eleições de 30 de janeiro? E se sim, como?

É sempre possível. Se não fosse possível, quereria dizer que o regime estava bloqueado, que não valia a pena ir a eleições. As soluções que servem ao país são as que trouxerem dentro do seu programa eleitoral e reformas que desbloqueiem o crescimento económico -- só isso assegura a justiça e a mobilidade social. Veremos pelas propostas que serão apresentadas e a ambição que incorporam em termos de mudança de paradigma. Se detetarmos que é mais do mesmo, não estou a ver como é que conseguimos fazer o fecho da equação que é libertar o potencial de crescimento da economia portuguesa. Se não houver propostas que combatam a burocracia, que reforcem a regulação, que agilizem a justiça, que tragam mais produtividade e competitividade, que assegurem a capitalização, que tratem da qualificação da administração pública e por aí fora, qualquer arranjo político fica a meio caminho. É essencial que nasça uma solução que dê lugar a um Governo que tenha capacidade e vontade política de lançar base de crescimento económico mais robusto.

Seria favorável a acordos de longo prazo entre PS e PSD?

Eu sou e acho que há uma confusão que é dizer-se que acordos de regime é a mesma coisa que blocos centrais. Sou a favor de alternância clara e contraste claro entre modelos de desenvolvimento e propostas políticas para o país. É saudável para a democracia as pessoas terem uma escolha clara. Quando isso não existe reforça extremos e tende a ter como fio condutor o mínimo denominador comum entre os dois grandes blocos e isso leva ao imobilismo. Dito isto, não me incomoda -- antes pelo contrário, é o que falta ao país -- haver uma capacidade de identificar áreas em que os dois maiores partidos se entendam a executar reformas que sejam de profundidade, densidade e espessura. Há que imunizar essas reformas do ponto de vista ideológico e contratualizar com a sociedade um plano a 10 anos, no mínimo.

O Orçamento para 2022 era bom e não devia ter sido rejeitado?

Não. O Orçamento era demasiado condicionado por negociações políticas. Os compromissos que incorporava não iam suficientemente fundo e longe para relançar o crescimento económico. Vejo com muita preocupação a rigidez da despesa pública, no nível de carga fiscal excessiva, o peso do setor público excessivo no PRR, os sinais que podiam comprometer o interesse de estimular a poupança e o mercado de capitais. O Orçamento não ia tão longe quanto devia ir. Sobrou no leilão as medidas puramente políticas e tácticas. Portugal precisa de um Orçamento que seja uma peça de uma estratégia de longo prazo. E se ver bem, uma vez levantadas as medidas da pandemia, voltávamos a um crescimento bastante insípido. O próprio Orçamento é o melhor testemunho da falta de ímpeto reformista.

Para o próximo Governo, que conselho ou alerta deixaria?

As reformas são a grande recomendação. Sei que é um tema que tem a sua fadiga. É a mesma conversa de há 20 anos, é, mas a maior prova de que ainda não foi interiorizada é que os crescimentos continuam anémicos. Numa lógica de curto prazo, o grande desafio de arranque do novo Governo é criar condições para a execução do PRR e do Quadro Financeiro Plurianual. Estou preocupado. Não é pela crise política, é um aspecto que já vinha antes mas que a crise política não ajuda. É preciso ter a certeza absoluta que estão implementadas nos organismos públicos a capacidade de decisão, avaliação, calibração, qualificação e elegibilidade de projetos. A minha recomendação é que haja uma task force e um observatório -- e a Ordem dos Economistas será um farol para acompanhar a execução do PRR. Não é só a tónica da transparência dos processos, mas também a capacidade de execução dentro do Estado. Como bastonário, estarei muito atento a essa matéria porque é uma oportunidade preciosa que não podemos dar ao luxo de desperdiçar.

"As reformas são a grande recomendação. Sei que é um tema que tem a sua fadiga. É a mesma conversa de há 20 anos, é, mas a maior prova de que ainda não foi interiorizada é que os crescimentos continuam anémicos.”

Pedro Reis

Candidato a bastonário da Ordem dos Economistas

Os economistas dão bons ministros?

Qualquer pessoa bem preparada, competente, com mundo, séria, pode dar um bom ministro, seja de que parte forte e em que país for. Muito do que falta em Portugal ao nível de políticas públicas é um choque de gestão: na justiça, na educação, no Ministério da Economia, nas infraestruturas.

Para que serve a Ordem das Economistas?

Tem dois grandes blocos. Um bloco é ser uma associação pública profissional que supervisiona, disciplina e regulamenta uma profissão autoregulada, protegendo-os de ingerências políticas -- e não estamos a falar de barreiras à entrada que na Ordem dos Economistas não existem. Não há vazios. Se não tiver uma Ordem, quem é que se pronuncia sobre a credenciação dos cursos de ciências económicas? São os Governos, que têm uma agenda política? Depois, na vertente institucional, a atribuição de uma cédula profissional pode dar respeitabilidade e credibilidade para quem vai trabalhar para o exterior. Depois tem uma área enorme de formação, observatório, de informação, do estabelecimento de parcerias internas e externas, a articulação com Universidades, que é tremendamente importante.

Faria sentido a Ordem estar no conselho consultivo do PRR?

Sou um institucionalista, portanto acredito que a Ordem deve fazer-se ouvir autonomamente, mas deve estar integrada também nos fóruns institucionais, como concelhos consultivos e fóruns mais formais. Acredito muito nas críticas construtivas, no trabalhar em soluções.

Passa também por fazer propostas concretas para o país como um think tank?

Sem dúvida nenhuma, incluindo análises de custo-benefício de investimentos estruturantes. Tem um conhecimento vastíssimo dentro da Ordem. Há temas que acomodam bem as sensibilidades dos economistas mais à esquerda ou mais à direita, não é esse o ponto, mas a qualidade do pensamento que se coloca ao serviço do país.

Teme a partidarização da Ordem?

Nestes meses de campanha, as pessoas não estavam interessadas nessas dicotomias, esquerda e direita, se vem de um espaço ou de outros. Vi uma disponibilidade e interesse para a Ordem ajudar a pensar estas questões do país.

Os economistas têm uma boa imagem na sociedade portuguesa?

Têm respeitabilidade quando se toma a classe como um todo. Eu não confundo casos concretos de economistas ou gestores que feriram todas as regras de ética e com isso atingiram o bem público com o prestígio da classe.

O regime jurídico das ordens profissionais está em discussão no Parlamento. Vê com preocupação aspectos das propostas que outras Ordens já criticaram ou se acha que é positivo?

A Ordem dos Economistas tem um modelo equilibrado entre autonomia e independência, com um perímetro de atuação própria. O sinal dos tempos e a nova legislação até aproxima mais do modelo em que a Ordem dos Economistas já está. Percebo os ventos europeus de fundo que querem retirar qualquer laivo corporativista e eu acho isso positivo, mas é fundamental calibrar isso bem. Há lá certos aspectos -- ainda bem que se ganhou tempo de discussão por causa do calendário político e eu já entrarei nessa discussão se for eleito -- em que é preciso ter cuidado como se assegura que as Ordens têm a sua independência. Camuflado de posições de independentes em conselhos consultivos e disciplinares, de repente esteja a colocar nomeações que podem ter cariz político a ter o efeito perverso: sob a bandeira de querer defender os membros das Ordens estar a expô-los ingerências partidárias. Isso é que seria muito grave.

A IL queria acabar com a Ordem dos Economistas...

Implodir as Ordens destapa a proteção das profissões e a defesa do individualismo. Abre o campo a uma ingerência da tutela. Podia ter o efeito oposto do desejado. A Ordem é um regulador soft. É a mesma coisa que dizer: vamos acabar com os reguladores porque é um órgão de imposição do Estado. O meu ponto é: não é acabar com os reguladores, é garantir que os reguladores são independentes.

O que o diferencia de António Mendonça?

Gosto de falar do nosso projeto e não por contraste. Trazemos uma renovação serena e não roturas. Nós vimos dinamizar a Ordem para a adaptar aos tempos que aí vêm. Não quer dizer que venhamos em rotura, como sinto na outra lista, com a situação atual. Acredito em construir uma realidade em cima das fundações que já existem.

Porque é que só se inscreveu na Ordem dos Economistas recentemente?

Essa é a pergunta que a outra lista faz recorrentemente. Mal seria de uma instituição que olhasse de lado para quem vem de novo. Abrirei o tapete vermelho a quem chegar de novo porque é de sangue novo que a Ordem precisa. O facto de ser um membro recente da Ordem, em conjugação com o enorme e transversal apoio fora e dentro da Ordem, é de onde nasce a força. É um ponto positivo e não negativo.

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