“Lista A é a lista de Tomás Correia sem Tomás Correia”premium

Pedro Gouveia Alves, candidato da Lista D à Mutualista Montepio, admite pedir ajuda ao Estado em formato de garantia pública para os ativos tóxicos do Banco Montepio.

Pedro Gouveia Alves é o presidente da Montepio Crédito e concorre às eleições para a Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG) pela Lista D. Em entrevista ao ECO, lamenta que a mutualista esteja "há demasiado tempo de costas voltadas para as pessoas" e quer voltar a colocá-la como um "farol da economia social" e ataca Virgílio Lima: é o "pai" dos ativos por impostos diferidos no valor de 800 milhões criados em 2017 e que ajudaram a mascarar a situação frágil da instituição e a lista que lidera é a "lista de Tomás Correia mas sem Tomás Correia".

O gestor vê a situação financeira do grupo como "muito desafiante" e, como os outros candidatos, também admite que será necessário o apoio do Estado, nomeadamente através de uma garantia pública para os ativos tóxicos do Banco Montepio. "Pode ser por via do Estado diretamente ou através de um veículo do Estado, seja o Banco de Fomento ou outra entidade que possa ajudar nesse sentido. Estamos a falar de poucas centenas de milhões de euros, não é nada de extraordinário em relação a outras coisas que já vimos no mercado com outros bancos", explica Pedro Gouveia Alves.

Candidata-se com que objetivo?

Candidatamo-nos com o objetivo de recentrar a mutualista na sociedade portuguesa, no lugar que deve ocupar como um farol da economia social, com capacidade para responder às pessoas. A Associação Mutualista já tem andado há demasiado tempo de costas voltadas para as pessoas: os associados, os trabalhadores e as entidades da economia social.

Sente que na última década o Montepio entrou numa aventura para tentar tornar-se num grupo financeiro, esquecendo a sua missão mutualista?

Quando fazemos o balanço de uma década, chegamos à conclusão de que, de facto, não houve capacidade por parte da gestão atual de fazer, por exemplo, uma adequada integração dos trabalhadores que vieram do Finibanco, uma adequada aculturação das suas pessoas...

O Finibanco foi uma boa aquisição?

A compra do Finibanco tinha uma lógica: de incrementar as capacidades do Montepio em determinados segmentos onde não era forte, nomeadamente no serviço às PME. O Montepio sempre esteve muito centrado nas empresas de construção e promoção imobiliária, tem a ver com a sua história e especialização. Foi esse o sentido da aquisição do Finibanco.

Mas…

Aquilo que aconteceu a seguir foi uma incapacidade de gestão no sentido da integração das pessoas, dos negócios e da valorização desses negócios.

Há quem diga que o preço que foi pago pelo Finibanco foi muito alto, acima do que realmente valia.

Desconheço o que esteve por detrás dessa avaliação. O Finibanco estava cotado no mercado e obedecia a um conjunto de regras, nomeadamente relacionadas com a CMVM. Existe o prospeto da OPA e está lá tudo escrito e explicado em relação à avaliação que foi feita.

Como vê a situação financeira do grupo?

A situação financeira do grupo é muito desafiante. O grupo tem enorme capacidade de voltar a ter o valor que já teve e a ser-lhe conferida a solidez que já lhe foi conferida pela sociedade. A Lista D considera que é possível revalorizar o Montepio.

Como pretende fazer essa revalorização?

Passa pelo peso que as participações têm no ativo da Associação Mutualista, por uma revalorização quer do banco, quer das atividades seguradores, das sociedades gestoras dos fundos de investimento e dos próprios imóveis que fazem parte da carteira da Associação Mutualista. Isto só se faz com uma coisa: com pessoas. O que vemos nos últimos tempos? Relativamente aos trabalhadores, só tenho a lamentar que haja um grau de desmotivação profundo em todo o grupo.

A que se deve essa desmotivação coletiva?

Prende-se com a ausência de liderança. Primeiro houve desconfiança relativamente à liderança e depois houve inoperância da liderança.

Os ativos por impostos diferidos e a avaliação do banco causam apreensão aos auditores. E a si?

É claro que é um fator de preocupação. O atual presidente do conselho de administração é o pai da perda de isenção fiscal em sede de IRC, pois tinha o pelouro da contabilidade e foi quem fez o pedido de informação vinculativa à Autoridade Tributária. Depois, isto é mau para a Associação Mutualista? Obviamente que é mau. A Associação Mutualista tem todas as condições e preenche todos os requisitos em sede do código de IRC para ter isenção fiscal e só por via de um artifício é que perdeu isenção fiscal. Fê-lo com um objetivo: de serem reconhecidos ativos por impostos diferidos, que fez insuflar os capitais próprios da Associação Mutualista.

O atual presidente do conselho de administração é o pai da perda de isenção fiscal em sede de IRC, pois tinha o pelouro da contabilidade e foi quem fez o pedido de informação vinculativa à Autoridade Tributária. Depois, isto é mau para a Associação Mutualista? Obviamente que é mau.

Pedro Gouveia Alves

Candidato da Lista D ao Montepio

Mas tendo em conta a situação da Associação Mutualista, não era uma medida necessária, até para travar alguma desconfiança que pudesse ser criada?

O que aconteceu foi mau, mas era um mal necessário. Em 2016, a Associação Mutualista tinha capitais próprios negativos em base consolidada de 347 milhões de euros e passou a ter capitais próprios positivos em base consolidada de 495 milhões. Mas antes disto acontecer, o que deveria ter sido feito energicamente era discutir com as autoridades todo o enquadramento regulamentar da Associação Mutualista de modo que não fosse exposta, como foi, ao ruído no mercado. O incumbente está enredado pelos próprios problemas que criou e agora vai à pressa nestas eleições à procura de apresentar aos associados um conjunto de soluções para os problemas que criou.

E em relação ao banco?

O banco está avaliado no balanço da Associação Mutualista em 1.500 milhões de euros. Temos de ser intelectualmente honestos e corretos: o que tem sido a posição da Associação Mutualista passa por uma política contabilística de valorização pelo valor de uso, que é diferente da métrica dos múltiplos do mercado. Faz todo o sentido, e os próprios auditores também reconhecem, que a avaliação do banco, que não está à venda, é um ativo estratégico do ponto de vista da presença do Montepio e da sua distribuição e afetação de meios para servir os associados em todo o país. Portanto, esta é uma avaliação correta.

Mas como se vai recuperar as imparidades de mil milhões em relação à participação do banco?

Quando hoje se vem dizer que se vai anular imparidades do banco, essa não é uma abordagem séria e não é responsável. Estamos muito longe ainda de poder anular imparidades relativamente à participação do banco. Mesmo que o consigamos fazer, isso não é distribuível pelos associados. Não é correto dizer isso, é absolutamente demagógico.

Relativamente à forma de inverter esta situação, prende-se com a conceção dos planos de negócio de cada uma das participações. Os planos de negócio devem estar fundamentados numa estratégia que sirva a estratégia de grupo. O banco deve ser um banco de raiz mutualista e não deve ter medo em se afirmar como banco de raiz mutualista. Deve ser um banco direcionado para as famílias, para os indivíduos, para os pequenos negócios e para as entidades da economia social. Depois, o acionista deve exigir da gestão do banco que a rendibilidade de capitais próprios esteja adequada àquilo que são as necessidades da Associação Mutualista. Há muito para fazer aqui.

Que avaliação faz do papel do acionista em relação ao banco?

Tem tido um papel completamente passivo. Não é exigente com a gestão. Enquanto acionista tem responsabilidade por exigir daquilo que é o seu ativo. É preciso ter uma rendibilidade de capitais próprios a médio prazo de 8% a 10%? Então temos de trabalhar nesse sentido. Se compararmos o desempenho das nossas participadas relativamente ao desempenho do mercado, estamos muito aquém na geração dos proveitos. Muito aquém mesmo.

Pedro Gouveia Alves, candidato à presidência da Associação Mutualista Montepio Geral, em entrevista ao ECO - 25NOV21

O Montepio precisa de ajuda do Estado?

A garantia verbal já existe. Foi dito pela governação que se for necessário dar um suporte e uma ajuda – e não tem de ser uma ajuda dos contribuintes, uma ajuda monetária – à atividade do Montepio, essa ajuda estará garantida.

A minha abordagem em relação a este assunto é racional, técnica e séria: a Associação Mutualista e o Banco Montepio não fizeram o trabalho de casa. O grupo Montepio podia ter acorrido às linhas de capitalização da banca, como fez a Caixa, o BCP e o BPI, isso não foi feito. Tivemos de acumular as perdas, estas perdas tiveram de ser supridas pela recapitalização da Caixa Económica, por via do esforço dos associados e o problema não foi resolvido. O problema acumulou-se e adensou-se. Hoje continua lá.

Não é difícil perceber que hoje o grande ativo da Associação Mutualista, o banco, necessita de fazer um carve-out dos seus ativos improdutivos. A existência destes ativos improdutivos pode representar perdas de 80 a 90 milhões de euros por ano nas contas do banco. É um esforço muito significativo.

O problema tem solução. São 1.376 milhões de euros entre crédito malparado e imóveis. O que tem de ser feito é o trancheamento de todos estes 1.376 milhões de euros, ver a parte que está imparizada, que andará à volta dos 700 milhões, constituir uma carteira que seja titularizável de modo a atrair investidores do mercado que são especialistas nesta área, fazer a organização de toda esta componente.

Depois, em relação à parte do equity, de maior risco, deve também estar aberta ao mercado, mas deverá ter uma componente adicional de diluição de risco e aqui defendemos que essa componente adicional de diluição de risco possa ser uma solução de garantia pública, ou do Estado diretamente ou através de um veículo do Estado, seja o Banco de Fomento ou outra entidade que possa ajudar nesse sentido. Estamos a falar de poucas centenas de milhões de euros, não é nada de extraordinário em relação a outras coisas que já vimos no mercado com outros bancos. Precisa disto para estender o prazo de recuperação destes ativos. Por serem ativos de elevado risco, alguns vão ser recuperados, há outros que não vão ser recuperados.

Tendo em conta a situação do Montepio, poderá ter de haver algum corte nos benefícios dos associados, poderão ter de assumir algum sacrifício?

Não creio que isso seja um horizonte provável. Não me parece que isso vá acontecer. Há mecanismos e capacidade da parte da Associação Mutualista para que isso seja evitado.

Associaram o nome de Tomás Correia à sua lista. É verdade que andou a reunir apoios para a sua candidatura?

Isso não é verdade, é uma falsidade completa de quem tem esse problema às costas. A Lista A é a lista de Tomás Correia sem Tomás Correia.

Tomás Correia já disse que não vai apoiar a Lista A.

Eu não falo com Tomás Correia. Quem falará com Tomás Correia provavelmente serão as pessoas da Lista A, que melhor o conhecem e que privaram com ele nos órgãos sociais. Eu nunca privei com ele nos órgãos sociais, nunca fui escolhido por Tomás Correia para nenhum órgão social. Virgílio Lima é que esteve a trabalhar com Tomás Correia durante seis anos, foi mandatário da candidatura de Tomás Correia em 2012, quando foi escolhido para liderar a área de seguros.

Porque acha que quiseram associar a sua lista a Tomás Correia?

Porque do ponto de vista de chicana eleitoral ajuda a promover uma candidatura que está completamente gasta do ponto de vista de energia.

Gostaria de esclarecer consigo algumas notícias que surgiram na imprensa, nomeadamente no Observador: chegou a estar envolvido em auditorias internas do banco?

Não, não chegou. Isso é completamente falso. Tive oportunidade de exercer o direito de resposta junto do Observador, que foi quem deu essa notícia falsa.

Repito, o seu nome chegou a estar envolvido em auditorias internas do banco?

Não chegou [a estar envolvido] em auditoria nenhuma. Estamos a falar de uma pré-preparação de uma campanha eleitoral negra que alguém andou a tentar desenvolver.

A Lista A é a lista de Tomás Correia sem Tomás Correia.

Pedro Gouveia Alves

Candidato da Lista D ao Montepio

É presidente da Montepio Crédito. O mandato terminou em 2019 e ainda não foi renovado? Porquê?

Sou presidente da Montepio Crédito em exercício de funções. Estou autorizado para estar em exercício de funções e, portanto, continuo em exercício de funções como presidente da Montepio Crédito e administrador do Banco Montepio.

Mas porque o mandato ainda não foi renovado?

Provavelmente porque estão à espera do desfecho das eleições.

Mas o mandato terminou no final de 2019.

Como também terminaram os mandatos do Banco Empresas Montepio, da Montepio Holding...

Durante o processo de pré-registo da ASF, o regulador questionou-o sobre essas notícias e sobre o facto de ainda não ter sido reconduzido na Montepio Crédito?

A ASF não fez nenhuma questão sobre isso. Nenhuma observação.

Em termos de oferta mutualista, como vê a atual política e que propostas têm em cima da mesa?

Fiz parte de uma comissão para a revisão do regulamento de benefícios da Associação Mutualista. Essa equipa fez um trabalho de fundo para regenerar toda a oferta, mas nunca viu a luz do dia. Incompreensivelmente. Por inoperância desta administração que não avançou com todas as propostas que foram apresentadas do novo regulamento de benefícios.

Um exemplo: a modalidade mutualista de saúde nunca viu a luz do dia. Defendemos o desenvolvimento de uma modalidade mutualista de saúde, em articulação com outras entidades mutualistas europeias, nomeadamente francesas, que têm experiência nesta área e que nos pode ajudar a reduzir os períodos de carência no acesso a esta modalidade, aumentar a proteção nas diversas patologias e não apenas nas patologias que são habitualmente apresentadas em termos de cobertura por parte das seguradoras.

Outro tema que está todo por fazer está relacionado com as modalidades mutualistas que permitam o acesso às residências Montepio. Temos de ser capazes de preparar a população da vida ativa de hoje para que mais tarde possa usufruir da modalidade de vida e ter acesso às residências Montepio. É incompreensível que as residências Montepio, o maior operador de residências sénior em Portugal, tenha uma maior taxa de ocupação com não associados. Temos de dar prioridade aos associados.

Propomos também ajudar os associados que estão na vida pós-ativa e que têm património a gerir esse património para permitir complementar a perda de rendimento quando entram na reforma. Este complemento pode ajudar a ter acesso às residências Montepio.

Se vencer as eleições, qual será a primeira medida que vai tomar?

A primeira vai ter de ser a revisão integral do plano de convergência com as autoridades da tutela, é a mais urgente porque estamos numa situação difícil neste momento. Basta ler a regulamentação em vigor para perceber o que quer dizer um plano de convergência rejeitado. Isso é muito grave para os nossos associados.

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