“Queremos sedimentar estabilidade do Montepio”, diz Virgílio Lima

Virgílio Lima é o presidente da Associação Mutualista e procura novo mandato com o objetivo de "sedimentar a estabilidade" do grupo. Reduzir salários na administração? "São valores do mercado", diz.

Virgílio Lima é o presidente da Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG), cargo que assumiu há dois anos após a saída de Tomás Correia, e procura agora a renovação do mandato. Candidata-se pela Lista A com o objetivo de “sedimentar a estabilidade” que o grupo alcançou nos últimos anos, depois de ter assegurado recentemente ao ECO que o Montepio não precisa de fundos do Estado, apesar dos avisos e alertas da oposição, que vê a situação financeira da instituição muito delicada e desafiante.

A caminho das eleições de 17 de dezembro, Virgílio Lima diz que os grandes desafios estão dentro da própria Associação Mutualista. Pretende renovar a oferta de produtos mutualistas, incluindo uma nova solução para a habitação “híbrida”, em que o associado paga a renda de casa e pode no final ficar com a casa. Sobre os salários da administração, defende-se dizendo que são “os valores normais do mercado”.

Tem a seu favor o facto de conhecer a casa há muitos anos. O que pode trazer de novo para o Montepio?

Esta candidatura ocorre na sequência do trabalho dos dois últimos anos, 22 meses mais exatamente, em que assumi esta missão. O último ano foi especialmente difícil, de condições extremas, desde logo pela pandemia, que nos obrigou a permanecer em casa e a reestruturar o funcionamento da associação. Este trabalho à distância significou um relacionamento à distância e resultou num trabalho imenso.

Além disso, fomos confrontados com exigências de supervisão em termos de apresentação de um plano de convergência e um plano de atividades a dez anos. Tivemos também necessidade de fazer o registo definitivo dos estatutos que estavam numa situação de registo provisório. Por dificuldades até no relacionamento com a Direção-Geral da Segurança Social, houve que fazer um trabalho ativo no sentido de desbloquear os estatutos, que eram o ponto de partida fundamental para adequarmos o Código das Associações Mutualistas de 2018 à associação e, ao mesmo tempo, poder ter o regulamento eleitoral e as eleições.

Olhando para a frente, a lista A tem como objetivo a continuidade e de fortalecer o grupo. Quais as propostas que tem para o Montepio?

Neste contexto de partida, em que tivemos de arrumar a casa nestes domínios-chave, foi importante estabilizar o grupo porque tínhamos um problema de instabilidade entre instituições e intrainstituições. Tivemos também de alterar o regulamento de benefícios. Houve um conjunto de matérias estruturantes que exigem seguimento e consolidação. Houve um diálogo com as entidades além da tutela. Foi um diálogo construtivo com os supervisores, uma área nova de trabalho para a associação. Estabeleceu-se uma reunião muito construtiva. Há uma ideia de continuidade no sentido de consolidar e concretizar e desenvolver estar áreas chave que identifiquei.

Há continuidade, pois eu e outro colega do atual conselho transitamos como candidatos para o novo conselho executivo. Mas também há uma renovação na medida em que há muitas coisas por fazer em muitos domínios. Além desta consolidação, há que avançar para uma efetiva articulação em que o papel acionista está presente na definição da estratégia, dos órgãos sociais e, depois, no controlo com proximidade, mas mantendo a cultura do nosso grupo, uma cultura baseada nas pessoas, no associativismo e que queremos em todo o grupo desenvolver, passar a funcionar melhor, integrando a oferta e o funcionamento também em áreas onde possamos ter sinergias.

Virgílio Lima, candidato à presidência da Associação Mutualista Montepio Geral, em entrevista ao ECO - 17NOV21

Em que áreas?

Na área das infraestruturas tecnológicas. Uma das áreas chave do futuro é justamente a digitalização do grupo. Hoje já há uma prestação de serviços nessa área. Mas criou-se um grupo de trabalho para o Montepio e com pessoas de todas as entidades, o que é também um objetivo do próprio banco que é fazer uma digitalização efetiva e isso deverá ser transversal a todo o grupo, obtendo sinergias nos domínios em que podemos fazer em conjunto o que já no passado fizemos.

Por necessidade de separação [entre mutualista e banco], e bem, tivemos de replicar muitas estruturas. O modo de obter sinergias é voltar a fazer em conjunto o que foi separado com transparência, com estruturas empresariais e jurídicas adequadas. Isso são os agrupamentos complementares de empresa, que podem trabalhar nesta área das infraestruturas tecnológicas e em várias áreas de interesse comum, desde o economato, as compras, os serviços administrativos e muitas áreas de controlo interno que podem funcionar em conjunto, em domínios especializados, que servem a todos com uma grande profundidade porque especialistas e reobtendo-se sinergias que perdemos. É uma área chave de funcionamento para o futuro.

Temos depois de sedimentar esta estabilidade do grupo que é fundamental e foi conseguida e que permitiu obter resultados. No ano de 2020, apesar destas dificuldades, nós tivemos 70 milhões a mais entre as novas subscrições e os vencimentos das modalidades, o que mostra a atratividade das soluções associativas para os associados em geral. Crescemos em número de associados. Estamos hoje com 602.800 associados e crescemos já no final do ano anterior.

Quais são as perspetivas para todo ano?

Vimos realizando cerca de dois milhões de excedentes por mês. Não há resultados propriamente, mas excedentes. Com a nossa filosofia de entreajuda, depois por via da reserva geral, alguma área mais deficitária — ainda hoje temos modalidades em que pagamos 4%, 6% e nós nunca deixamos de honrar o compromisso – é compensada por outras que têm excedentes.

O que aqui pode ter mais impacto são as avaliações das empresas fundamentais do grupo, o banco e os seguros, onde não esperamos o aumento de imparidades.

Porquê?

Porque estão a cumprir os seus planos de negócios. Nos seguros, já no ano passado houve uma libertação de imparidades, mas que não tinha materialidade e por isso não foi relevada. Mas este ano continuam a apresentar resultados robustos e, nessa medida, esperamos libertação de imparidades.

Já no ano passado, o auditor referiu, apesar do ano atípico, que o cumprimento dos planos de negócio e mais um ano de observação desse cumprimento seriam condição para libertação de imparidades nesta área dos seguros. No banco não esperamos. Também está a cumprir o plano de negócios, no último trimestre teve resultados positivos, esperamos já um ano de 2022 com resultados francamente positivos. Esta é uma área de trabalho de futuro muito relevante.

"Temos depois de sedimentar esta estabilidade do grupo que é fundamental e foi conseguida e que permitiu obter resultados. No ano de 2020, apesar destas dificuldades, nós tivemos 70 milhões a mais entre as novas subscrições e os vencimentos das modalidades, o que mostra a atratividade das soluções associativas para os associados em geral. Crescemos em número de associados. Estamos hoje com 602.800 associados e crescemos já no final do ano anterior.”

Onde estão os principais desafios do grupo?

Neste momento, se fizermos um balanço consolidado do grupo, os resultados são positivos. Todas as empresas estão a dar resultados positivos. Mesmo o banco fez já no último trimestre resultados positivos substanciais.

Os grandes desafios estão na gestão da própria associação, consolidando todos estes aspetos em termos de planos de atividades, planos de convergência e de estabilidade do grupo.

Como desafios e prioridades em termos da própria oferta mutualista, temos de adequar a nossa resposta. Os nossos associados precisam de apoios na saúde, na habitação, na velhice, quando o rendimento disponível diminui e as necessidades de apoio aumentam. Queremos criar modalidades que permitam servir os associados, não visando o lucro. Somos uma organização cidadã, somos uma associação de pessoas e não de capitais, para resolver os nossos problemas, e pensamos que contribui para a coesão social e tem grande atratividade.

Quer renovar a oferta mutualista. Que propostas têm em vista?

Uma modalidade para a habitação, em que as pessoas possam ter soluções de habitação com a intervenção da Associação Mutualista num primeiro momento, mas associada a uma modalidade que permita, no final, o associado ficar com a habitação. E isto em condições muito vantajosas do ponto de vista de custo para o associado, satisfazendo uma área em que sentimos que há uma necessidade efetiva.

Como vai funcionar esta solução: será uma solução em que o associado paga uma renda que depois vai abatendo ao custo da aquisição da casa?

Sim, haverá o pagamento da renda e, simultaneamente, a constituição deste fundo que permitirá, no final, que a habitação seja do associado. Temos já estudos concretos neste domínio, mas não está fechado. Não posso ainda dar a solução definitiva, mas conceptualmente é essa a ideia.

E noutras áreas?

Temos um cartão de saúde distribuído gratuitamente a todos os associados que permite descontos substanciais em muitas unidades de saúde. Em cima disso, temos seguros de saúde com vários módulos para coberturas de diferente tipo. Mas queremos desenvolver uma modalidade associativa muito suportada em aspetos preventivos que permitam diminuir a sinistralidade no futuro e tornar a nossa oferta mais acessível, servindo a nossa comunidade.

Temos já hoje 1.000 utentes nas nossas residências. Queremos alargar esta oferta chegando a um universo mais alargado de associados. Para isso, queremos constituir uma modalidade em que durante a vida ativa as pessoas possam contribuir, gerando poupanças que no período de utilização na velhice possibilitem condições muito acessíveis de utilização das residências. Há um plano de expansão a este nível que será muito suportado na própria procura. Orientaremos a oferta em função da procura que observarmos. Mas julgamos que é uma necessidade efetiva nos dias de hoje e queremos desenvolver estas áreas prioritárias.

Juntamente com isto, queremos atualizar toda a oferta – e é uma das áreas onde estamos muito bem — nas áreas da previdência complementar.

Além disso, são fundamentais no grupo os ativos estratégicos e onde está mais capital dos associados: no banco e nos seguros. Queremos dar importância ao banco, desde logo na sua estratégia que nos cumpre estabelecer. Depois, na governance do banco, também aqui haverá continuidade natural. O banco tem um peso especial. Pela relevância das poupanças dos associados que estão aplicadas no banco e porque, sempre que há crises, a associação acorre ao banco, e em situações de normalidade é o banco que contribui.

É o que espera que aconteça agora, depois da crise?

O banco já está neste momento a gerar valor e tem condições de gerar muito valor. Além da digitalização de que falávamos, há aspetos da sua governance e dos seus ativos que naturalmente a gestão do banco, em diálogo com o acionista, vem identificando como áreas necessárias de desenvolvimento para uma exploração mais rentável e mais alinhada com os padrões do setor e que já foram nossos no passado.

Há listas que defendem uma frugalidade e redução dos salários e benesses da administração. Concorda ou considera que é uma medida eleitoralista e que não terá grande impacto?

Frugalidade e austeridade, sim, sempre, porque os recursos são sempre escassos. Nós temos no grupo conselhos de administração que naturalmente estão em concorrência com o mercado a todos os níveis. Também ao nível das competências de gestão temos de ter essa qualidade. O preço dessa qualidade é o preço do mercado. Naturalmente que isso tem de ser observado. Esses são os critérios. Para a missão que têm de desempenhar quem são e quem pode, com qualidade, desenvolver essas funções?

Para isso, naturalmente, têm de se pagar os valores normais do mercado, é disso que se trata. E é em função do serviço ao cliente, do serviço ao associado e dos resultados globais do grupo que também neste mercado específico das competências de gestão nós temos de ter as condições normais de mercado. É disso que se trata.

Se vencer, qual será a primeira medida que vai tomar?

Não há nunca uma primeira medida. As organizações são complexas e requerem atenção e urgência em múltiplos domínios. São estes que referi. Começando a trabalhar ativamente em cada dia no sentido do cumprimento destes objetivos e missões essenciais como pilares do desenvolvimento futuro. Isso requer uma articulação da equipa que julgamos ter. E requer um trabalho aturado, persistente. O que temos observado neste período tão difícil da pandemia e de transformações fundamentais e estruturantes é para continuar intensamente.

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