“Não vamos vender o Banco Montepio. Vamos abrir o capital, mantendo o controlo”premium

Pedro Corte Real faz uma avaliação muito positiva do trabalho da atual administração do Banco Montepio. Adianta que futuro do banco passará por uma parceria com investidor que olhe para o longo prazo.

Pedro Corte Real admite abrir o capital do Banco Montepio a outros investidores, numa lógica de longo prazo, mas sem abdicar do controlo da instituição. "Vamos definir um conjunto de encargos para um parceiro que queira sentar-se connosco à mesa e ajudar a gerir o banco num cenário de longo prazo, a 40 anos, 50 anos ou 60 anos", adiantou o candidato da Lista B nas eleições para a Associação Mutualista Montepio Geral.

Em entrevista ao ECO, Pedro Corte Real faz uma "avaliação muitíssimo positiva" do trabalho da atual administração do banco, tendo em conta o comportamento "errático e completamente alheado" do acionista. Mas ainda não definiu se vai reconduzir a equipa de gestão liderada por Pedro Leitão, se vencer as eleições de 17 de dezembro.

Disse na apresentação que pretendia vender parte do capital do banco a outro investidor. Como pretende fazer essa operação?

Não disse que queria, disse que se fosse necessário não fechava essa porta. Estamos abertos à abertura do capital do banco. Como? Identificando-se a necessidade e percebendo os moldes em que nós queremos que venha um parceiro. Terá de ser sempre com as seguintes condições: não vamos vender o banco, vamos abrir o capital; vamos manter o controlo do capital do banco, porque até a isso estamos obrigados e não queremos alterar essa situação; vamos definir um conjunto de encargos para um parceiro que queira sentar-se connosco à mesa e ajudar a gerir o banco num cenário de longo prazo, a 40 anos, 50 anos ou 60 anos.

Que perfil terá de ter este investidor?

Se encontrarmos um investidor que seja da economia social, os alinhamentos estarão perfeitamente identificados. Terá de compreender que será um banco que serve os interesses de uma associação mutualista e não será uma associação mutualista a servir o banco. Se não for uma entidade da economia social, obviamente terá um conjunto de preocupações diferentes, mas terá de estar completamente alinhado com a Associação Mutualista e entrará para o banco para ajudar a definir e a implementar um conjunto de linhas de negócio.

Não vamos vender o banco, vamos abrir o capital; vamos manter o controlo do capital do banco, porque até a isso estamos obrigados e não queremos alterar essa situação; vamos definir um conjunto de encargos para um parceiro que queira sentar-se connosco à mesa e ajudar a gerir o banco num cenário de longo prazo, a 40 anos, 50 anos ou 60 anos.

Pedro Corte Real

Candidato da Lista B ao Montepio

A Associação Mutualista não corre o risco de assumir perdas tendo em conta que um eventual negócio se fará por um valor abaixo daquele que está registado no balanço?

O Banco Montepio não está em mercado, ou seja, não está cotado na bolsa de valores.

Mas a partir do momento em que há disponibilidade para vender parte do capital, tem de haver uma referência de mercado, não?

A partir desse momento, o parceiro, até por responsabilidade fiduciária com os seus acionistas, está obrigado a fazer uma avaliação do banco. Eu não sei qual será o valor que o parceiro dá a uma marca como o Montepio, a uma rede de balcões como a do Montepio, e a uma base de clientes com esta fidelização à marca, mesmo passando por todas estas dificuldades. Tenho a certeza de que, uma vez definido o caderno de encargos, se tivermos dez parceiros, teremos dez valores totalmente diferentes. Mantenho: temos de encontrar um parceiro que, no médio e longo prazo, dê um resultado seja muitíssimo positivo para as duas partes.

Do mesmo modo em que há muito capital para investir em empresas de capital de risco, como as startups, também há muito capital que aposta no longo prazo. Abrindo um caderno de encargos à escala global, um caderno de encargos muito bem definido, com credibilidade, tenho a certeza que encontraremos parceiros para sentar à mesa das negociações.

O auditor tem dúvidas sobre o valor de 1.400 milhões que é atribuído pela associação ao banco.

É verdade, são essas as contas e concordamos com essa avaliação do auditor. Mas a questão é: estamos a tempo de reverter esta situação? Estamos. É uma instituição bicentenária. Com a Lista B, com as competências, credibilidade e independência que trazemos, estaremos em condições para lançar as bases para a reconstrução da instituição, que passa também por explicar qual o valor do banco ao parceiro. Qualquer parceiro que se sente connosco à mesa compreenderá que o valor do banco é muito superior.

Mas vale os 2.400 milhões?

Com um acionista que consiga definir um trajeto para o banco, um plano de atividades que seja exequível, no longo prazo, o banco vai valer muito mais do que isso.

Mesmo num setor tão competitivo e em plena transformação tecnológica?

Com um caderno de encargos bem construído vamos encontrar parceiros que vão trazer ideias. Vão por capital e também trazer ideias. Com capital, seremos tão bons como os melhores, como este banco já foi no passado quando servia a Associação Mutualista. O que aconteceu? O projeto foi completamente desvirtuado e o banco era utilizado para negócios completamente inexplicáveis à luz de qualquer racional económico e de gestão de risco. Os resultados estão aí.

Estas instituições vivem de credibilidade, que não têm. O conselho de administração atual não tem. Começou com Tomás Correia, foi eleito em 2018 e ao fim de menos de um ano, percebendo que o regulador não lhe ia averbar a idoneidade, vê-se forçado a resignar e deixa no seu lugar Virgílio Lima. Virgílio Lima mantém tudo na mesma e continua a dizer que está tudo bem, não precisamos de falar com ninguém e que não precisamos de parceiros.

Pedro Corte Real, candidato à presidência da Associação Mutualista Montepio Geral, em entrevista ao ECO.Hugo Amaral/ECO

 

A atual administração do banco está em fim de mandato. Que avaliação faz o trabalho feito nos últimos anos?

Faço uma avaliação muitíssimo positiva porque sei das dificuldades de quem teve de gerir o banco nesta fase. É muito difícil sobretudo quando o dono, quem dá as orientações, não consegue definir uma linha orientadora. Basta olhar para as promessas de Tomás Correia e Virgílio Lima quando se candidataram às eleições em 2018, nenhuma foi cumprida. Quando temos alguém tão errático e tão completamente alheado do que é a realidade, em total negação do que é a realidade, obviamente que é um acionista que não tem capacidade de diálogo com a sua participada. Percebo as dificuldades que a administração do banco tem e, como associado, estou muito grato.

Uma das coisas que temos de fazer é sentar com esta equipa do banco e perceber duas coisas: o que está planeado para começar a devolver estes 2,4 mil milhões de euros aplicados no banco com as mais-valias associadas e como recuperar o crédito malparado; e o que é que precisam do nosso lado enquanto acionista com uma nova administração. Ao mesmo tempo, também temos de perceber e explicar ao que vamos e perceber se aquela equipa é a ideal para interagir connosco e implementar.

Faço uma avaliação muitíssimo positiva porque sei das dificuldades de quem teve de gerir o banco nesta fase. É muito difícil sobretudo quando o dono, quem dá as orientações, não consegue definir uma linha orientadora.

Pedro Corte Real

Candidato da Lista B ao Montepio

Já sabe se vai reconduzir esta equipa ou vai nomear uma nova?

Não tenho nenhuma ideia definida. Não tenho uma ideia pré-concebida sobre se esta equipa ficará na íntegra, se haverá mudanças. Mas também sei que esta equipa foi convidada para um tipo de projeto, por diferentes pessoas, e agora entrarão pessoas completamente diferentes para a administração da Associação Mutualista. É preciso perceber se estamos todos em condições de trabalhar uns com os outros. Não nos demitimos das nossas funções de escolher uma administração do banco que represente o melhor possível os interesses dos associados, mas nada nos move contra ninguém.

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