Houve “gestão danosa” no Montepiopremium

Pedro Corte Real é o candidato da Lista B à Associação Mutualista com o objetivo de reconstruir o grupo. Diz que houve “gestão danosa” e admite pedir uma auditoria forense às contas da instituição.

Pedro Corte Real considera que a sua lista B é a única com credibilidade para tirar a Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG) da "situação dramática" em que se encontra, depois de anos de "gestão danosa" que provocaram prejuízos de centenas de milhões de euros para a instituição. Em entrevista ao ECO, admite mesmo pedir uma auditoria forense às contas do grupo para defender os interesses dos associados.

Também não descarta um pedido de ajuda ao Estado para reconstruir o Montepio. "Tudo nos leva a dizer que sim. (...) O formato dessa ajuda está completamente em aberto, se é capital, se é garantias", explica o professor universitário e ex-diretor do INE, que adianta que já alertou com as autoridades sobre o estado financeiro da mutualista, incluindo o Governo e o Presidente da República, mas sem grande feedback.

Qual o objetivo da sua candidatura?

Nos últimos três anos temos tentado contribuir do modo mais positivo para ajudar o Montepio. Foram três anos muito importantes para a mutualista porque apareceram os novos estatutos, houve um novo regulamento eleitoral, desapareceu um órgão importantíssimo que era o conselho geral que vai ser substituído – embora as funções não sejam exatamente as mesmas -- pela assembleia de representantes. Passados estes anos, temos trabalhado tanto em prol da instituição, temos avançado com tantas propostas, não faria sentido não apresentar agora uma proposta credível aos associados.

O mote da sua lista é “Reconstruir o Montepio”. Porquê?

O Montepio precisa definitivamente de ser reconstruído. Desde logo naquilo que são as suas motivações. De um momento para o outro, com a gestão de Tomás Correia, a instituição inverteu, mudou completamente os seus objetivos. Entrámos num projeto que, à luz do mutualismo, é completamente inexplicável, assumindo riscos que não são justificáveis em qualquer entidade que gere o risco e muito menos numa associação mutualista. Investiu-se em projetos internacionais onde logo à partida não se percebia qual ia ser o retorno para os acionistas e, infelizmente, o retorno foi o esperado e nós, os associados, não podemos ficar muito admirados quando o que é esperado ocorre.

Estes negócios traduziram-se em perdas acentuadíssimas para a instituição e, neste momento, o que nos apercebemos é que a instituição tem muito pouco capital para acudir às suas principais participadas que são o banco e o grupo segurador. Só o banco representa mais de 86% do balanço da instituição e só por aqui vemos a gestão que tivemos: foi uma gestão danosa da Associação Mutualista Montepio Geral.

Falou numa situação dramática, mas como se traduz em números?

Em termos de associados, de 2018 a 2020, perdemos 14.344 associados. Quando olhamos para os capitais próprios do grupo, não considerando os ativos por impostos diferidos (DTA), que é um ativo virtual, que não existe, passaram de 599 milhões negativos em 2018 para 794 milhões negativos em 2020. Mesmo considerando os DTA, durante este período, nós perdemos mais de 62% dos capitais próprios do grupo, ou seja, perdemos 165 milhões. Isto diz tudo do que foi esta gestão de três anos.

O que aconteceu?

Começaram a materializar-se todos estes riscos que eram expectáveis que tivessem um impacto muitíssimo negativo.

Do que estamos a falar?

É o Finibanco, a Real Seguros, uma aposta em Angola com custos elevadíssimos sem retorno nenhum, um conjunto de outras operações que envolveram créditos do banco. Um exemplo muito conhecido é um empréstimo de centenas de milhões para a aquisição de barcos sem a garantia de espécie nenhuma. O que aconteceu a esses barcos? Foi um negócio que nunca se veio a concretizar e depois não existiam as garantias.

Este é o resultado de vários negócios que causaram prejuízos de centenas de milhões de euros. Mais importante: estas notícias vêm a lume e causam um dano reputacional na instituição. As pessoas e as empresas o que fazem? Afastam-se da instituição. Ou seja, sem uma mudança na administração credível, idónea, no sentido de olharem para os currículos das pessoas e perceberam que as pessoas estão completamente descomprometidas com o passado da instituição, não será possível reverter esta situação.

O Montepio precisa definitivamente de ser reconstruído. Desde logo naquilo que são as suas motivações. De um momento para o outro, com a gestão de Tomás Correia, a instituição inverteu mudou completamente os seus objetivos. Entrámos num projeto que, à luz do mutualismo, é completamente inexplicável, assumindo riscos que não são justificáveis em qualquer entidade que gere o risco e muito menos numa associação mutualista.

Pedro Corte Real

Candidato da Lista B ao Montepio

Esta lista parte com a base daquela que era a lista de Ribeiro Mendes e Miguel Coelho, antigos administradores que trabalharam com Tomás Correia. Essa afirmação de descomprometimento não é arriscada?

Não é arriscada, porque Ribeiro Mendes não faz parte da lista. É um apoiante da lista, mas não faz parte. Mas isso também não importa em relação à resposta que vou dar. Quanto a Miguel Teixeira Coelho, fui eu que lhe dirigi o convite para integrar a lista como executivo no conselho de administração. É uma das pessoas que enfrentou Tomás Correia quando percebeu o potencial danoso das decisões que estavam a ser tomadas, juntamente com Ribeiro Mendes. Enfrentou Tomás Correia com custos para a sua vida profissional elevadíssimos. Se não tivesse dito nada, porventura teria integrado a candidatura de Tomás Correia nas últimas eleições e muito provavelmente estaria como presidente da Associação Mutualista e não Virgílio Lima.

Chegou a haver conversas com a atual lista C. O que falhou para não haver um entendimento, sabendo que nas anteriores eleições eram as duas listas de oposição a Tomás Correia e juntas tiveram um resultado superior a Tomás Correia?

O facto de haver quatro listas não é mau porque significaria – embora seja uma análise um bocadinho naïve – que existiam quatro opções, mas elas não existem verdadeiramente. Realmente houve uma tentativa de haver uma lista conjunta que, de algum modo, congregasse o que foi a antiga lista B e a lista C, as quais, em termos aritméticos, poderiam ter ganho as últimas eleições juntas. Mas, quando olhamos para os perfis das pessoas que integram a lista, percebemos porque não foi possível o consenso. A lista C tem uma lógica partidária, não nos parece que garanta a independência que é necessária na gestão da instituição.

Admite entendimentos com outras listas após as eleições?

Com as listas de Virgílio Lima e de Pedro Alves não será possível qualquer entendimento, estamos muito distantes naquilo que é o nosso entendimento e sobretudo na análise muito crítica que fazemos ao passado das duas pessoas nesta instituição, foram extremamente danosas com resultados que são visíveis. Relativamente à lista de Eugénio Rosa, diria que há mais coisas que nos juntam do que nos separam, embora aquilo que nos separa tivesse sido o suficiente para não haver uma lista única.

Disse na apresentação da sua lista que estas eleições seriam uma questão de vida ou de morta para a própria associação. Porquê?

Não posso chamar a atenção dos associados sem falar a verdade. E há aqui uma componente que não sou eu que digo, é o próprio auditor independente que em dois relatórios e contas faz uma reserva às contas e em termos simples diz que está em causa a continuidade da instituição. Não é a minha opinião pessoal, eu concordo com o auditor olhando para os números.

Os associados vão ter de assumir sacrifícios em face da situação dramática do Montepio?

Um dos objetivos da reconstrução é deixar claro às autoridades e entidades públicas que essa seria a última solução. Porque é que chegamos aqui? Chegamos aqui muito por ausência de regulação e de supervisão. Isso só é aceitável porque a entidade que o tinha de fazer não percebeu que muita coisa mudou na Associação Mutualista, que mudou a complexidade do negócio e também o conselho de administração mudou: sai um presidente do conselho de administração que trabalhava em prol dos associados e do país [Costa Leal] para entrar uma pessoa que trabalhou em prol de algo que ainda não consigo perceber e que basta olhar para a imprensa dos últimos anos para ver a quantidade de negócios ruinosos que foram feitos. Aí seremos intransigentes e chamaremos a atenção de algumas observações que foram feitas pelo nosso primeiro-ministro e pelo anterior ministro das Finanças, dizendo que a situação do Montepio está acautelada. Seremos intransigentes na defesa dos associados.

Sente que há algum alheamento dos associados, apesar de todos estes alertas sobre a situação do grupo?

É difícil de explicar, mas acho que os associados têm de quebrar esse afastamento e esse alheamento em relação à instituição. É uma instituição bicentenária, de cariz de segurança social, ainda que de cariz privado, ajuda mais de 6% da população portuguesa. Neste momento, sem credibilidade, não conseguimos sentar à mesa com todos os parceiros e negociar uma solução para a Associação Mutualista.

Pedro Corte Real, candidato à presidência da Associação Mutualista Montepio Geral, em entrevista ao ECO - 23NOV21
Pedro Corte Real, candidato à presidência da Associação Mutualista Montepio Geral, em entrevista ao ECO.Hugo Amaral/ECO

Entre os parceiros estará o Governo?

É também uma parte importante. Quem tem a tutela da Associação Mutualista desde sempre? É o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Já teve vários ministros, de várias cores políticas, portanto, isso tem sido transversal. Mas o ministério não tem competências nem apetite para fazer regulação de uma instituição que é hoje tem uma complexidade de um banco ou de uma seguradora. O que aconteceu foi que o ministério acreditou até hoje que as administrações estavam a gerir com competência, idoneidade e no interesse quer da Associação Mutualista, quer dos associados, trabalhadores e do país.

Vai ser preciso recorrer a alguma ajuda do Estado para reconstruir o Montepio?

Tudo nos leva a dizer que sim. Só iremos pedir uma ajuda se entendermos que é absolutamente necessário. O formato dessa ajuda está completamente em aberto, se é capital, se é garantias. O que temos de fazer primeiro é compreender integralmente o que os auditores querem dizer quando dizem que estes ativos virtuais que são os ativos por impostos diferidos estão sobreavaliados. O que é que isso quer dizer? Em quanto é que estão sobreavaliados, em 10% ou 90%?

O auditor também diz que a participação do banco registada no balanço da Associação Mutualista também está sobreavaliada.

Exatamente. Em quanto? Depois precisamos de saber quais os riscos que eles identificam e que têm de ser resolvidos. Só nessa situação, quando tivermos uma ideia completa do que é a verdadeira situação da instituição, é que podemos avaliar o pedido de ajuda.

Admite pedir alguma auditoria especial?

Se for necessário, sim. Vamos supor que o auditor identifica um conjunto de situações que merecem uma opinião diferente, uma opinião forense, por exemplo, é papel de uma administração pedir uma auditoria para defender os interesses dos associados, os interesses dos trabalhadores e ao mesmo tempo defender os interesses do país.

Com isto não quer dizer que fiquemos de braços cruzados e não façamos nada sem antes termos esta ideia geral. Só o simples facto de entrar uma administração que é credível e competente vai permitir passar uma mensagem completamente diferente aos associados e aos portugueses sobre o que é o Montepio Geral e, com isso, captar novos associados.

Já tiveram a oportunidade de alertar o Governo e os reguladores sobre a situação do Montepio?

Ao longo do tempo nós emitimos vários alertas com as entidades que consideram que são as entidades pertinentes para resolver a situação.

Que resposta receberam?

Não recebemos nenhum feedback. O único feedback que tivemos foi em observações em que intervieram o primeiro-ministro, António Costa, e o então ministro das Finanças, Mário Centeno, que se fizeram referências ao Montepio, dizendo que o poder político estava atento a esta situação e não deixariam que o Montepio passasse por dificuldades maiores do que aquelas que estamos a passar. Qual é a minha leitura em relação ao facto de não ter acontecido nada e ao longo destes três anos esta administração ter constantemente feito promessas que depois não veio cumprir? O Ministério das Finanças, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social percebem que do outro lado não está uma parte credível, portanto, são uma parte do problema e não vão ser uma parte da solução. Ou seja, enquanto não entrar uma administração credível, parece-me que este diálogo está fechado.

Vamos supor que o auditor identifica um conjunto de situações que merecem uma opinião diferente, uma opinião forense, por exemplo, é papel de uma administração pedir uma auditoria para defender os interesses dos associados, os interesses dos trabalhadores e ao mesmo tempo defender os interesses do país.

Pedro Corte Real

Candidato da Lista B ao Montepio

Do ponto de vista da oferta de produtos mutualistas, que propostas tem em cima da mesa?

Temos de perceber exatamente quais são as preocupações dos associados. Nunca vi nenhum inquérito aos associados para perceber quais são as suas principais preocupações. A atual oferta ficou cristalizada no tempo. Por exemplo, um associado que queira garantir que o seu filho venha estudar para o Porto, Lisboa, Coimbra, uma das suas preocupações será as residências de estudantes. Também temos um problema em tudo o que tem a ver com o apoio à terceira idade e tudo que tenha a ver com os cuidados continuados: a nossa oferta tem custos bastante elevados para os associados, a esmagadora maioria dos nossos mutualistas não têm condições de acesso. Temos de arranjar um processo de aforro de longo prazo para permitir que as pessoas que estejam nesse momento da vida tenham a garantia de que vão fazer esse pagamento.

Outra situação que é bastante importante: muitos dos nossos associados têm como grande ativo a casa e não têm como gerir aquele ativo. Têm um ativo líquido de elevado valor, mas não conseguem capitalizar aquele ativo. A Associação Mutualista tem de ter uma solução para essas pessoas e há uma quantidade de produtos que podem ser comercializados.

Outras listas têm defendido uma redução dos salários e benesses do conselho de administração. Também concorda?

Estaremos completamente disponíveis para enviar uma mensagem claríssima aos associados: vamos moralizar a gestão da Associação.

Está disponível para baixar o seu salário e dos administradores se vencer as eleições?

Sim. Não vou exigir nada aos trabalhadores que não imporei ao conselho de administração. Há aqui uma questão de moralização. Estamos numa associação mutualista e temos de respeitar isso. Por outro lado, se queremos um banco bem gerido temos de ir ao mercado buscar os melhores, não podemos pagar valores muito abaixo do mercado, senão não teremos condições de competir. Em relação à mutualista, a realidade é diferente e parece que há espaço para moralizar. Se chegarmos lá, entendemos que os salários, quer dos órgãos da Associação Mutualista, mas também de algumas das suas participadas, sendo situações que não se justificam, isso será corrigido de imediato.

Se vencer as eleições, qual a primeira medida que vai tomar?

A primeira medida será enviar a todos os associados uma mensagem de conforto, explicando quais vão ser os próximos passos e como vamos defender os seus interesses. Não será nada demagógico, nem de começar a entregar valores que nós não temos, nem melhorias de benefícios. É explicar aos associados com transparência total os próximos passos e com uma calendarização para os próximos três meses.

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