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Produção agrícola da Sovena “tem desperdício zero”

João Basto, diretor de sustentabilidade da Sovena, revelou os objetivos sustentáveis que a empresa quer cumprir até 2023, bem como as medidas para reaproveitar todas as “sobras” agrícolas.

Desde o olival ao lagar, até ao embalamento e distribuição, o grupo Sovena trata de todos os processos associados à cadeia de valor do azeite. Por essa razão, as práticas sustentáveis estão no topo das prioridades da empresa que, atualmente, garante que já tem uma produção agrícola com zero desperdício.

Em entrevista ao ECO/Capital Verde, João Basto, diretor de sustentabilidade da Sovena, revelou algumas das metas da nova estratégia de sustentabilidade da empresa, a cumprir até 2023, e ainda explicou como a intensificação da agricultura favorece práticas mais amigas do ambiente.

O responsável garante que reduzir o plástico virgem nas embalagens das marcas da Sovena é uma das principais preocupações da empresa, no entanto, ressalvou que o acesso ao plástico reciclado pode ficar condicionado pela crescente procura deste material.

A Sovena está, agora, a finalizar o seu relatório de sustentabilidade, que irá refletir alguns dos objetivos já fechados para 2025, como 28% do plástico utilizado ser plástico reciclado.

No que diz respeito às embalagens, quais são as principais mudanças sustentáveis que têm vindo a fazer neste âmbito?

Um dos objetivos para alcançar a sustentabilidade é, justamente, a meta de redução até 2025 de 31% no consumo de plástico virgem, do qual 28% pela incorporação de plástico reciclado. Este é um processo que iniciámos em 2021, com a incorporação de 20% nos produtos Fula e de 20% nos produtos Oliveira da Serra. Ao mesmo tempo, arrancámos com negociações com os nossos clientes para uma inclusão crescente nas garrafas das suas marcas. Mas há mais mudanças que queremos implementar, entre as quais aumentar a reciclabilidade das nossas garrafas de plástico, através da redução da quantidade de pigmento que temos vindo a concretizar.

Já reduzimos até 40% e 50% do pigmento nas nossas marcas Fula e Oliveira da Serra, respetivamente, e ambicionamos até 2025 fazê-lo em todas as garrafas verdes e amarelas produzidas na Sovena. Em relação ao papel, comprometemo-nos a aumentar o cartão proveniente de sistemas florestais geridos de forma sustentável – nomeadamente através da certificação FSC. Dos 35% utilizados atualmente, queremos passar para 55% em 2023. Em paralelo, temos apostado numa procura permanente por novos materiais de embalagem, com menor pegada de carbono, e que, ao mesmo tempo, sejam compatíveis com a preservação de óleos alimentares.

Ambicionam que todas as embalagens de plástico da Sovena sejam feitas com PET 100% reciclado? Quanto tempo ainda vai demorar para para cumprirem esse requisito?

O nosso objetivo passa por incorporar até 2025 mais de 3000 toneladas de PET reciclado nas nossas embalagens, o que equivale, concretamente, a 50% do peso nas nossas marcas e a uma média de 30% nas marcas dos nossos clientes – uma meta que definimos em função do que nos pareceu ser a nossa capacidade de acesso a esta matéria-prima. Estamos empenhados e comprometidos com a possibilidade de aumentar o nível de incorporação, mas cientes de que este será um processo gradual, uma vez que o PET reciclado poderá não ser suficiente para a procura crescente no mercado.

Atualmente têm sete mil hectares de olival intensivo. Pensam aumentar para mais hectares?

Para já, a nossa prioridade é garantir a gestão eficiente e sustentável das nossas plantações atuais. No entanto, estamos sempre atentos a novas oportunidades.

Se, por um lado, há quem defenda que o olival intensivo é mais sustentável, por outro lado também há quem afirme que este tipo de produção esgota os recursos hídricos e é mais poluente. Quais as preocupações de sustentabilidade no olival?

Em primeiro lugar, a intensificação da agricultura surgiu como uma medida necessária para permitir a alimentação de uma população crescente, e esta tendência aplicou-se à produção de todos os alimentos que desfrutamos no nosso dia a dia. O desafio tem tendência a aumentar, pela pressão de alimentar uma população cada vez maior, com maior poder de compra, num cenário de menor terra arável e em que necessitamos de contribuir para a redução da emissão de gases de efeito de estufa. A inovação já nos permite garantir que apenas damos às plantas exatamente o que precisam, na altura em que precisam, e com uma mobilização mínima dos solos, apenas quando e onde essa mobilização é necessária.

Em segundo lugar, a nossa dimensão obriga-nos a um controlo rigoroso de todos os recursos. Medir é fundamental e em todas as herdades é feito um controlo apertado de todos os fatores de produção. Sabemos quando, como e onde aplicamos cada recurso. Quero com isto dizer que a intensificação da agricultura não obriga, por isso, a um uso maior de água, solo, ou fatores de produção. De facto, é justamente ao contrário. Por unidade de produto, a agricultura moderna usa menos solo, menos água e menos fitofármacos, o que significa que a intensificação da agricultura, aliada à inovação, trarão maior sustentabilidade para as nossas culturas.

No site da Sovena pode ler-se: “Seguimos o exemplo da Natureza: nada se perde nas nossas produções. Transformamos as sobras em novos recursos”. Como garantem que nada se perca na produção? E que novos recursos surgem das sobras?

De facto, a nossa produção agrícola tem desperdício zero. Tanto as lenhas da poda, como os ramos e folhas rejeitados nos lagares são enterrados nas nossas herdades, permitindo a sua reincorporação e consequente aumento da matéria orgânica no solo. Em paralelo, temos uma procura contínua por novas formas de valorização dos nossos sub-produtos, seja na extração de componentes de elevado valor nutricional e farmacêutico, seja na utilização do bagaço da azeitona na produção de fertilizantes orgânicos.

E esta abordagem é extensiva a todas as nossas áreas de negócio, nomeadamente na componente industrial, onde ao longo dos anos temos reduzido drasticamente os resíduos, pela capacidade da sua reciclagem nos nossos processos produtivos como, por exemplo, na utilização da casca de girassol como biomassa, e do azeite lampante como lubrificante em substituição de lubrificantes sintéticos, mas também na conversão e reencaminhamento de 95% dos sub-produtos gerados na produção de óleos alimentares para a alimentação animal.

Quais são as metas da estratégia de sustentabilidade da Sovena até 2023?

Nos últimos meses definimos um plano de ação que nos permitirá implementar uma estratégia ambiciosa, que visa garantir a sustentabilidade do nosso negócio a médio e longo prazo, com um impacto positivo para os ecossistemas e para as comunidades com que nos relacionamos. Contamos divulgar mais detalhe ainda durante o mês de agosto.

Para já, de entre os nossos compromissos – para além da incorporação de 50% de PET reciclado em todas as embalagens das marcas Sovena já mencionadas – destacaria alguns pontos, como o desenvolvimento de um Plano de Gestão da Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas das nossas herdades, a redução de 30% das emissões de gases de efeito de estufa, a utilização de 100% de eletricidade proveniente de fontes renováveis nas nossas fábricas e o objetivo de alcançar uma certificação EFR (Empresas Familiarmente Responsáveis) em Portugal, tornando o país a primeira geografia do grupo a implementar um conjunto importante de medidas que promovem a conciliação entre a vida pessoal e a vida profissional.

Mesmo com o limite até 2023, há objetivos dentro desta estratégia de sustentabilidade que vão conseguir cumprir antes dessa data?

De entre os compromissos anteriores, acreditamos vir a concluir a nossa certificação EFR ainda em 2022, assim como os níveis de incorporação de PET reciclado nas nossas marcas.

Ser uma empresa sustentável é uma forma de assegurar o futuro?

Sustentabilidade significa relevância. E só conseguimos ser relevantes se a nossa atividade criar valor para as comunidades e se soubermos comunicá-lo de forma simples e transparente. No nosso entendimento, comunidades englobam as pessoas que vivem nas zonas rurais onde desenvolvemos a nossa atividade agrícola, as pessoas que vivem em torno das nossas fábricas, os nossos clientes e consumidores e, obviamente, as famílias de todos os nossos colaboradores. Só indo ao encontro das suas preocupações, num esforço genuíno de melhorar o seu bem-estar e a sua autonomia, assim como a resiliência dos ecossistemas onde habitam e do planeta em geral, é que conseguiremos que os nossos produtos sejam escolhidos pelos consumidores.

  • Capital Verde

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