“Recessão é um cenário que não pode, nem deve, ser excluído”, afirma Vítor Bento

O presidente do júri dos Investor Relations and Governance Awards, Vítor Bento, considera que a reaproximação das fontes de produção e abastecimento é uma oportunidade para Portugal.

“A incerteza é o que de mais certo o futuro nos traz”, começa por afirmar Vítor Bento, presidente do júri dos Investor Relations and Governance Awards (IRGAwards). No futuro próximo, uma recessão na Europa é um cenário que “não pode, nem deve, ser excluído”.

Nesta entrevista, por email, realizada no âmbito da 34.ª edição dos prémios organizados pela Deloitte, de que o ECO é parceiro, o presidente da Associação Portuguesa de Bancos vê também oportunidades no atual contexto. “A necessidade de reaproximar as fontes de produção e abastecimento dos locais de consumo nas economias mais desenvolvidas aparenta ser para Portugal mais uma oportunidade do que uma ameaça”, sustenta.

A governance das empresas portuguesas tem vindo a melhorar, mas “tem ainda muito caminho a percorrer e barreiras culturais a derrubar”. No Estado, as maiorias absolutas são uma tentação de tirar do caminho o que pareçam entraves à vontade dessas maiorias, enfraquecendo os contrapesos essenciais de uma boa governance“. Mas Vítor Bento acredita também que “proporcionam aos seus líderes a oportunidade de deixar um legado histórico duradouro” positivo.

Primeiro a pandemia e agora também a guerra e uma inflação historicamente elevada. A incerteza tornou-se uma constante nos negócios. Que características têm de ter as lideranças para se adaptarem a este novo contexto?

A incerteza é o que de mais certo o futuro nos traz. Para lidar com ela, as lideranças têm que construir organizações resilientes e criar margem de manobra (i.e. autonomia) estratégica.

Considera que a Europa será capaz de escapar a uma recessão?

As previsões das instâncias internacionais ainda não apontam para isso. Mas é um cenário que não pode, nem deve, ser excluído, sobretudo depois de os EUA terem dado sinais de ter entrado em recessão.

As sanções impostas pelo Ocidente à Rússia na sequência da invasão da Ucrânia criaram dificuldades operacionais às empresas para manter atividades no país. Mas muitas também saíram por uma questão de responsabilidade social e de reputação junto dos clientes. As empresas já não podem ser indiferentes aos temas políticos e são obrigadas a posicionarem-se sobre eles?

As empresas têm que lidar com riscos diversos que afetam as condições dos seus desempenhos, gerindo-os no sentido de prevenir danos. Os riscos reputacionais, que incluem a perceção que a sociedade ou setores relevantes da sociedade formam sobre si, fazem parte dessa panóplia de riscos.

Uma reação idêntica pode acontecer no futuro em relação a negócios com países onde existam violações reiteradas dos direitos humanos ou negligência em relação ao ambiente?

A resposta anterior cobre, na sua generalidade, esta possibilidade. A componente cívica das sociedades desenvolve valores que considera moralmente relevantes e procura fazer valer esses valores, incluindo através da pressão sobre os agentes económicos para garantir a sua aderência. A não compliance com os desígnios que daí decorrem geram riscos reputacionais, que as lideranças têm que saber gerir.

A guerra na Ucrânia criou uma enorme insegurança no aprovisionamento de matérias-primas energéticas e bens alimentares, colocando na agenda a necessidade de uma maior resiliência nas cadeias de abastecimento. Na sua carta deste ano aos acionistas, o CEO da Blackrock, Larry Fink, afirma que o conflito “pôs fim à globalização que vivemos nas últimas três décadas”. Concorda com esta visão? Está em curso uma restruturação do comércio global?

Esse fenómeno já havia sido iniciado com a pandemia da SARSCOV2. A guerra agravou-o. Assim como as sanções — algumas em particular — vão obrigar muitos atores estatais e empresarias a reponderar os termos das respetivas autonomias estratégicas no novo quadro que se assim se perspetiva.

O que o país tem que fazer é criar condições para que a retenção do talento possa ser feita no país. (…) O que é necessário é fixar aqui os “headquarters” decisórios.

Este novo contexto é uma ameaça ou uma oportunidade para as empresas portuguesas? Como é que elas se devem posicionar?

Todas as crises acarretam ameaças e oportunidades. Neste caso particular da desestabilização das cadeias de valor e da necessidade de reaproximar as fontes de produção e abastecimento dos locais de consumo nas economias mais desenvolvidas, aparenta ser para Portugal mais uma oportunidade do que uma ameaça, na medida em que destaca muitas vantagens da sua economia: custos baixos, capacidade de inovação, segurança, posicionamento periférico face à origem das principais ameaças geopolíticas, etc.

Já a concorrência por talento é cada vez mais global. A retenção e captação de talento tornou-se um dos principais desafios que os gestores enfrentam. É um problema ainda maior para um país com salários comparativamente mais baixos e elevada carga fiscal sobre o trabalho? Que políticas públicas e de gestão empresarial podem contribuir para mitigar este problema?

A captação e retenção de talento sempre foi um dos principais drivers competitivos entre as empresas. A aceleração do progresso tecnológico, por um lado, e a emergência dos riscos geopolíticos de que já se falou, tornaram mais aguda a concorrência por talento atualizado. Portugal tem a “vantagem” de ter uma base laboral mais barata, o que torna particularmente atrativo para outras economias a captação do talento português. E isso é bom para os jovens formados pelas nossas boas universidades, mas leva-os à emigração. O que o país tem que fazer é criar condições para que a retenção do talento possa ser feita no país. O que, de certa forma, tem vindo a acontecer, com muitas empresas multinacionais a estabelecer aqui centros de excelência. O que é necessário é fixar aqui os headquarters decisórios. Mas a resposta para isso não caberia neste espaço.

A “governance” das empresas tem vindo a melhorar (…), mas tem muito caminho a percorrer e barreiras culturais a derrubar.

“Shaping human lives through sustainability and technology” é o tema da edição deste ano dos Investor Relations Awards. A transformação e a sustentabilidade continuarão a ser decisivas para enfrentar esta nova ordem?

Sem dúvida. Até pela natureza das coisas. Com o crescimento exponencial da população mundial, a própria sustentação da vida humana depende cada vez mais das condições de sustentabilidade do ambiente que acomoda essa vida. E a tecnologia é, e será, um instrumento essencial para assegurar que a equação do equilíbrio necessário tem solução “não destrutiva”.

É presidente do júri dos IRGAwards há vários anos. Como avalia a evolução do governance das empresas portuguesas? O que falta melhorar?

Tem vindo a melhorar. Em parte, por exigência da regulação externa e em parte por uma maior consciência empresarial da sua importância fundamental. Mas ainda tem muito caminho a percorrer e barreiras culturais a derrubar.

Tem dito que o Estado tem uma governance muito frágil, que condiciona o desempenho da economia. As maiorias absolutas podem enfraquecer ainda mais a governance do Estado ou são uma oportunidade para a melhorar?

As maiorias absolutas são uma tentação de tirar do caminho o que pareçam entraves à vontade dessas maiorias, enfraquecendo os contrapesos essenciais de uma boa governance. Por outro lado, proporcionam aos seus líderes a oportunidade de deixar um legado histórico duradouro de terem criado as condições para que, duradouramente e através de gerações, o País tire o melhor proveito dos recursos que tem e assegure a melhor justiça distributiva (não apenas redistributiva!) do valor económico e social que esses recursos possam gerar. Eu procuro olhar sempre para lado positivo das oportunidades.

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