Miguel Stilwell, presidente da EDP: “Somos uma empresa orgulhosamente portuguesa”premium

Miguel Stilwell rejeita a ideia de desinvestimento em Portugal. E garante que a EDP cumpriu a lei na venda das barragens. Em entrevista, o presidente da EDP detalha o plano estratégico da companhia.

Miguel Stilwell apresentou um novo plano estratégico da EDP para o período 2021-2025 com um plano de investimento de 24 mil milhões de euros, particularmente nos mercados americano e europeu. O recém-eleito presidente da EDP garante, ainda assim, que lidera "uma empresa orgulhosamente portuguesa, de matriz portuguesa". Rejeita a ideia de rendas de energia e garante que a EDP cumpriu a lei na venda das barragens do Douro à Engie. Em entrevista conjunta ao ECO e à TVI, o gestor detalha o plano estratégico da empresa e deixa elogios a António Mexia.

Apresentou um plano de investimentos de 24 mil milhões de euros até 2025, um valor superior até à própria bazuca europeia. Seis mil milhões vão ser investidos em Portugal e a grande aposta é a energia verde, isso vai traduzir-se no preço da energia junto dos consumidores? O preço da eletricidade vai baixar?

Eu acho, claramente, que as tecnologias renováveis são cada vez mais competitivas e têm um preço cada vez mais baixo. Isso, depois, ajuda a baixar o preço da energia nos mercados grossistas, seja na Península Ibérica ou noutras geografias. Portanto, são tecnologias que têm ajudado e vão ajudar a trazer o custo da energia cada vez mais para baixo.

Vamos aos detalhes deste plano estratégico. Quais são as prioridades?

As prioridades são, por um lado, o investimento em energias renováveis, como já foi dito. Estamos a investir 80% em energia eólica ou solar, repartido entre a Europa e os Estados Unidos. Temos também uma parte do investimento que vai para a América Latina. Dentro disto, depois é repartido equitativamente entre energia solar e energia eólica 'onshore'.

O solar ganha aqui uma nova relevância. Vai ter o peso que tem, nomeadamente, o vento?

Vai, porque, aliás, o que estamos a prever é que, no âmbito deste plano de negócios, seja mais ou menos repartido 50/50 entre vento e sol. O solar tem-se tornado cada vez mais competitivo, como temos visto aqui nos leilões, em Portugal, mas também em Espanha, em que o preço tem vindo a baixar. E, portanto, é uma tecnologia cada vez mais competitiva. Entre energia solar e eólica, o plano anda muito focado nas duas.

Uma das apostas do Plano de Recuperação e Resiliência é no hidrogénio e também consta no plano estratégico da EDP. O hidrogénio ainda é caro a produzir, isso quer dizer que estamos perante a antecipação de possíveis rendas de hidrogénio?

Acho que o hidrogénio ainda está numa fase embrionária e, portanto, vai-se desenvolver ao longo da próxima década. É claro que vamos continuar a investir no hidrogénio à escala global, montámos uma unidade de negócio que possa investir não só na Europa, mas também nos Estados Unidos. Agora, do ponto de vista do plano de negócios, há um investimento ainda razoavelmente reduzido para o hidrogénio neste âmbito porque, obviamente, ainda é uma tecnologia muito embrionária...

...São 40 milhões de euros. Isso revela o quê? Que a introdução do hidrogénio ainda vai demorar tempo? E o que é que isso nos diz dos projetos que estão, hoje, em Portugal, nomeadamente a central H2 de Sines?

Acho que todos os projetos ainda são razoavelmente embrionários e vão desenvolver-se ao longo da próxima década. Grande parte do investimento vai concentrar-se na segunda metade da década, a partir de 2025. Nesta primeira fase vão ser projetos-piloto, de pequena escala, seja em Portugal, seja noutras geografias.

Mas estaremos a discutir, dentro de 5, 6 anos, as rendas de hidrogénio?

Sinceramente, acho que não, espero que não e julgo que, para isso, é preciso definir regras claras e transparentes para que possam existir leilões ou outra forma qualquer, competitiva, de produzir o hidrogénio. Obviamente, isso depois terá o custo que tiver.

Mas já há condições para o hidrogénio ser um negócio sem uma subsidiação do Estado e dos contribuintes?

Não, acho que, como todas as tecnologias embrionárias, o hidrogénio ainda precisa de fazer a sua maturação, precisa ainda de reduzir custos. Para isso também se conta com os fundos da União Europeia ou, no caso dos Estados Unidos, também há apoio federal. E, portanto, o hidrogénio, tal como as outras tecnologias, está nesta fase embrionária, vai-se desenvolver e, pronto, o que o Estado reduzir, como tem reduzido para as outras tecnologias também. Agora, nesta fase inicial, obviamente que requer algum apoio, seja em Portugal, seja noutras geografias.

Mas então qual pode ser a diferença face às renováveis? Se precisa de subsidiação, o que é que nos garante que não vai haver uma subsidiação e as rendas do hidrogénio? E que não voltaremos a repetir um modelo de rendas na energia?

Eu acho que ninguém quer rendas e, portanto, acho bem que se montem leilões claros e transparentes.

É esse o ponto crítico, leilões claros para esse negócio?

Para mim, é. E que seja claro de onde é que vem o financiamento e, portanto, que não haja, efetivamente, nem a criação de nenhuma renda nem nenhuma subsidiação, ou então apenas a subsidiação na medida do necessário para promover as tecnologias novas porque acho, também que não há nenhuma tecnologia que se desenvolva sem algum apoio inicial, mas desde que as regras sejam claras e transparentes, eu acho que há aqui condições. Porque isto é verdade em Portugal, como é verdade em todas as outras geografias.

Como é que vai ser financiado este mega plano de investimentos?

Há um compromisso claro em manter um balanço sólido e, portanto, reiteramos o nosso compromisso com o [rating] de 'B,B,B' que, no fundo, é o rating que ambicionamos. Portanto, desse ponto de vista, vamos levantar dívida, mas assegurando sempre esse balanço sólido. Depois, vamos continuar a vender alguns ativos dentro de uma política de rotação de ativos, ou seja, construímos um portefólio de energias renováveis e vendemos uma parte a terceiros. Isso também assegura encaixe que depois podemos reinvestir dentro do negócio e, depois, de facto o aumento de capital que é fundamental.

Com o aumento de capital da EDP Renováveis, em 1,5 mil milhões de euros, aumenta o free float da companhia. A EDP reduz a posição acionista...

...Com cerca de 75%, portanto, isto é uma coisa que aumenta o free float, aumenta a liquidez da própria EDP Renováveis, portanto, achamos que é positivo.

Mas como é que passamos de um objetivo em que a EDP tentou comprar 100% da EDP Renováveis para uma segunda perspetiva, em que, afinal, já até pode diminuir a sua exposição às renováveis?

Primeiro, tentamos comprar em 2017 e o preço, na altura, estava a cerca de 7 euros, se não me engano. O preço agora está a 18, portanto, claramente, isto é um bom veículo de financiamento, por um lado, por outro lado, temos um plano de investimento muito ambicioso e, portanto, também precisamos de levantar fundos para assegurar que o conseguimos financiar. E, portanto, faz sentido neste enquadramento. Há muito apetite, por parte dos investidores, para este tipo de ativo e, portanto, a escolha, claramente, é pelas renováveis.

O plano da EDP revela um aumento nominal da dívida, uma inversão face ao que se passou nos últimos anos. Tendo em conta até o quadro de alguma incerteza financeira, não comporta aqui algum risco do ponto de vista do que é a solidez e os rácios desse balanço?

Os rácios vão continuar a baixar e, portanto, do ponto de vista do nível de endividamento, o que interessa não é tanto o valor absoluto, é a sua capacidade de o pagar. Portanto, à medida que a empresa vai crescendo, obviamente que consegue suportar um aumento ligeiro de dívida, mas, do ponto de vista de rácio, que é o que interessa, isso vai continuar a baixar e, portanto, mantém-se esse compromisso de desalavancagem.

Com os resultados a aumentarem, foram mais de 800 milhões em 2020, vai mudar a política de dividendos? Isto é, a política de dividendos vai acompanhar o crescimento dos resultados ou vai manter-se no nível que tem agora, neste momento?

O que temos dito é que temos um chão, em termos de dividendos, portanto, os 0,19 cêntimos, e, depois, estamos disponíveis, enfim, daqui a alguns anos, em função, também, do crescimento dos resultados, de, eventualmente, rever o nível dos dividendos. Mas, pelo menos, o que está previsto no curto/médio prazo é manter o nível dos dividendos que já temos.

Miguel Stilwell d'Andrade, CEO da EDP, em entrevista ao ECO/TVI24 - 02MAR21
Hugo Amaral/ECO

Sente-se confortável com o acionista da China Three Gorges? Lançaram uma OPA no ano passado, entretanto, também têm vendido parcelas da EDP, são concorrentes da EDP em Espanha e no Brasil, sente-se confortável com estes acionistas?

Perfeitamente. A estratégia tem sido já, não só um acionista, mas também um parceiro. Temos mesmo um acordo de parceria com eles e, portanto, os investimentos que eles fazem, nomeadamente nas geografias ondesomos líderes, onde temos uma presença forte, são coordenados connosco e dessa forma conseguimos assegurar que temos aqui alguma coordenação e evitamos concorrência desnecessária. Portanto, há sempre essa coordenação prévia.

Não é uma limitação? Isto é, os recentes investimentos, por exemplo, em Espanha, mas também no Brasil onde, talvez, seja até mais evidente, não são eles próprios uma limitação ao crescimento da EDP?

Não.

Este plano estratégico não foi limitado pelos objetivos da CTG de crescer internacionalmente?

De forma alguma. Pelo contrário. Nós até temos um histórico, em que a CTG co-investe connosco, seja em projetos eólicos, por exemplo, em Portugal, seja em hídricas, no Brasil. E temos feito, também, outros projetos com a CTG, portanto, eles, de facto, são um parceiro e todas os projetos que têm vindo a adquirir ou as aquisições que têm feito têm sido ativos operacionais que, tipicamente, não é o tipo de ativo que nós procuramos. Portanto, de forma alguma temos sido condicionados por isso.

O Brasil continua a ser uma prioridade para a EDP?

É. Temos lá uma empresa cotada, temos mais de 50% dessa empresa, continua a ter boas oportunidades de investimento no Brasil. Obviamente nós também o que anunciamos foi uma reestruturação, de certa forma, do Brasil, em que vamos estar a vender alguns ativos, mas a reinvestir noutros. Portanto, estamos a vender alguns ativos hídricos, no Brasil, e a reinvestir na área das redes, portanto, da distribuição, da transmissão e, depois, também, na parte solar.

Fala, também, na venda de ativos na Península Ibérica. Que ativos são esses?

Por acaso não falei. Falei mais do Brasil, em termos de vendas. Nós, o que temos feito, de facto, de forma consistente porque faz parte do nosso modelo de negócio, é vender alguns portefólios de eólicas ou de solar, portanto, projetos renováveis. Isso é uma coisa que temos vindo a fazer ao longo dos últimos anos e, obviamente, é para continuar também.

A EDP é uma empresa verdadeiramente global, mas também podemos dizer que, com este plano, é menos portuguesa?

Não, de todo. Acho que somos uma empresa orgulhosamente portuguesa, de matriz portuguesa, e que tem vindo a crescer de forma internacional. Portanto, estamos presentes em cada vez mais geografias. Temos cerca de 20 geografias diferentes, desde alguns mercados altamente competitivos, como os Estados Unidos, portanto, eu, pelo menos, sinto orgulho de que a EDP consiga, de facto, vencer lá fora e seja competitiva, também, lá fora.

Mas qual é o peso que Portugal tem no negócio da EDP?

É cerca de 30% a 40% do peso...

...nos resultados de 2020?

Nos resultados operacionais, do ponto de vista de ativos, se quiserem. Do ponto de vista de resultado líquido, de facto, Portugal não tem tido uma boa performance, nós tivemos prejuízo em 2018, prejuízo em 2019 e, no ano passado, tivemos 90 milhões de euros de lucro, que representa, mais ou menos, 11% do total dos nossos resultados. Portanto, desse ponto de vista, é cada vez menos.

E vai ser cada vez menos, ou não?

Bom, já veremos, também, as condições de mercado em Portugal. Mas a verdade é que nós vamos continuar a investir fora de Portugal porque, obviamente, a ambição de uma empresa é de se globalizar, é de se tornar, cada vez mais, internacional para poder crescer. E, obviamente, Portugal tem a dimensão que tem, nós gostamos muito de ser uma empresa portuguesa, mas também queremos investir fora de Portugal.

Insisto, a presença em Portugal é mais emocional, e de marca, do que propriamente uma relação de negócio?

De todo. Nós somos o maior investidor em Portugal, vamos investir ao longo deste período mais de 6 mil milhões de euros entre investimento direto e tudo aquilo que nós pagamos em termos de salários, de impostos, etc. Portanto, mais de 6 mil milhões é um número impressionante e isso é um investimento direto em Portugal. E temos intenções de manter, obviamente, esse investimento. Temos redes, temos a rede de distribuição, temos toda a parte comercial, temos mais de quatro milhões de clientes que servimos em Portugal, temos, ainda, um conjunto de barragens e centrais que produzem energia em Portugal, portanto, tudo isso também faz parte do nosso legado e faz parte da nossa história e faz parte do core da EDP.

A venda das três barragens no Douro foi criticada pelo BE pelo PSD... Estamos perante uma borla fiscal à EDP?

De todo. Não beneficiamos de todo de nenhuma alteração fiscal ou legislativa ou de outra coisa qualquer. Aquela estrutura é perfeitamente standard e é a única forma de fazer uma transação daquele género. Nós estamos a falar de mais de mil contratos, várias dezenas de colaboradores, os ativos, os passivos, os contratos com as pessoas de serviço, os contratos com fornecedores, garantias bancárias, portanto, estamos a falar de uma complexidade...

Mas isso é que justifica o embrulho jurídico de reestruturação? Isto é, é preciso uma reestruturação para vender barragens?

Ela existe, precisamente, para fazer uma cisão de todos os ativos e passivos e para poder colocá-los num veículo que se consegue vender, então, a quem vai comprar, neste caso, a Engie. Aquilo não são, simplesmente, barragens que se gerem por elas próprias, vem associado todo um conjunto de pessoas, de sistemas, dos tais contratos de prestação de serviço, portanto, aquilo é todo um ecossistema de contratos e a única forma de garantir a continuidade das operações é, de facto, utilizando aquela figura, que é a correta. Tecnicamente, é a forma de fazer aquilo para se conseguir fazer aquela transação.

Portugal perde, sucessivamente, peso no que é o negócio e a estratégia da EDP? Não, de todo. Acho que nós somos uma empresa orgulhosamente portuguesa, de matriz portuguesa, e que temos vindo a crescer de forma internacional e, portanto, estamos presentes em cada vez mais geografias. Temos cerca de 20 geografias diferentes, desde alguns mercados altamente competitivos, como os Estados Unidos, portanto, eu, pelo menos, sinto orgulho de que a EDP consiga, de facto, vencer lá fora e seja competitiva, também, lá fora.

O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais disse que a Autoridade Tributária iria averiguar se todas as regras foram cumpridas e se houve a utilização correta da isenção de imposto de selo. A EDP Já foi contactada pelo fisco?

Obviamente, a EDP, sendo a empresa que é, e tendo o peso que tem, é escrutinada de uma forma muito próxima pela autoridade tributária. Mas, portanto, tem os seus prazos e, seguramente, será escrutinada ao longo dos próximos tempos relativamente a isso como relativamente a todas as outras coisas e todas as outras operações que nós temos em Portugal.

Um dos eixos do Programa de Recuperação e Resiliência -- a bazuca europeia -- é a transição energética. Qual é a avaliação que o presidente da EDP faz desse programa?

Acho que é positivo que haja, de facto, um grande peso dado à transição energética. Aliás, o nosso próprio mote é “líderes na transição energética”, portanto, a EDP posiciona-se, claramente, nessa frente. E isto é uma tendência também ao nível da Europa e o plano acho que reflete, também, essa visão da aposta na transição energética. Veremos que projetos concretos se podem aproveitar para benefício da economia portuguesa, e como é que isso se consubstancia na prática.

Na dimensão energética/climática vê um plano estratégico ou uma lista de compras neste plano que está em debate público?

Tem coisas positivas – aposta nas renováveis, na eficiência energética, na descarbonização da economia. É preciso ver depois como é que isso se traduz em projetos concretos que possam impactar a economia.

António Mexia saiu da EDP na sequência de um processo judicial por causa do caso das "rendas da energia". Isso manchou a imagem da empresa?

Sinceramente, acho que não. Acho que o António [Mexia] teve uma excelente performance, é um excelente gestor que contribuiu e muito para a EDP. Do ponto de vista de reputação, acho que as pessoas continuam a olhar para a EDP também como uma empresa de confiança, que continua a crescer, que é global e que há de continuar, também, o seu caminho. Portanto, não sinto isso.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos