“Temos dificuldade em recrutar em Portugal”, alerta líder da Farfetchpremium

Em entrevista ao ECO, José Neves alerta que existe escassez de talento em Portugal. Considera que as empresas só podem vencer se tiverem o talento certo e se o conseguirem reter.

O líder da Farfetch criou a Fundação José Neves como a missão de “transformar Portugal numa sociedade de conhecimento” e apostar “na educação universal, contínua e acessível ao longo da vida".

José Neves realça que existe dificuldade em recrutar em Portugal em áreas bastante específicas como cyber security, data science, database. O fundador da Farfetch reconhece a qualidade do talento em Portugal, mas destaca que não é suficiente para as necessidades a nível quantitativo. A Fundação José Neves pede ambição nacional para transformar Portugal numa sociedade do conhecimento nas próximas duas décadas.

Para o empreendedor, as empresas que querem reter talento "têm que pagar por ele e tem que pagar o que se paga internacionalmente". Vai ainda mais longe e afirma que, atualmente, "as empresas só podem vencer se tiverem o talento certo e se conseguirem reter esse mesmo talento".

Para além do talento, a Fundação José Neves tem como foco a saúde mental dos portugueses. E com essa missão em mente apresentou, no evento anual da Fundação, a aplicação 29k que tem como objetivo melhorar o bem-estar e a saúde mental dos portugueses.

A Farfetch permitiu criar a Fundação José Neves? Quanto investiu? Foi um investimento do seu bolso?

Indiretamente sim. A fundação é totalmente financiada pelo meu património pessoal ao qual a Farfetch está ligada, embora sejam totalmente independentes. Assumi o compromisso de doar à Fundação José Neves dois terços de tudo aquilo que tenho, durante a minha vida ou em morte. É um compromisso que tenciono nas próximos décadas levar a cabo, mas com coisas que realmente tenham impacto. É uma preocupação muito grande minha e da Fundação colocarmos projetos inovadores, medir os impactos desses projetos e depois reforçar financeiramente aqueles que mais impacto têm. Isto não é só a questão dos recursos financeiros, mas também da criatividade, talento, da capacidade da equipa fantástica que temos. E, depois, irmos dotando financeiramente a fundação à medida que vamos vendo os resultados desses projetos.

Até ao momento já investimos cinco milhões de euros, mas é mais ao contrário: nós lançamos as iniciativas, vemos quanto é que as iniciativas precisam financeiramente para serem lançadas, vemos como conseguimos expandir essas iniciativas e isso dita os orçamentos da Fundação que são totalmente transparentes. A FJN tem o relatório de contas no site, somos auditados. As pessoas conseguem acompanhar a nível financeiro os recursos que foram alocados. O investimento foi totalmente meu, não temos apoio de entidades públicas ou privadas.

Quais os planos da Fundação José Neves para o futuro?

Nós começamos há três anos a trabalhar na Fundação, mas lançamos oficialmente a mesma há nove meses. Somos ainda muito novinhos, temos consciência que somos um pequeno agente de mudança. Tenho por hábito dizer que existem 10 milhões de agentes de mudança em Portugal, que são os portugueses e portuguesas todos individualmente. Todos nós somos um agente de mudança e a Fundação é apenas um ponto no meio de muitas pessoas que estão a tentar contribuir para que Portugal tenha índices de desenvolvimento humano cada vez mais maiores.

Estou muito feliz pelos resultados iniciais. O Income Share Agreement (ISA) que lançamos há nove meses e que estamos a acelerar, assim como o Brighter Future. São duas iniciativas que pretendemos reforçar e esta quarta-feira lançamos duas outras iniciativas: o relatório Estado da Nação e a aplicação 29k. Chama-se 29k porque, em média, há 29 mil dias na vida do ser humano e cada diz que acreditamos que é mais um dia de crescimento pessoal, para nós e para os outros. É uma aplicação totalmente gratuita, financiada pela nossa Fundação e por uma fundação sueca. As pessoas podem ter a garantia que os dados são totalmente anónimos e privados, sem qualquer fim comercial.

A aplicação é baseada em ciência: foram os maiores especialistas da universidade de Harvard (EUA), da Universidade de Londres (Inglaterra), do Instituto Karolinska (Suécia) e da Escola de Medicina da Universidade do Minho, que criaram os cursos para que todos os portugueses consigam ter acesso em português. Os cursos foram feitos por algumas personalidades como a Catarina Furtado, Fátima Lopes, Paula Amorim, Cristina Alves, Luís Portela e eu próprio também fiz dois cursos e o Carlos Oliveira um. Nós passamos por essa experiência e partilhamos as nossas perspetivas pessoais e aquilo que aprendemos. É algo que estamos muito entusiasmados.

Ainda não temos conteúdos desenvolvidos de raiz em Portugal, esse será o nosso próximo passo. Nós pegamos em conteúdos desenvolvidos pela equipa inicial, entre Suécia, Reino Unido e EUA - é onde estão as três equipas que criaram os conteúdos e depois da Faculdade de Medicina na Universidade do Minho adaptou esses conteúdos à língua portuguesa e ao contexto português.

Estas quatro iniciativas, o Income Share Agreement, Brighter Future, aplicação 29k e o relatório Estado da Nação, são muito inovadores em Portugal. Vamos medir o impacto dessas iniciativas com humildade, vamos recolher o feedback e depois vamos investir mais nessas iniciativas e continuar a investir em novas iniciativas para o futuro.

Como surgiu a ideia de criar uma app direcionado à saúde mental? Detetaram que era uma lacuna no mercado?

A Covid-19 corre o risco de tornar-se uma pandemia psicológica depois de ter sido uma pandemia biológica. Foi um ano de confinamento, um ano muito traumático em todo o mundo. Se juntarmos ansiedade, depressão, stress pós traumático e insónias, estas quatros condições subiram de 30% da população para mais de 85%, isto dados da Suécia, Reino Unido e EUA. Não temos dados para Portugal, mas tudo indica que deve ter sido semelhante. Praticamente tocou a toda a gente, quando não nos tocou a nós pessoalmente, tocou a alguém da nossa família, amigos, é impossível ficar impassível a uma situação destas.

Parece-me a mim muito importante dar às pessoas ferramentas baseadas em ciência, com prova de eficácia clínica, para elas se conhecerem a si próprias e conseguirem lidar com algumas destas situações. Evidentemente que não significa que algumas pessoas não precisem de uma intervenção de psicólogos ou neurologistas. A nossa tentativa é que as pessoas comecem a ter um pouco de luz sobre aquilo que se está a passar dentro delas e até no sentido da prevenção. Isto é quase como o exercício físico, nós não vamos ao ginásio quando já estamos numa situação física debilitada, nós vamos ao ginásio antes porque gostamos, porque sentimos prazer no nosso bem-estar físico e é a mesma coisa com a nossa mente. É o que este aplicativo tenta fazer: tenta chamar à consciência das pessoas como é que eles funcionam e permitir que elas cresçam e cresçam com os outros também.

Foi a pandemia da Covid-19 que impulsionou a criação desta aplicação a pensar na saúde mental dos portugueses?

A aplicação já existia, é uma aplicação sueca sem fins lucrativos. Nós fizemos uma análise a tudo o que existia no mundo e chegamos à conclusão que a 29k era o melhor que existia no mercado. É o gold standard a nível de ferramentas de desenvolvimento pessoal e quisemos trazer a app para Portugal. Oferecemos uma parceria com a nossa Fundação e fomos nós que financiamos, adaptámos, fizemos todo o conteúdo para a versão portuguesa e validamos com o Drº Pedro Morgado, da Faculdade de Medicina da Universidade do Minho, para termos a certeza que essa adaptação a Portugal estava feita com bases científicas.

Este trabalho demorou quase um ano, desde a identificação da 29k até às conversas que tivemos com a nossa Fundação, o que funcionaria em Portugal, quais eram as prioridades e encontram a equipa médica e encontrar também pessoas com interesse em dar a cara. É muito importante mostrar-nos que estamos todos numa jornada de desenvolvimento. Não existem pessoas mais desenvolvidas e menos desenvolvidas.

Com a pandemia da Covid-19 é caso para dizer que as pessoas estavam a ficar loucas fechadas em casa?

De génio e de loucos todos temos um pouco. A definição de loucura é um pouco passé. O que é um ser humano normal? Ninguém sabe. Isto classificar ser humanos é impossível e nem é produtivo sequer. As pessoas estão em stress psicológico, sem dúvida nenhuma, e em stress psicológico existe um limite em muitos casos.

Nós ensinamos às nossas crianças a história de Portugal, a história da humanidade, geologia, sociologia, e muito bem, mas ninguém ensina às nossas crianças como é que os sentimentos, as emoções e os nossos pensamentos interagem uns com os outros e afetam o nosso bem-estar e as nossas relações humanas. Não ensinamos isso e as vezes entramos na fase adulta das nossas vidas, 20, 30, 40, 50 anos e vamos cegos por aí. O "Ensaio sobre a Cegueira" foi escrito por José Saramago, não sabemos a que país se referia, mas espero que não seja a Portugal. Provavelmente ele referia-se ao mundo inteiro.

É muito importante começar a sensibilizar até os mais jovens e as crianças, porque existem coisas que podem ser ensinadas a uma menino ou a uma menina de dez anos: porque é que está a ter determinadas emoções, como é que essas emoções podem ser geridas, como podem comunicar essas emoções de forma saudável com os outros e não as reprimir. Existem pequenas coisas que podem ser ensinadas de forma muito simples.

José NevesFundação José Neves

Com a aplicação 29k vai mais longe e é para todas as faixas etárias. Neste momento não temos módulos para crianças, mas vamos ter. São módulos de autocompaixão, ação baseada em valores, manter relações em tempos difíceis, resistir ao stress em situação de dificuldades. Temos vários cursos que vão abordar dificuldades, que neste momento com a Covid-19 penso que serão muito pertinentes.

Como é que o José Neves cuidou da sua saúde mental?

Eu faço há mais de dez anos psicoterapia várias vezes por semana. Faço porque gosto, não é nenhuma intervenção, foi num momento difícil da minha vida que precisei, mas depois dessa fase apostei na manutenção. Faço meditação todos os dias, já o faço desde a minha adolescência, faço yoga, leio muito e gosto de trocar ideias com outras pessoas.

Como prevê o regresso das pessoas ao escritório, neste caso dos colaboradores da Farfetch?

Num contexto mais genérico, o regresso ao escritório é um desafio muito grande para as empresas. Por um lado, os colaboradores vão querer ter mais flexibilidade e assim deve ser porque todos descobrimos que podemos ser produtivos a trabalhar a partir de casa e prestar um pouco mais de atenção às nossas famílias. Por outro lado, a interação humana é que cria a cultura da empresa e solidifica os valores de uma empresa.

Está provado que a criatividade, ter novas ideias e a inovação funciona muito mais em presença física e em grupo do que em videoconferências, por exemplo. Isto vai ser um equilíbrio que as empresas vão ter que traçar e cada empresa vai ser diferente, mas penso que é algo que não será nem preto, nem branco, será cinza.

Em Portugal existe uma desadequação entre a formação e o que o mercado precisa? A Farfetch tem dificuldade em recrutar em Portugal?

Temos dificuldades em recrutar em Portugal em áreas bastante específicas como cyber security, data science, database. São áreas muito técnicas e recrutamos um pouco por todo o mundo. Temos um escritório em Nova Deli, na Índia, engenheiros no Brasil, no nosso escritório em São Paulo, engenheiros em Londres e está a ser necessário largar a rede. A oferta em Portugal de talento é fantástica em qualidade, mas não chega nem de perto, nem de longe, às necessidades a nível de quantidade.

Através do relatório Estado da Nação conseguimos ver que num ano, 60 mil jovens perderam o emprego, ou seja, temos menos 60 mil jovens a trabalhar do que tínhamos antes da Covid-19. Quem tem as competências certas, escolhe onde quer trabalhar e até se pode dar ao luxo de trabalhar em Portugal remotamente para uma empresa estrangeira. Não existe falta de emprego, mas sim falta de competências. É essa a grande mensagem que este estudo demonstra.

Como é que Portugal pode inverter esta tendência?

Primeiro não pode ser algo isolado, tem de ser os indivíduos. Todos nós temos a responsabilidade individual de definir quais são as competências que queremos ter no futuro e, para ajudar nesse sentido, lançamos o Brighter Future, onde os jovens e as famílias podem ver determinado curso, que empregabilidade é que tem, qual a evolução salarial por região, diferença entre homens e mulheres - existe 21% de diferença, no geral, entre o salário dos homens e das mulheres em Portugal, o que é absolutamente inaceitável. A ferramenta Brighter Future permite às famílias e aos jovens tomar essas decisões: já não precisam de ir para um curso só porque sim ou ou porque têm influência das famílias. Eles podem ver exatamente as tendências de determinado curso e da carreira que querem seguir. Essa responsabilidade individual é muito importante.

Depois a responsabilidade do Governo e dos organismos públicos, a responsabilidade das universidades, também das privadas, a responsabilidade das empresas, a responsabilidade das fundações e do setor filantrópico que tenha como missão a educação. Todos nós temos que ajudar e tenho consciência que a Fundação José Neves é um agente minúsculo no que tem ser esta transformação geral da sociedade.

É impossível reter os bons talentos no país com os salários oferecidos?

As empresas que querem reter talento têm de pagar por ele e tem de pagar o que se paga internacionalmente. O talento não conhece fronteiras, principalmente nas áreas técnicas é ainda mais fácil porque a barreira linguística e cultural não é tão grande assim. Considero que isso é fantástico porque nós temos certos talentos que escolhem as empresas que querem trabalhar e ditam as condições. Existe aqui um claro desfasamento entre a oferta e a procura muito vantajosa para a pessoa que tem essas competências. As empresas acabam por reter e investir nesse talento. Hoje em dia as empresas só podem vencer se tiverem o talento certo e se conseguirem reter esse talento.

Falou sobre a retenção de talento no encontro com Marcelo Rebelo de Sousa o mês passado. Quais foram as prioridades que elencou para o país?

A questão dos salários e da retenção de talento é uma questão que o mercado regula e regula muito bem. Nós vemos os salários para determinado tipo de competências numa curva ascendente -- e ainda bem que assim é -- e com as empresas numa luta feroz para reter os talentos. O próprio mercado encarrega-se de remunerar as pessoas que têm essas competências específicas. O problema é que isto não pode ser só para alguns, tem de ser para todos.

Apresentamos o estudo que conclui que 50% dos portugueses não terminou o ensino secundário. Isso é gritante. Os portugueses ganham 17% menos em salários reais que ganhavam em 2010, as mulheres ganham menos que os homens. Não estou tão preocupado com a franja de talento raro porque aí as pessoas vão encontrar colocação e vão ser bem remunerados. A preocupação tem que ser nesta grande percentagem da população que não está minimamente preparada para desenvolver as competências que vão ser necessárias e não é no amanhã, é daqui a cinco, dez, 15 anos. E isso tem que ser um esforço da sociedade toda. Os indivíduos começarem a ter responsabilidade individual, os empregadores também podem ter aí uma função, o Estado e o ensino privado e público.

A Farfetch está neste momento a contratar cerca de 200 pessoas a nível nacional, especialmente nas áreas da engenharia e tecnologia. Estes poderão vir a integrar o novo Campus que está a ser construído em Matosinhos?

Sim, efetivamente. Continuamos a aumentar a base em Portugal e queremos aumentar ainda mais. Como disse existe escassez de talento e esse é o principal limite ao nosso crescimento. O campus de Matosinhos vai ser uma aposta a longo prazo, estas coisas demoram anos a ser desenvolvidas.

A oferta em Portugal de talento é fantástica em qualidade, mas não chega nem de perto, nem de longe, às necessidades a nível de quantidade.

José Neves

José Neves é fundador e CEO da Farfetch e da Fundação José Neves

A nossa limitação é o acesso ao talento e é por este motivo que estamos com algumas iniciativas. Temos uma academia onde vamos buscar talento através de recém-licenciados, recentemente foram mais de 50 que conseguimos captar para a Academia da Farfetch e temos uma taxa de emprego de 90% depois de eles fazerem essa academia. Essa é a nossa aposta e é uma aposta contínua, estamos todos os dias a contratar.

Portugal está no bom caminho para captar e reter talento?

Portugal está no bom caminho. Temos cada vez mais jovens a aceder ao ensino superior, mas ainda existe um longo caminho a percorrer.

Considera que é preciso uma nova associação empresarial? A Confederação Empresarial de Portugal (CIP) não representa bem os vossos interesses?

Essa notícia foi publicada, mas nem eu nem a Farfetch fazemos parte dessa associação.

Está confiante na retoma ou acha que se deveriam ter tomado opções diferentes para a utilização dos fundos do PRR, por exemplo?

Não estou qualificado para responder a essa pergunta. Vivemos num mundo em que toda a gente acha que tem que ter uma opinião, mas considero que devemos ser económicos nas nossas opiniões quando estamos qualificados, quando temos dados. Eu não tenho nenhuma ideia para acrescentar.

A Farfetch tem algum projeto que se enquadre no PRR?

Que eu saiba não. Nós não beneficiamos de nenhum fundo europeu, nem português no nosso desenvolvimento e também não estamos a pensar nisso.

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