A quebra de patentes não garante abundância de vacinaspremium

Os países ricos continuam a açambarcar as vacinas que há e as que não há, e a questão das patentes volta à discussão. Leia o Novo Normal desta semana.

No final de 2020, estava o Ocidente rico inebriado com a perspetiva de vacinar rapidamente e em força as suas populações, a Índia e a África do Sul propuseram na Organização Mundial do Comércio (OMC) a quebra de patentes das vacinas contra a covid, para que mais laboratórios por todo o mundo as pudessem produzir e também os países pobres tivessem acesso imediato e generalizado aos medicamentos para travar a pandemia.

A proposta teve diversos apoios, desde a Organização Mundial de Saúde (OMS) a centenas de organizações da sociedade civil, nacionais e internacionais, incluindo os Médicos do Mundo, os Médicos sem Fronteiras ou a Oxfam. Só não teve força que chegasse dentro da OMC - apesar de maioritário, o apoio de cerca de uma centena de países não chegou, pois a organização delibera por consenso dos seus 164 membros.

Houve discussões na OMC em novembro, em dezembro, em janeiro, e há duas semanas ficou o assunto encerrado (pelo menos por agora). O mapa de votações mostra bem o mundo dividido entre ricos e pobres, Norte e Sul.

Como não era um problema de países ricos, estes rejeitaram a ideia. Tudo parecia correr sobre rodas: os contratos com as farmacêuticas estavam assinados, o dinheiro podia pagar mais vacinas do que qualquer desses países ricos algum dia precisará, e as encomendas iam chegando ao ritmo previsto. Até que.

Quando ficou evidente que a escassez de vacinas não era só nos países pobres do Hemisfério Sul, a ideia de forçar a partilha de propriedade intelectual foi recuperada… até por responsáveis políticos de países ricos do Norte. Com o processo de vacinação a marcar passo nos países da União Europeia, até o ministro alemão da economia, Peter Altmaier, começou a achar que a solução poderá passar por aplicar “medidas coercivas”, caso as farmacêuticas não sejam capazes de superar as dificuldades de produção.

Que tal fosse admitido pelo ministro da economia mais poderoso da Europa, não era coisa pouca. Da Grécia à Holanda, outras vozes começaram a namorar a ideia de suspender, pelo menos temporariamente, a proteção de propriedade intelectual aplicada às vacinas da covid, para desconcentrar e acelerar a produção. Em dezembro, o Parlamento italiano aprovou uma resolução nesse sentido. No início deste mês, Tommaso Valletti, economista que foi responsável pela política de concorrência na Comissão Europeia, questionou-se por que razão não é possível essa suspensão e a emissão de licenças compulsórias. “Acreditamos mesmo que isso poria em risco o futuro da inovação? Morreram 2,2 milhões de pessoas”.

Na verdade, a porta para que a UE pudesse dar esse passo inédito (e contrário a toda a sua história de respeito e proteção dos direitos de propriedade intelectual das farmacêuticas), foi aberta quando a União se viu confrontada com o anúncio de grandes cortes no fornecimento de vacinas aos 27. Sobre essa “guerra fria das vacinas” já aqui se escreveu. Vale a pena lembrar que, ao invocar a possibilidade de recorrer a mecanismos excecionais ao abrigo do artigo 122 do Tratado da União, para situações de catástrofe naturais e crises que fogem ao controlo dos Estados, estava sobre a mesa a possibilidade de interferir na produção e distribuição das vacinas, incluindo, no limite, a possibilidade de obrigar fabricantes de vacinas a partilhar patentes ou outra propriedade intelectual e industrial protegida (no fundo, um mecanismo de licença compulsória).

O caso de Portugal

Em Portugal, PCP e Bloco de Esquerda têm feito a exigência de que sejam quebradas as patentes, focados sobretudo na escassez de vacinas disponíveis no nosso país, mas também no imperativo de solidariedade com os países mais pobres. Uma reivindicação que o Governo português tem recusado, em linha com o pensamento da Comissão Europeia.

Não é que Portugal não precise de acelerar a vacinação. Precisa - e para isso tem de receber mais vacinas do que as que têm chegado. O país não pode cumprir o plano da task force de vacinação sem as doses necessárias. Dos 4,4 milhões de doses que deviam chegar no primeiro trimestre deste ano, só deverão chegar 2,5 milhões, o que já fez derrapar os calendários - a primeira fase de vacinação só terminará em abril - e obrigou a ajustar prioridades.

Ontem o Expresso noticiou que para já o grosso das vacinas disponíveis será administrado a dois grupos demográficos: pessoas com 80 ou mais anos, e dos 50 e os 79 anos com uma das quatro doenças de maior risco para a covid-19. O que obriga a deixar para mais tarde polícias, bombeiros, forças armadas e até profissionais de saúde que não estão na linha da frente. “Plano de vacinação sofre novo revés”, titulou o semanário - na verdade, não é um novo revés, é sempre o mesmo: a incapacidade das farmacêuticas cumprirem os compromissos feitos com a UE.

Toda a União está a sofrer do mesmo problema, até porque há um ponto em que nada mudou face ao plano inicial: cada um dos 27 está a receber as vacinas à proporção da sua população, conforme previsto. Só que em números inferiores ao previsto.

Na segunda semana de fevereiro Portugal estava a ficar atrás de muitos países no seu processo de vacinação, ficando até aquém das médias europeias. Não tem a ver com problemas internos nem com o porfolio de vacinas que Portugal comprou. Esse portfolio corresponde à parte que nos cabe no rateio do conjunto das vacinas compradas pela União Europeia. De cada vacina comprada pela UE, Portugal recebe cerca de 2,3% dessa encomenda.

A primeira vacina a ser comprada foi a da AstraZeneca, que no arranque do processo parecia a estrela da companhia e era a que tinha a maior encomenda da UE. Mas, com o tempo, com as dúvidas sobre a eficácia desse fármaco e com as dificuldades na sua produção, acabou por ficar para trás. Atualmente a Pfizer/BioNTech tem o maior contrato com a UE (600 milhões), e por essa razão a maioria das doses para Portugal é do consórcio germano-americano. Aliás, a vacina da Pfizer é a preferida dos países ricos, seguida da vacina da Moderna. A da AstraZeneca é a favorita dos remediados, e a russa leva a palma nos países mais pobres.

Apesar de ser mais cara e logisticamente complexa, a vacina da Pfizer foi a primeira a ser aprovada e tirou benefícios dessa vitória, traduzido em colossais encomendas dos países com maior capacidade económica. Também é bastante eficaz, e ontem surgiu outra boa notifica: afinal não tem de ser armazenada a -70ºC, podendo ficar a temperaturas mais altas, entre -25ºC e -15ºC, o que pode ser garantido por um congelador comum.

Nem de propósito, esta semana a Comissão Europeia reforçou o peso da vacina da Pfizer na sua lista de compras, encomendando mais 200 milhões de doses (com outros 100 milhões de opção). Também engordou o negócio com a Moderna, a quem encomendou mais 300 milhões de doses. Com esta nova ida às compras, a vacina da Moderna passa a ser a segunda mais utilizada na UE, ultrapassando a da AstraZeneca.

Por consequência, também em Portugal a Pfizer reforça a posição de principal fornecedor da vacina contra a covid, seguindo-se a Moderna e por fim a AstraZeneca. Não é verdade que Portugal esteja a ser mais afetado do que outros países por ter feito mais encomendas à AstraZeneca - as falhas do consórcio anglo-sueco atingem todos os países da UE por igual, à medida das suas populações.

Porém, como as entregas não são feitas em simultâneo em todos os países, o ritmo de entregas das várias farmacêuticas não é constante, e nem todos os países estão a seguir as mesmas regras na administração da segunda dose, há oscilações no ritmo relativo de vacinação entre os 27.

Esta semana Portugal registou uma recuperação, voltando a situar-se entre os países da UE com melhor desempenho na vacinação. Olhando para a média a sete dias ponderada pela população, Portugal foi o quinto país da União que administrou mais vacinas por dia na última semana.

Mas a melhor forma de medir o nosso desempenho é pelo número acumulado de vacinas administradas por cada cem pessoas, que não se ressente de oscilações pontuais. Portugal surge agora em 12º entre os 27, acima da média comunitária.

Como a DGS decidiu cumprir as recomendações dos fabricantes para o intervalo entre a toma de cada dose, Portugal está menos adiantado na administração da primeira dose do que outros países da UE que optaram por intervalos maiores e não deixaram doses de reserva (o exemplo extremo é o Reino Unido, onde 24% da população já recebeu uma dose, mas menos de 1% tem a segunda dose, que foi adiada por três a seis meses). Mas é o 9º da UE com mais população completamente vacinada (2,13%).

Para prevenir ruturas de fornecimento que possam pôr em causa os prazos recomendados pelos fabricantes (21 dias para a vacina da Pfizer e 28 para a da Moderna), as autoridades portuguesas decidiram que fica sempre em stock pelo menos 25% das doses recebidas destes dois fabricantes. A da AstraZeneca, como tem um intervalo de 3 meses entre doses, não obriga a esse armazenamento, pois os 90 dias permitem outro tipo de gestão.

A demonstração, esta semana, de que uma única toma da vacina da Pfizer é altamente eficaz (85%) pode dar razões para rever essa política, e aumentar o intervalo entre as duas doses. Até lá, mantém-se a cautela que explica que "só" tenham sido administradas 8 em cada 10 doses recebidas por Portugal. É também por isso que, nesta fase de escassez, pode haver semanas em que mais gente recebe a segunda dose do que a primeira.

A infografia acima é retirada do primeiro relatório semanal da DGS sobre o andamento da vacinação, divulgado na terça-feira. Um dado em particular chamou a atenção e causou espanto: que haja tão poucos vacinados na faixa etária entre os 65 e os 79 anos. Apenas 2% desta população recebeu a primeira dose da vacina, a mesma percentagem registada entre os 18 e os 24 anos. Muito abaixo do grupo acima dos 80 anos, e abaixo das faixas etárias situadas entre os 25 e os 64 anos.

Como se explica que 12% da população acima dos 80 anos já tenha começado a vacinação, mas apenas um sexto desse valor na faixa etária imediatamente abaixo, que também é de risco?

Porque quem está entre os 65 e os 79 faz parte da população nem-nem: nem são os mais velhos, muitos deles em lares, por onde começou a campanha de vacinação (a esmagadora maioria dos nossos idosos que vivem em lares são maiores de 80), nem são trabalhadores da linha da frente no combate à covid, pois na sua maioria já estarão reformados. Entre a campanha de vacinação nos lares e a campanha de vacinação de médicos, enfermeiros e outros profissionais da linha da frente, houve um grande grupo que ficou para trás durante as primeiras semanas de vacinação.

Os argumentos a favor da quebra de patentes

O anúncio feito esta semana por Ursula von der Leyen da compra de mais vacinas à Pfizer e à Moderna sinalizou o regresso a alguma normalidade, depois do pico de tensão entre Bruxelas e a big pharma no final de janeiro.

O novo clima de entendimento está a dar resultados: no caso de Portugal, houve uma revisão em alta das doses a receber neste trimestre (é certo que serão "apenas" 2,5 milhões - em vez de 4,4 milhões -, mas esse valor já esteve mais baixo, nos 1,9 milhões). E o novo coordenador da task force das vacinas assegurou ontem na RTP que em junho e julho haverá mais vacinas disponíveis e vai aumentar o ritmo de inoculação.

Bruxelas tem reiterado a sua oposição à quebra de patentes e suspensão das regras de propriedade intelectual, e tudo indica que nunca houve intenção europeia de ir tão longe, mas apenas o bluff suficiente para obrigar as farmacêuticas a procurar soluções que garantam mais produção e cumprimento dos acordos assinados. (Outro sinal de bluff: lembra-se de a Comissão ter ameaçado processar a AstraZeneca por não cumprir os prazos das entregas? Ontem o contrato foi finalmente revelado na íntegra por jornalistas italianos, e diz que a farmacêutica não pode ser processada por incumprimento de prazos...)

Apesar da acalmia, a questão das patentes não desapareceu. Mesmo que a Europa consiga recuperar o passo e o tempo perdido com ineficiências da cadeia de produção das vacinas, há todo um mundo onde as vacinas tardam a chegar.

Ainda esta semana António Guterres fez essa contabilidade: segundo a ONU, dos 190 milhões de doses de vacinas já administradas, 75% foram para apenas 10 países; e há 130 países onde ainda não chegou uma única dose. “Neste momento crítico, a equidade nas vacinas é o maior teste moral que a comunidade global enfrenta”, declarou o secretário-geral da ONU.

“Se o capitalismo não cede na salvação da humanidade em situação de pandemia, quando cederá?”, perguntava há dias no Expresso a jurista Inês Monteiro Alves.

Várias organizações internacionais têm-se batido pela suspensão da proteção de propriedade industrial das vacinas contra a covid. Esse propósito levou mesmo à criação da People’s Vaccine Alliance (pode traduzir-se como Aliança para a Vacina do Povo), uma coligação global de organizações não governamentais que junta entidades como a Amnistia Internacional ou a Oxfam.

Este artigo da Lancet permite uma boa panorâmica sobre os argumentos de um lado e do outro. A página da PVA tem uma série de perguntas e respostas em que defende os seus pontos de vista. Dos vários textos que li nos últimos tempos defendendo a partilha do conhecimento protegido das farmacêuticas, recomendo este do NYT, e estes dois, publicados no Expresso.

Eis os principais argumentos pela quebra das patentes ou suspensão temporária da propriedade intelectual:

  • A generalidade das vacinas que estão na linha da frente foi desenvolvida com financiamento público, por isso é injusto que as empresas privadas cuja investigação foi paga pelos Estados fiquem com o exclusivo da patente e dos lucros;
  • Esta é uma crise excecional, uma pandemia com impacto global, pelo que os interesses de saúde pública devem sobrepor-se aos interesses empresariais dos fabricantes de vacinas;
  • As farmacêuticas não têm cumprido as suas próprias metas de produção, falhando os compromissos assumidos com os Estados que precisam das vacinas para conseguir a imunidade comunitária - assim sendo, devem partilhar a informação com outros produtores que possam aumentar o fabrico global;
  • capacidade instalada em unidades de produção por todo o mundo, que podem ser mobilizadas neste esforço planetário;
  • A quebra das patentes ou a suspensão temporária dos direitos de propriedade intelectual permitiria descentralizar o fabrico de vacinas, com a entrada em cena de múltiplos produtores, em vez de tudo estar concentrado nas mãos de uns poucos gigantes. “O que propomos é ganhar escala num curto período de tempo”, defendeu um representante sul-africano nas negociações na OMC;
  • Apesar de alguns fabricantes das principais vacinas já terem feito acordos com outros players (por exemplo, a Astra Zeneca licenciou a produção da sua vacina com fábricas da Índia, Brasil e Argentina), isso é insuficiente para responder às necessidades globais, e em vários casos não implica sequer partilha de informação protegida, mas apenas colaboração ao longo da cadeia de produção;
  • Para além de um aumento dramático da capacidade de produção, a urgência de debelar a pandemia não se compadece com a burocracia de negociações longas, caras e secretas com os detentores das patentes - poupar tempo e dinheiro equivale a salvar mais vidas;
  • Quanto maior for a produção e mais rápida a vacinação a nível internacional, mais depressa as economias recuperarão - todas as economias, e sobretudo as mais ricas, que são as que registam maiores perdas relativas. Um estudo divulgado ontem indica que cada cinco semanas de atraso na vacinação pode custar €90 mil milhões às economias europeias.
  • Depois de um arranque auspicioso, no início da pandemia, em que houve muita partilha e trabalho em rede, as iniciativas de troca de conhecimento sobre vacinas têm dado poucos ou nenhuns resultados - o melhor exemplo é este: a OMS criou uma pool para que a indústria farmacêutica internacional partilhe conhecimento sobre vacinas, tratamentos e tecnologias; ao fim de oito meses, esse mecanismo recebeu... zero informação, conta o Guardian.

Os argumentos para manter as patentes

No campo oposto têm-se alinhado os argumentos da grande indústria farmacêutica, que sabe que todo o seu modelo de negócio depende dos direitos de exclusividade garantidos pelas patentes, e dos grandes países industrializados da América do Norte e da Europa, que defendem a manutenção do status quo. Este texto, escrito pelo diretor-geral da Federação Internacional da Indústria Farmacêutica, é um bom guia para esse argumentário. Este, publicado no Expresso, também merece atenção.

1. O primeiro argumento tem a ver com o modelo de negócio que tem permitido investigar, criar e produzir vacinas inovadoras (e outros medicamentos) - e, no caso da covid, em tempo recorde. Há décadas que é seguido um modelo de PPP, em que os privados lideram essa investigação, e os Estados a financiam, seja com subsídios, seja com contratos de compra das vacinas (ou outros fármacos). É a proteção de patentes e os direitos de exclusividade na comercialização dos novos produtos durante um certo período de tempo que garante o incentivo para mais investigação e mais desenvolvimento, com vista a mais negócio com produtos inovadores. Só depois do período de exclusividade a concorrência pode fazer genéricos com base nesse trabalho.

O raciocínio, aqui, é que quebrar os direitos patenteados equivale a destruir o incentivo para a inovação - o que pode fazer estagnar a descoberta de novos produtos para novos e velhos problemas. E não basta responder que uma pandemia como a atual seria incentivo suficiente para os investigadores procurarem a cura - a investigação não se faz num momento, nem se faz sem dinheiro. Precisa de muito tempo e de muito dinheiro. E é um processo longo de tentativa e erro, em que nunca nada se perde, e até com os fracassos há aprendizagem - mas, mais uma vez, isso custa dinheiro que tem de vir de algum lado: dos lucros da venda de medicamentos. Só porque havia muito trabalho feito no passado sobre RNA foi possível desenvolver tão depressa a vacina de RNA mensageiro contra a covid.

Para além disso, “não há provas de que os direitos de propriedade intelectual estejam de alguma forma a atrapalhar o acesso aos medicamentos e tecnologias relacionados com a covid-19”, alegava há dias um porta-voz da Comissão Europeia - um argumento que tem sido repetido à exaustão pelos gigantes da farmacêutica. O problema, dizem, está na cadeia de produção - não tanto por haver poucos fabricantes com acesso à “receita”, mas por não haver know-how nem capacidade instalada que permita ganhar escala num negócio tão delicado como as vacinas, sobretudo as de tecnologias mais inovadoras.

2. Este é outro ponto importante nas razões da indústria: não basta facultar a receita para que outros a possam copiar. É preciso know-how, capacidade instalada e rigorosos controlos de qualidade. Se os laboratórios que criaram as vacinas perderem a mão sobre a sua produção por todo o mundo, a primeira vítima será o controlo de qualidade. Como se lê no artigo da Lancet, “os medicamentos e vacinas são produtos biológicos complexos, para os quais os principais obstáculos são as unidades de produção, as infraestruturas e o know-how. A propriedade intelectual é a menor das barreiras”.

Achar que uma vacina se produz em qualquer lado, mesmo em laboratórios experimentados, é “uma ilusão”, diz Barry Bloom, infeccilogista de topo da Universidade de Harvard. “Este é um negócio muito complicado, que exige gente altamente preparada.” Por isso, mesmo a ideia lançada por Joe Biden de alargar a produção de vacinas ao abrigo do Defense Production Act é olhada de lado por muitos especialistas. Mas os políticos aplaudem, e até o mayor de Nova Iorque já tinha exigido que as vacinas sejam produzidas sem olhar a patentes, como se estivéssemos em período de guerra.

Por alguma razão até os laboratórios que desenvolveram as vacinas estão com dificuldades em garantir os níveis de output que esperavam: é porque esta é mesmo uma produção difícil, que requer equipamentos topo de gama, condições exigentes e pessoal altamente qualificado.

Deixo-lhe um muito bom trabalho do Buzzfeed que explica quão difícil é produzir estas vacinas, sobretudo ao ritmo a que o mundo as espera receber. Qualquer dificuldade no circuito de produção pode provocar grandes reveses. No caso da AstraZeneca, isso foi evidente na forma como a companhia teve de cortar para metade as suas entregas à União Europeia. Várias unidades de produção da marca anglo-sueca, tanto fábricas próprias como subcontratadas, têm apresentado níveis de produtividade bastante aquém do esperado. Resumindo: não basta ter a receita, e não é só carregar num botão.

3. As matérias-primas também não abundam, nem são fáceis de produzir à escala a que uma pandemia global exige. As vacinas dependem da incubação de elementos biológicos, e nessa parte do processo qualquer pormenor pode estragar a colheita. “Às vezes aquilo que estamos a tentar desenvolver numa incubadora não cresce bem, e não sabemos porquê. Historicamente, campanhas de vacinação tiveram atrasos por causa de problemas nas fábricas”, conta Arthur Caplan, especialista em vacinas da Universidade de Nova Iorque.

Dou o exemplo da vacina da AstraZeneca, que usa uma plataforma de vetor viral - é usado um adenovírus de chimpanzé que transporta para as células humanas a informação necessária para se protegerem do SARS-Cov2. Esses adenovírus manipulados crescem dentro de células renais humanas cultivadas em grandes tanques, chamados biorreatores. A quantidade de matéria-prima extraída de cada processo de fabricação depende de quão perfeitas foram as condições dessa cultura.

4. Apesar destas limitações, são cada vez mais os acordos estabelecidos dentro da indústria, para que as vacinas que estão já aprovadas possam ser produzidas em fábricas da “concorrência”. “Boa parte da capacidade instalada na Europa que pode ser desviada para a produção destas vacinas já está a ser”, garantia-me esta semana um conhecedor do setor, avisando que a estrutura de produção não pode ser toda desviada para estes medicamentos: há milhares de outros que continuam a ser produzidos para combater outras doenças.

Em geral, os fabricantes das vacinas mais maduras estão todos a trabalhar em rede com unidades de produção externas. Grandes farmacêuticas que nem tentaram entrar na corrida à vacina da covid, ou que tentaram e falharam, ou que tentaram mas estão a demorar a ter resultados, estão hoje a produzir para a Pfizer, a Moderna ou a AstraZeneca. A Sanofi e a Novartis estão a trabalhar para a Pfizer; a AstraZeneca e a Novavax transferiram informação, tecnologia e licenças para o Serum Institute, da Índia. Esta união de esforços entre rivais tem sido apresentada como uma prova de que as grandes farmacêuticas não são parte do problema, mas da solução. Estes acordos acabam por cumprir o objetivo da partilha de propriedade industrial, sem recorrer à bomba atómica da quebra de patentes ou licenciamento compulsório. “Os mecanismos voluntários são a melhor forma de alcançar esse objetivo”, como se lê aqui.

5. E o dinheiro? Sim, há casos em que as perspetivas de lucro com a vacina contra a covid equivalem a números com muitos zeros - é o caso da Pfizer, por exemplo (15 mil milhões de dólares é a receita esperada só este ano). Mas a Pfizer recusou o apoio financeiro do governo Trump, no âmbito da operação Warp Speed, precisamente para não ficar condicionada na comercialização da futura vacina. Quase todas as outras grandes companhias receberam financiamentos estatais dos dois lados do Atlântico. Agora, recebem outra vez, com a venda das vacinas (embora algumas a preço de custo, como prometeu a AstraZeneca). Isso é justo?

A indústria conta outra história. “É verdade que sem financiamento público (...) as grandes farmacêuticas talvez não tivessem desenvolvido a vacina da covid-19 tão depressa”, admite o representante internacional das grandes farmacêuticas, Thomas Cueni. Mas, alega, o que os dinheiros públicos pagaram no último ano foi a redução do risco e a aceleração dos testes e dos calendários de produção. Ou seja, foi uma espécie de taxa de urgência. De resto, foram as empresas que financiaram anos e anos de pesquisas.

6. Com várias vacinas aprovadas não fazem sentido acusações de monopólio, mas os governos correm o risco de ficar nas mãos de um oligopólio de grandes farmacêuticas que decidirá quantas vacinas receberá cada país? Neste momento é isso que se passa, mas, respondem os defensores da preservação das patentes, será cada vez menos. Por todo o mundo há dez vacinas já aprovadas ou a ser usadas sob mecanismo de emergência, mais de uma dezena está no pipeline para a aprovação, meia centena está em ensaios clínicos e há ainda mais de cem em investigação em várias partes do planeta. Até em Portugal: a vacina portuguesa pode chegar ao mercado no ano que vem, mas precisa de apoios do Estado.

Há outra razão, que poucos assumem, para lidar com pinças com os interesses do poderoso lobby das farmacêuticas: a covid-19 não é a última doença da história, e poucos querem correr o risco de ter contra si os grandes produtores de vacinas e outros medicamentos. Muitos países que o fizeram no passado, para acudir a situações de emergência, acabaram por pagar um preço mais cedo ou mais tarde, como aconteceu com a África do Sul em relação a medicamentos contra o HIV.

Entretanto, os ricos continuam a açambarcar as vacinas que há e as que não há, e os pobres continuam a ficar para trás. O programa internacional de ajuda à compra de vacinas para os países mais pobres (Covax) não só está muito aquém das necessidades como não consegue impedir que estes países fiquem para o fim da fila. Ontem os EUA e a UE anunciaram muitos milhões para financiar esse esforço solidário, mas ninguém duvida que esse dinheiro só se converterá em vacinas depois de passar o sufoco nos países mais ricos.

Esses, continuam a reforçar encomendas aos fabricantes. Segundo um relatório divulgado esta sexta-feira pela Reuters, os EUA, a UE, o Reino Unido, a Austrália, o Canadá e o Japão já garantiram, dos cinco principais fabricantes, 3 mil milhões de vacinas contra a covid. É um milhão a mais do que estes países precisam para vacinar toda a sua população.

Quase todos garantem que, no fim, cederão a quem precisa as vacinas que sobrarem. No fim.

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