Depois do confinamento, vem aí finalmente o crescimento?premium

Portugal errou em dezembro, ao facilitar no combate à pandemia. Esperemos que não facilite agora no apoio à economia. Leia o Especial do economista Ricardo Santos.

Os dados revelados esta sexta-feira demonstram que ao contrário do temido por muitos, a economia Portuguesa até suportou melhor o confinamento do que há um ano. Em Portugal, tal como nos restantes países europeus, os confinamentos do último outono e inverno não tiveram o mesmo impacto económico. Houve menos setores as fechar e as pessoas (e a economia) adaptaram-se melhor.

No entanto, isso não quer dizer que este confinamento tenha deixado a economia incólume. Esta queda de 3.3% face ao último trimestre de 2020, ainda que tenha sido menor do que as quedas de 4% e 14% registadas nos dois primeiros trimestres do ano passado, foi maior do que o estimado pela Comissão Europeia nas suas últimas estimativas de inverno (uma queda de 2.1%), e poderá levar por si só a uma revisão em baixa da estimativa de crescimento do Governo para este ano, que passaria de 4% para 3.5%, cada vez mais longe do valor de perto de 5% esperado há alguns meses.

Para além disso, esta queda foi a maior de todos os países da área do euro e da União Europeia. Em média, o PIB terá caído 0.6% na área do Euro, e no país mais próximo de Portugal, a Alemanha, a queda foi praticamente metade (1.7%) Para se salvar o Natal em dezembro, não só se perderam vidas, como se provou que não há economia sem controlo da pandemia.

Fonte: Eurostat e cálculos próprios

Este desempenho traz Portugal para o topo de uma tabela onde ninguém quer estar. Depois deste trimestre, o PIB português caiu 9,3% desde o início da pandemia. Praticamente o mesmo valor que o PIB dos nossos vizinhos espanhóis, mas bastante menos do que a média da área do euro (5.7%). Portanto, depois de termos sido, no início do ano, os campeões da pandemia, somos também agora os campeões do seu impacto na economia.

Mas e o que esperar daqui para a frente, agora que a pandemia está bastante controlada, acabou o estado de emergência, e que a vacinação começa a ganhar ritmo?

Comecemos pelo que nos dizem os dados já disponíveis para o segundo trimestre. Conforme se pode ver pelo gráfico em baixo, a confiança quer dos empresários tem vindo a subir muito rapidamente, quer na área do euro, quer em Portugal, já para níveis superiores aos verificados após os primeiros confinamentos na primavera passada.

Fonte: Comissão Europeia

No entanto, esta subida e mais expressiva para já na área do euro do que em Portugal e existem diferenças significativas entre os sectores. Na área do euro, a indústria, mais exposta ao ciclo global, passou quase incólume a este confinamento e está até acima dos níveis verificados antes da pandemia. Já nos serviços, que estão mais expostos as restrições dos confinamentos, a atividade está ainda longe dos níveis verificados no início de 2020. Outros indicadores, como os publicados pelo Banco de Portugal e pela OCDE, que medem a atividade total da economia numa base semanal apontam para subidas assinaláveis já no mês de Abril, o que indica que mesmo com algumas restrições em vigor em Abril, a economia esta a recuperar muito rapidamente.

E para aos próximos meses, assumindo que não temos mais surpresas da pandemia, podemos esperar praticamente só boas noticias:

  1. Cada vez menos restrições de atividade
  2. Mais vacinas e assim ainda mais confiança, o que juntando ao nível recorde de poupança de famílias e de empresas, deverá levar a uma forte expansão do consumo, investimento, e principalmente, de um setor crítico para Portugal: o turismo
  3. Ainda quanto ao turismo: a gestão da pandemia foi mais conservadora do que no ano passado daí que este verão, o turismo possa correr melhor do que em 2020, principalmente porque a vacinação esta a avançar rapidamente no principal mercado: o Reino Unido
  4. Mais crescimento económico um pouco por todo o mundo já que as locomotivas da economia mundial, a China e os EUA, estão a acelerar fruto de estímulos económicos recorde
  5. E depois do verão, chegarão finalmente as primeiras munições da bazuca

Claro que nem tudo são rosas – antes demais a própria pandemia pode estragar este cenário, mas vamos assumir que estará controlada ate ao final do ano na Europa e em 2022 em todo o mundo como dizia há pouco tempo Bill gates – por muito que a atividade recupere, há setores mais afetados do que outros e alguns até continuam fechados. E claro, depois de uma recessão tão grande há feridas que se vão demorar a sarar.

E se é verdade que a poupança e os depósitos de empresas e famílias estão em níveis recorde, também é verdade que o endividamento das empresas voltou a subir, e que por escolha do governo, Portugal optou mais por apoios indiretos e garantias do que por apoios diretos a economia. Esta escolha levou a uma menor subida da divida publica do que outros países, mas leva também a maiores riscos nesta fase: as empresas estão bastante mais frágeis.

E nada espelha melhor esses riscos do que a elevada percentagem de empréstimos em moratória, que atinge perto de 30% nas empresas, o valor mais alto dos países da União Europeia. Se a recuperação for lenta, Portugal poderá entrar num circulo vicioso: muitas destas empresas poderão falir, atrasando ainda mais a recuperação e alguns destes empréstimos tornar-se-ão incobráveis, implicando perdas por parte dos bancos, e como sabemos bem da ultima crise, levar então a menos credito para empresas viáveis e até eventualmente a custos para os contribuintes.

Conclusão

Portugal teve no último trimestre a maior queda do PIB da área do euro e da União Europeia. A recuperação que se esperava no ano passado não foi bem em V, mas o impacto deste confinamento não foi tão mau como o de há um ano e a retoma tem tudo para ser sólida daqui para a frente.

No entanto, ainda que a emergência pandémica pareça ter terminado, a emergência económica vai demorar mais a terminar. Importa pois não retirar os apoios, antes alterá-los para se centrarem nos setores que mais precisam e passar para medidas que apoiem a solvabilidade das empresas em vez de liquidez – estas últimas medidas estarão de resto a ser consideradas de acordo com as últimas intervenções do ministro da Economia. Portugal errou em dezembro, ao facilitar no combate à pandemia. Esperemos que não facilite agora no apoio à economia.

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