Estrangeiros, a trabalhar em Portugal. Como mitigar o isolamento dos colaboradores?premium

Desde março do ano passado que atravessamos um contexto atípico. O isolamento é um dos problemas mais notórios. As empresas podem ser só empresas ou escolher assumir um papel atento e cuidador.

Desde do ano passado, milhares de portugueses foram obrigados a transferir os escritórios para as suas casas, com o objetivo de evitar a propagação do novo coronavírus. Especialistas e estudos têm vindo a demonstrar que o impacto do teletrabalho na saúde mental dos colaboradores é real, e que obriga a uma atenção redobrada por parte das empresas, de modo a garantir o bem-estar, físico e emocional, das suas pessoas.

O isolamento é um dos problemas mais comuns, sobretudo quando nos referimos a trabalhadores estrangeiros, muitas vezes sozinhos em Portugal ou até recém-chegados. Para muitos deles, o empregador é mesmo a "cara mais familiar" que têm em Portugal e a pandemia foi uma autêntica prova de fogo, superada, muitas vezes, graças a empresas atentas e que fazem realmente a diferença na vida dos seus funcionários.

Na Webhelp Portugal, cerca de 56% dos colaboradores são estrangeiros. Para estes, impossibilitados de viajar até aos seus países de origem para visitar família e amigos, a pandemia da Covid-19, e sobretudo os períodos de confinamento obrigatório, foram especialmente difíceis, provocando um isolamento que nunca tinham experimentado. Basant Mittal, senior team leader na Webhelp Portugal, é um destes colaboradores de origem estrangeira, mais concretamente de origem indiana.

O desconhecimento da língua portuguesa foi, talvez, o maior desafio que enfrentou ao longo do ano passado, conta em conversa com a Pessoas. "Tendo eu próprio sido também infetado e estando num país completamente diferente do meu, julgo que não é difícil imaginar os momentos complicados que vivi", recorda, acrescentando que a falta de visibilidade sobre a evolução da pandemia no país, bem como sobre as orientações do Governo, dificultaram-lhe ainda mais a vida. Foi a Webhelp que o ajudou, bem como aos seus colegas na mesma situação, a manter-se atualizado. "As equipas de RH e de comunicação mantiveram-nos regularmente informados sobre todas as notícias e declarações nacionais do Governo", diz.

Além disso, a empresa desenvolveu um conjunto de iniciativas, como cursos de línguas, formações de desenvolvimento organizacional e validações regulares do bem-estar geral dos colaboradores. Por outro lado, para manter a proximidade, a tecnológica apostou por reuniões regulares entre equipas, dicas para combater o stress e promover o bem-estar e incentivo à prática de exercício físico. O objetivo é "ajudar os colaboradores nas diferentes dimensões das suas vidas", afirma Lina Jesus, diretora de recursos humanos da Webhelp Portugal.

"É muito improvável que se tenha passado pelos diferentes períodos de diferentes confinamentos e desconfinamentos sem algum tipo de mazelas em termos de saúde mental.”

Lina Jesus

Diretora de recursos humanos da Webhelp Portugal

"É muito improvável que se tenha passado pelos diferentes períodos de diferentes confinamentos e desconfinamentos sem algum tipo de mazelas em termos de saúde mental", continua. Mas parece que as medidas implementadas surtiram efeito: "Sinto que se não tivesse sido a Webhelp, e a ligação que manteve, teria sido complicado não sucumbir à distância, de colegas, familiares ou amigos durante o último ano", assume Basant Mittal.

Já para Guilherme Arnoldi, natural do Brasil e um dos 5% de colaboradores estrangeiros do InterContinental Porto, os níveis de ansiedade e stress dispararam com a pandemia, influenciando mesmo o seu desempenho no trabalho. "Apesar de ter o apoio presencial da minha noiva e virtual da minha família e dos meus amigos, é um grande desafio manter um alto nível de produtividade e ânimo com tamanha incerteza sobre o futuro e mesmo sobre o presente", diz. "Sabemos que em algum momento a situação vai tornar-se mais próxima da realidade antes da pandemia, mas o caminho entre hoje e esse momento torna-se ainda mais exigente, no que toca a manter a calma e o foco", continua.

Atividades lúdicas, videochamadas e webinars para mitigar isolamento

Ciente das dificuldades adjacentes ao confinamento, o InterContinental Porto tentou manter a união entre os colaboradores e mitigar o isolamento através de diversas atividades online. "No Dia Internacional da Felicidade, a equipa InterContinental Porto participou num 'Bingo da Felicidade' e num 'Pop Quiz' sobre os países mais e menos felizes. De modo a manter os colaboradores ativos, todas as semanas são desafiados a resolverem um enigma que os obriga a pensar e a estimular o raciocínio lógico. Às terças-feiras, lançamos um desafio de cariz matemático ou de lógica no Facebook e as três primeiras pessoas a responder acertadamente ganham uma pontuação, que é divulgada no final da semana", conta Filipa Silva, coordenadora de recursos humanos do InterContinental Porto - Palácio das Cardosas.

Além destas atividades mais lúdicas, o hotel no Porto reúne de duas em duas semanas a equipa nas chamadas "cofeenment sessions", que têm como objetivo trocar informações sobre novidades do hotel e sobre os respetivos colaboradores. "Esta iniciativa permite manter a união do grupo e lembrar que, mesmo em casa, todos são importantes no desenvolvimento da unidade hoteleira", explica.

A pensar no bem-estar dos colaboradores, o Intercontinental Porto decidiu, ainda, disponibilizar um personal trainer para que todos consigam fazer um pouco de exercício físico. "Todas as quartas-feiras a equipa reúne-se numa sessão de cardio online que os mantém ativos e ajuda a lidar com o stress", continua Filipa Silva.

Todas estas iniciativas foram, para Guilherme Arnoldi, "ótimas", contribuindo "como um fator normalizador". "Na maioria dos casos, o envolvimento dos colaboradores nas ações do hotel ajudou a manter-nos longe da inércia, mesmo sem estar a trabalhar, o que mentalmente é um grande contributo. Foi muito bom ter esse apoio por parte do hotel e saber que, mesmo à distância, somos uma equipa e que estamos todos a passar pelo mesmo e a sofrer as consequências do confinamento, mas estamos unidos e a ajudar-nos mutuamente a manter a calma, a positividade e a motivação", remata.

Saúde mental, de uma "preocupação" a um "assunto fulcral"

Para a coordenadora de recursos humanos do InterContinental Porto, implementar este tipo de iniciativas era mesmo a única hipótese. "Tínhamos de agir e criar meios para manter o grupo unido e ligado ao hotel, caso contrário íamos perder tudo aquilo que construímos em equipa ao longo destes anos", refere, acrescentando que a saúde mental dos colaboradores sempre foi uma "preocupação", mas que, agora, se tornou um "assunto fulcral".

"Para além de todas as atividades que fomos promovendo ao longo do confinamento, no sentido de manter o bem estar de todos, às segundas-feiras partilhamos sessões online de meditação e práticas de ioga, às terças palestras motivacionais, de coaching e de PNL (Programação Neurolinguística) e às sextas-feiras sessões online de exercícios", conta. Um calendário completo que serve para motivar os colaboradores, estreitar relações e reforçar a cultura empresarial, que agora é transmitida e incutida à distância.

"Tínhamos de agir e criar meios para manter o grupo unido e ligado ao hotel, caso contrário íamos perder tudo aquilo que construímos em equipa ao longo destes anos.”

Filipa Silva

Coordenadora de recursos humanos do InterContinental Porto

Na Bosch, criar relações "significativas" com as pessoas é uma prioridade. São essas relações que permitem que os colaboradores se sintam integrados e, consequentemente, mais comprometidos. Atenta às dificuldades das suas pessoas, a Bosch Termotecnologia, que neste momento, em Aveiro, conta com 2% de colaboradores expatriados -- um número que, atualmente, por diversas razões e nomeadamente devido à situação da pandemia tem reduzido --, considera que o papel dos managers é crucial para garantir o acompanhamento dos colaboradores e prestar atenção a situações de risco.

"Encorajamos os managers a fazerem uma gestão individualizada das situações específicas das suas equipas de forma a minimizar o impacto desta pandemia", avança Joana Lino, diretora de recursos humanos da Bosch Termotecnologia. Em termos concretos, a materialização da tentativa de mitigar o isolamento aconteceu, como um pouco pela generalidade das empresas, através de atividades desportivas remotas, workshops, apoio psicológico gratuito e disponibilização de serviços médicos para funcionários e as suas famílias. Para os expatriados, em concreto, a tecnológica permitiu que, sempre que foi possível viajarem, passassem temporadas mais alargadas nos seus países, de forma a não se sentirem tão isolados em Portugal. Além disso, como viajavam com mais regularidade, foram-lhes disponibilizados kits de proteção e efetuados testes à Covid-19 antes e depois da viagem.

Christoph Bauerdick, product owner in software engineering na Bosch Termotecnologia, jamais esqueceria o primeiro dia em que foram registados os primeiros casos de Covid-19 em Portugal. Não propriamente pelos casos em si, mas porque foi o dia do nascimento da sua filha. "Estar num país estrangeiro e ter de adaptar a vida familiar no meio de uma pandemia foi um grande desafio. No entanto, estou muito grato pelo apoio que me foi prestado pela Bosch, colegas e amigos portugueses", admite.

Ainda que já estivesse habituado à colaboração remota, o home office foi uma novidade para Christoph Bauerdick, e revelou ter duas faces: por um lado traz flexibilidade, por outro traz alguma dificuldade em separar fronteiras entre vida profissional e pessoal. "Ter a possibilidade de almoçar com a família e economizar tempo no trajeto até o escritório é uma grande conquista, mas, com o teletrabalho, o trabalho tem vindo a ficar cada vez mais denso. Estar permanentemente em casa requer uma comunicação intensificada e coordenada. Essa densidade de trabalho acaba por refletir-se na organização do nosso dia-a-dia, e é importante criar o hábito de manter os horários e não cair na tentação de à noite ir 'ver só mais um email'", considera.

Mais de 95% dos colaboradores da Bosch gostariam de ter um modelo híbrido

 

Para perceber como deve preparar o futuro do trabalho, a Bosch tem vindo a ouvir as suas pessoas, e já tem alguns resultados sobre a pesquisa. Cerca de 95% das pessoas consideram "muito positiva" a ideia de implementar um modelo híbrido de trabalho até um máximo de três dias por semana. Além disso, os dados foram também muito claros sobre o que os colaboradores querem ir fazer à empresa: colaboração e interação com colegas.

"Apesar de, antes da pandemia, já termos na Bosch a possibilidade de fazer trabalho remoto, neste momento a nossa ideia é tornar esta possibilidade ainda mais flexível. Ainda não temos o modelo finalizado, uma vez que estamos a fazer alguns focus group para obter mais informação de modo a que o modelo implementado sirva as diferentes realidades que temos na empresa. O importante para nós, mais uma vez, é garantir que as pessoas são ouvidas e que aquilo que venha a ser definido faça sentido para elas e para o negócio", revela Joana Lino.

"Apesar de, antes da pandemia, já termos na Bosch a possibilidade de fazer trabalho remoto, neste momento a nossa ideia é tornar esta possibilidade ainda mais flexível.”

Joana Lino

Diretora de recursos humanos da Bosch Termotecnologia

Também a Webhelp e o InterContinental Porto estão, neste momento, a analisar os modelos que melhor funcionarão no futuro. No caso do hotel ainda nada está determinado, sendo que se aguarda a decisão do comité executivo. Já na empresa com sede em Paris, "provavelmente" será implementado um modelo misto, "com projetos em teletrabalho, outros em modelo híbrido e outros presenciais, devido ao apertado nível de segurança que requerem", avança a diretora de recursos humanos.

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