O caso do país que vacinou muito mas teve de fechar tudopremium

Os dois grandes objetivos da UE para este primeiro trimestre ficaram longe de ser alcançados. Mas há um país vítima do sucesso do seu processo de vacinação. Leia o Novo Normal desta semana.

Foi mais uma semana de balbúrdia europeia sobre vacinas, afastando, ainda mais, os indicadores dos 27 dos grandes casos de referência internacionais na vacinação contra a covid. Entre 1 e 8 de abril:

  • foram administrados 24,16 milhões de vacinas nos EUA

  • 3,3 milhões no Reino Unido

  • 12,61 milhões na União Europeia

  • 155 mil em Israel

Ajustando estes dados à população, nestes oito dias:

  • nos EUA foram administradas 0,90 vacinas por cada 100 habitantes

  • 0,65 vacinas por 100 habitantes no Reino Unido

  • 0,35 vacinas na UE/100 habitantes

  • 0,25 por cada 100 habitantes em Israel

É verdade que foi uma semana atípica, com o fim de semana prolongado da Páscoa - mas foi assim em todo o lado, e esse facto faz particular diferença em Israel, que claramente abrandou o ritmo de vacinação nestes dias, ficando, por isso, atrás da UE pela primeira vez nos dados diários de vacinação. O facto é que quando a União Europeia mais precisa de galgar terreno para tentar não ficar para trás em relação aos melhores alunos da vacinação contra a covid, não só não recupera como fica cada vez mais para trás.

Este gráfico, com o acumulado de vacinas administradas por dia, ajustado à população, mostra como essa distância se tem alargado:

Enquanto os Estados Unidos estão em velocidade de cruzeiro, sendo atualmente o país do mundo que mais doses administrou em valor absoluto (169 milhões) e em valor ajustado à população, bem como o país grande que mais vacina por dia (1.226 vacinas por cada 100 mil habitantes), a semana europeia foi dominada por novas hesitações em relação à vacina da AstraZeneca, decisões contraditórias dos vários países sobre o que fazer com esse fármaco, e reforço do unilateralismo na negociação de vacinas à margem da Comissão Europeia, com a Alemanha a assumir que avançará mesmo por conta própria nas conversações com a Rússia por causa da Sputnik V.

UE falhou todas as metas

Em média, a União Europeia já vacinou 16% dos adultos com a primeira dose, de acordo com os dados do Centro Europeu de Controlo de Doenças (ECDC na sigla inglesa). Este valor compara com os 61% de Israel, quase 47% do Reino Unido e 33% dos EUA. No quadro abaixo é sobre a percentagem da população já totalmente vacinada, segundo o site Our World in Data, da Universidade de Oxford (acrescentei também outros países, como o Chile, que perceberá porquê mais abaixo).

Com o primeiro trimestre de vacinação concluído, o balanço europeu é pouco menos do que deprimente. Esta é a situação relativa das várias zonas do globo:

Os dois grandes objetivos da UE para este primeiro trimestre ficaram longe de ser alcançados: nem se chegou à fasquia de vacinar 80% da população acima dos 80 anos, nem aos 80% do pessoal de saúde.

Ontem, já com uma semana para além do final do trimestre, só 62% da população acima dos 80 tinha recebido a primeira dose, e apenas 37% estava totalmente vacinada. Neste ponto, Portugal é dos países que estão na frente da corrida: cumpriu a meta dos 80% no final de março, e ontem estava nos 85% de vacinados com a primeira dose, e 44% com as duas doses.

Na análise dos trabalhadores do setor da saúde já vacinados, os dados também são decepcionantes: a primeira dose só chegou a 64%. Mas estes dados têm um enorme senão - reportam-se apenas a metade dos países da UE. Portugal, por exemplo, não está incluído. Ao Expresso, o Ministério da Saúde assegurou que os profissionais de saúde considerados prioritários estarão todos vacinados até este domingo, o que cumprirá uma das metas intercalares estabelecidas pela Comissão Europeia.

Com tão fraco desempenho na comparação com os melhores do mundo, o que faltava à União era mesmo uma nova divergência. Aí está ela, agora (outra vez!) sobre a vacina da AstraZeneca. Depois da Agência Europeia do Medicamento (EMA) ter admitido que há uma associação entre esta vacina e os casos raros de coágulos sanguíneos que provocaram tromboses, cada país seguiu o seu caminho sobre o que fazer com essa informação. A EMA não conhece ainda os contornos precisos dessa associação, e não recomendou a suspensão da vacina, nem sequer a limitação da sua administração a quaisquer grupos demográficos (nem por género, nem por idade, nem por antecedentes de saúde), mas uma dezena de Estados - incluindo Portugal - decidiram impor as suas próprias restrições.

Vacina russa? Comissão diz que não chega a tempo...

Com mais esta limitação, a pressão para procurar vacinas alternativas aumentou. A Alemanha assumiu aquilo que vinha ameaçando fazer há várias semanas: vai negociar bilateralmente com a Rússia a compra da vacina Sputnik V.

O ministro alemão da saúde, Jens Spahn, disse que quer comprar diretamente à Rússia a Sputnik V, assim que esta receba luz verde do regulador europeu do medicamento. Spahn está sob enorme pressão política interna, tanto pelos problemas na campanha de vacinação alemã e dificuldades em controlar a pandemia, como por suspeitas sobre o seu património e por o governo ter comprado milhões de máscaras a um fornecedor a que o seu marido está ligado. Tem tentado contrariar a má imprensa mostrando-se crítico das falhas da Comissão Europeia e ativo na procura de soluções alternativas. O governo do estado da Baviera já tinha anunciado a intenção de comprar 2,5 milhões de doses da vacina russa, também na condição de ser aprovada pela EMA.

A dúvida é se a Rússia representa mesmo uma alternativa, capaz de responder às necessidades da Europa neste momento. Thierry Breton, o comissário europeu do mercado interno, responde que não: a Rússia não tem capacidade de exportar no imediato para a Europa quantidades de vacina que façam a diferença. Se a questão é acelerar a vacinação no segundo trimestre, com vista a um verão “normal”, isso não será conseguido indo às compras a Moscovo. Nem a Pequim.

Vale a pena ler os argumentos apresentados no post partilhado pelo comissário europeu na rede Linkdin. Eis os meus destaques:

  • A capacidade de produção das vacinas dentro da UE está a crescer, com a criação de uma rede de fábricas e outras unidades de produção que poderão dar escala às vacinas já aprovadas - da Pfizer, da Moderna, da AstraZeneca e da Johnson & Johnson. Em avaliação, e já com contratos de compra, estão as vacinas da CureVac, Sanofi-GSK, NovaVax e Valneva.

  • A capacidade de produção de vacinas contra a covid dentro da UE está a duplicar a cada mês que passa. Já há 53 unidades de produção por toda a UE a contribuir para este esforço.

  • Foram entregues 108 milhões de vacinas aos 27 durante o primeiro trimestre; serão entregues 360 milhões no segundo (e este valor só depende marginalmente da AstraZeneca - sendo que a produção europeia da AZ ficará, essencialmente, dentro das fronteiras da UE, o que poderá afetar a campanha de vacinação britânica, que depende em dois terços do que é fabricado no continente).

  • Com doses suficientes para inocular 70% da população adulta até ao verão, no segundo trimestre a questão será mais a capacidade dos Estados administrarem essas vacinas com rapidez, e não tanto a sua disponibilidade.

  • “O nacionalismo das vacinas não faz sentido” (terão ouvido em Berlim?...)

  • As vacinas da Rússia e da China “podem juntar-se ao portfolio de vacinas da Europa e contribuir para cumprir o objetivo de imunidade até ao verão de 2021? Temo que a resposta seja não. Qualquer companhia que queira começar a produzir uma nova vacina precisa pelo menos de 10 meses. Portanto, não haveria doses de nenhuma dessas vacinas antes do final do ano. É por isso que temos de concentrar os esforços de capacidade de produção industrial da Europa nas vacinas que já estão autorizadas ou quase autorizadas [pela EMA]."

O que Thierry Breton vem reconhecer é que a Europa está a fazer agora, em versão apressada, o que os Estados Unidos fizeram há um ano, quando Donald Trump lançou a Operação Warp Speed, uma parceria público-privada com vista a acelerar o desenvolvimento e testes das novas vacinas, e preparar a maior cadeia de produção e distribuição possível para, em pouco tempo, ganhar grande escala no fabrico de vacinas e ter estruturas no terreno para a sua administração.

A UE fez a sua parte no apoio à investigação, desenvolvimento e testagem dos fármacos, mas confiou na capacidade dos fabricantes, que garantiram que conseguiriam escalar a produção de forma a entregar rapidamente os milhões de vacinas contratados. Esse foi o erro fatal da Comissão Europeia, que só demasiado tarde se pôs no terreno para criar essa rede. Este ensaio de Abel Mateus, publicado no Observador (acesso pago), é das melhores análises que li sobre a diferença entre o que se passou nos dois lados do Atlântico.

Sendo um excelente trabalho, falha num ponto importante: esquece que os EUA optaram por uma política de fronteiras fechadas, recusando a exportação de vacinas para outros países (apenas autorizaram vendas residuais aos vizinhos México e Canadá), mesmo no caso da vacina da AstraZeneca, que ainda não começou a ser administrada pelos americanos, por ainda não ter autorização do regulador federal. A UE, pelo contrário, optou por permitir exportações, sobretudo para os países mais pobres, apoiados pelo programa solidário internacional COVAX, mas também para países ricos que estavam a vacinar mais do que os 27 (nomeadamente Reino Unido, Israel, Canadá e até Coreia do Sul). Por essa razão, enquanto 88 milhões de doses foram distribuídos pelos 27, outros 77 milhões saíram do bloco, das quais 31 milhões para a COVAX e 21 milhões para o Reino Unido, segundo dados revelados por Ursula von der Leyen.

Uma ingenuidade? “A UE é e continuará a ser um player global. É uma questão de solidariedade, de reconhecer que a nossa própria imunidade depende da imunidade dos nossos vizinhos, e de assumir que as cadeias de valor estão interligadas”, justifica Thierry Breton. Mas acrescentando que os instrumentos de controlo de exportação vão ser reforçados.

...e a Eslováquia não recomenda

Mas por que razão a Comissão Europeia põe de parte a hipótese de adquirir a vacina russa, que já está sob avaliação da EMA? Não tem só a ver com as dúvidas sobre a sua segurança e eficácia - embora estas sejam questões ainda em aberto. A Agência Europeia tem previstas inspeções à fábrica onde são produzidas as vacinas na Rússia (mas os russos estão a adiar essa inspeção, dizendo que darão prioridade às visitas de representantes de países que tenham contratos de aquisição), e vai também investigar se os testes laboratoriais cumpriram as boas práticas clínicas do ponto de vista ético e científico. Segundo o Financial Times, que deu a notícia, há suspeitas de que alguns “voluntários” da fase 3 de testes o terão sido à força, nomeadamente membros das Forças Armadas russas.

E há a questão da capacidade de produção. Na Rússia, é limitada, para dizer o mínimo. Há relatos de vários países em desenvolvimento que fizeram encomendas e continuam à espera de as receber, ou receberam menos do que encomendaram. O Kremlin fez da Sputnik V uma arma de projeção de soft power diplomático, prometendo “uma vacina para toda a humanidade”, como se lê no site da vacina. Mas não tem capacidade de produção à altura da promessa. “Questionamo-nos porque é que a Rússia teoricamente está a oferecer milhões e milhões de doses enquanto não consegue vacinar o seu povo. esta questão deve ser respondida”, salientou Ursula von der Leyen.

A distribuição de vacinas no território russo está muito aquém do que seria expectável num país que tem feito tanto alarido do seu sucesso. Até agora, só 5,4% da população russa recebeu a primeira dose - um atraso que também tem a ver com a desconfiança da população em relação a esta vacina altamente politizada. Segundo a última sondagem conhecida, 62% dos russos dizem que não querem receber a vacina com nome de foguetão da Guerra Fria...

A escassez de vacinas dentro da Rússia é tal que os planos para filmar Vladimir Putin em janeiro a receber a injeção ficaram no congelador - alegadamente para não provocar uma corrida do povo às vacinas. Outras vozes garantem que nem Putin confia na fiabilidade da vacina russa, por essa razão foi noticiada a sua vacinação há duas semanas, mas sem imagens. E nunca foi oficialmente confirmada qual a vacina que o líder russo terá recebido.

Para compensar a fraca produção doméstica, a Rússia está a importar a sua própria vacina da Coreia do Sul. Também fez grandes encomendas à Índia, que é a mega-fábrica de vacinas global, mas este país tem recebido encomendas de muitas marcas (a AstraZeneca depende muito da produção indiana), e está a apertar a malha, colocando cada vez mais entraves à exportação, por estar a enfrentar o maior pico da pandemia - o fluxo de exportação será, provavelmente, bastante reduzido nos próximos meses.

Neste quadro, é improvável que o Instituto Gamaleya tenha capacidade para responder a eventuais encomendas de países europeus. Precisamente para compensar essas dificuldades, os russos têm pré-acordos com algumas fábricas europeias (nomeadamante uma fábrica alemã, na Baviera), mas o esforço da Comissão para reunir o máximo de capacidade de produção para as vacinas ocidentais pode dificultar essa ambição.

Há ainda outro problema com a vacina russa, detetado esta semana pelas autoridades de saúde da Eslováquia. O país foi o segundo membro da UE a encomendar a vacina russa, depois da Hungria, e já recebeu 200 mil doses. Porém, parece ser um daqueles casos de compras online em que o produto que chega não é igual ao que foi anunciado. Por incrível que pareça, as autoridades eslovacas analisaram um lote recebido e garantem que a vacina não corresponde às caraterísticas da Sputnik V que foi analisada num estudo da revista Lancet e está a ser analisada pela EMA.

O organismo regulador do medicamento na Eslováquia avisa que não está em condições de confirmar os riscos e benefícios do produto que o país recebeu, pois não tem informação suficiente. Acusações classificadas como “fake news” pelo fundo de investimento russo que financiou a Sputnik.

É o segundo sarilho em que a Eslováquia se meteu por causa da vacina russa. O negócio já custou o lugar ao primeiro-ministro, que fez a encomenda a Moscovo à revelia dos outros partidos da coligação do governo.

O pior país da UE é um dos que mais vacinou

Enquanto alguns países europeus procuram alternativas às compras da Comissão Europeia e outros fazem figas para que o aumento de entregas neste segundo trimestre seja mesmo uma realidade, a terceira vaga está a atingir em cheio o Centro e Leste da Europa.

Com as atuais taxas de vacinação, não há imunidade de grupo que evite uma nova vaga. Mesmo em Portugal e Espanha, que achataram a curva após a terceira onda. Portugal continua, pela quarta semana, como país com menor incidência de novos casos, mas os valores estão a subir.

Espanha também está com indicadores relativamente baixos, na comparação com a UE, mas igualmente a subir, de forma sustentada e a ritmo cada vez mais acelerado, o que faz com que as autoridades espanholas temam que o país esteja mesmo a entrar na quarta vaga, como relata o El Pais. Sobem as novas infeções (174 por 100 mil habitantes na média de 14 dias - em Portugal, a linha vermelha está nos 120), e o número de testes positivos também - a positividade estava esta sexta-feira nos 8,18% (em Portugal o limite aceitável é 4% de testes positivos).

Neste contexto, deve Portugal prosseguir o desconfinamento - nomeadamente nas escolas e o interior de restaurantes - sem poder contar com a imunidade comunitária para travar futuros contágios? Manuel Carmo Gomes, um dos peritos que definiram as linhas vermelhas para o desconfinamento, entende que sim… mas só se tudo for muito controlado e monitorizado. “Há uma fração ainda muito significativa de portugueses que pode contrair a infeção pelo novo coronavírus e essa fração é suficientemente grande para virmos a ter uma quarta onda, um ressurgimento da infecção, caso o desconfinamento ocorra demasiado depressa relativamente ao processo vacinal”, disse ao Público o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, co-autor do artigo “Controlling the pandemic during the SARS-CoV-2 vaccination rollout: a modeling study”, que aguarda publicação na revista Nature, subscrito por oito investigadores portugueses e holandeses.

Se não é possível acelerar a vacinação, há que adiar as últimas etapas do desconfinamento, é a recomendação. “Temos aqui duas forças contraditórias: a vacinação, que protege, e o desconfinamento, que aumenta o número de contactos.”

Há algum consenso sobre o nível de proteção a partir do qual pode haver imunidade de grupo: acima de 70% de população com anticorpos. Porém, a variante britânica, que já representa mais de 83% dos novos casos em Portugal, por ser mais transmissível e aparentemente mais capaz de resistir a algumas vacinas, pode exigir níveis mais altos de cobertura.

Apesar disso, o Reino Unido acredita que atingirá a imunidade de grupo na semana que vem. Nesta segunda-feira, 73,4% da população britânica terá recebido a primeira dose da vacina.

Entre os 27, um dos países mais adiantados na vacinação é a Hungria, que conta com vacinas russas e, sobretudo, chinesas. Os húngaros já deram a primeira dose a 32% da população, o que não impediu uma violenta terceira vaga. Pelos dados do ECDC, na última semana a Hungria foi o país da UE com maior incidência da covid-19, com 1118 casos por cem mil habitantes. Ironicamente, uma das razões para este descontrolo pode ter sido o excesso de confiançaincutido pela taxa de vacinação.

Chile, uma espécie de Israel do avesso

Há outro país que, por estranho que pareça, está a ser vítima do sucesso do seu processo de vacinação. No Chile, metade dos adultos já receberam a primeira dose.

Fica atrás de poucos - Israel é o campeão da vacinação, seguido de pequenos países como as Seychelles e o Reino do Butão, depois, os Emiratos Árabes Unidos e o Reino Unido. Mas quando olhamos para a percentagem da população que já recebeu as duas doses, o Chile, com 22% da população totalmente vacinada, surge bem à frente do Reino Unido, que optou por inocular o máximo de pessoas com a primeira injeção e adiar a segunda (só 9% dos britânicos têm a vacinação completa).

Com uma população de quase 19 milhões, o Chile já administrou mais de 11 milhões de vacinas.

Apesar deste bom desempenho, o país viu disparar, outra vez, as infeções. Este mês, o Chile ultrapassou, pela primeira vez, os sete mil novos casos diários, fasquia nunca antes alcançada - nem na primeira vaga, no verão passado, nem na segunda, a seguir ao Natal. Do Reino Unido chegou esta semana um alerta para que se olhe com atenção para o que se está a passar no Chile e se compreendam as lições.

O governo de Santiago do Chile voltou a fechar fronteiras e a decretar um novo lockdown nacional, endurecendo medidas de restrição de movimentos e de convívio social que ainda se mantinham em vigor por causa da vaga que atingiu o país depois do Natal. Entre as medidas reintroduzidas no início de abril está o encerramento de boa parte da atividade económica não essencial, bem como de escolas e recintos desportivos.

A nova vaga de infeções voltou a deixar os hospitais apinhados e o serviço de saúde chileno à beira do colapso.

O chefe médico do Reino Unido olhou para o que se passa no país do Hemisfério Sul, comparou com a situação britânica, e deixou o aviso: “Esta é a razão por que queremos fazer as coisas de forma cautelosa: a presunção de que só por vacinarmos muita gente o problema desaparece… o Chile contraria isso”, disse Chris Whitty, o equivalente britânico do diretor-geral de saúde.

Numa conferência de imprensa para travar os ímpetos de quem exige um desconfinamento mais rápido no Reino Unido, Whitty chamou a atenção para o contraste entre Israel, onde a vacinação rápida está a coincidir com uma grande queda da incidência do vírus, e o Chile, onde está a acontecer o oposto. Porquê? “Ainda não sabemos… temos de aprender com esses dois países.” O responsável britânico pôs várias hipóteses para explicar duas experiências tão diferentes, desde o timing das vacinações às vacinas usadas, passando pelo surgimento das novas variantes.

As declarações de Whitty surgiram um dia depois de Boris Johnson ter anunciado que lojas, cabeleireiros e pubs reabrem na segunda-feira, e que irá manter-se “colado” ao plano de desconfinamento desenhado há semanas. Johnson está entre dois fogos: uma ala do seu partido que exige um levantamento mais rápido das restrições, e os seus dois principais conselheiros científicos e de saúde, que defendem que algumas medidas de distanciamento social deverão prolongar-se pelo menos durante mais um ano.

Esta é a grande dúvida colocada pelo caso do Chile: porque é que um país com tanta população já vacinada assiste a um crescimento repentino de novos contágios? Porquê o contraste com Israel?

Em Israel, a incidência teve uma enorme redução e a vida praticamente voltou ao normal. De nove mil casos diários a meio de janeiro, o país caiu para cerca de trezentos esta semana. Eran Segal, biólogo computacional do Weizmann Institute, calcula que desde o pico de infeções em janeiro os novos casos diários caíram 96%, os doentes em estado crítico diminuíram 90% e as mortes imputadas à covid tiveram uma redução de 85%.

Portugal também registou uma descida dramática em todos estes indicadores - mas à força de confinamento. E, agora que estamos a reabrir, o receio de uma quarta vaga é real. Foi o que aconteceu em Israel após as duas primeiras ondas da pandemia: a primeira vaga, no verão, obrigou a um primeiro lockdown, e o número de casos acabou por ficar num planalto; a segunda vaga, no outono, impôs um novo confinamento geral, que mal foi levantado levou à terceira vaga, que teve o seu pico a meio de janeiro. Entretanto, o país estava a vacinar como nenhum outro. Resultado: a incidência baixou, o índice de contágio também, as atividades foram sendo retomadas e, desta vez, a curva não voltou a subir.

Neste momento, a vida em Israel voltou quase ao normal. Lojas, escolas, bares, restaurantes e locais de espetáculo reabriram, apesar de continuarem em vigor algumas regras relativas ao número de pessoas que se podem juntar e ao uso de máscaras. Por outro lado, o acesso a espaços fechados como ginásios, restaurantes, hotéis, cinemas ou locais de culto, implica a exibição do passaporte de vacinação - só entra quem prova que já foi vacinado (uma condição que só pode ser imposta num país onde a primeira dose da vacina já chegou a quase toda a gente).

As praias de Tel Aviv estão a abarrotar e os bares e esplanadas voltaram a encher-se ao sunset, uma tradição da cidade. Há poucos dias, o principal estádio de Tel Aviv recebeu um concerto pop que marcou “o regresso da cultura”. Esta reportagem do New York Times, publicada esta semana, dá um excelente retrato do “futuro pós-pandémico” da vida em Israel. “O público estava confinado aos seus lugares socialmente distanciados, dançando sem sair do sítio e cantando com as máscaras. Mas o ambiente era exuberante e confirmava o meu estatuto como membro de uma nova classe de privilegiados: os totalmente vacinados”, escreve a repórter Isabel Kershner.

Tal como se apresentou como um laboratório para o processo de vacinação (foi essa a condição para receber tantas vacinas, e tão depressa, da Pfizer), Israel será um laboratório para esse “futuro pós-pandémico”. Nem tudo são rosas.

  • Há debates acalorados (e, muitos deles, em tribunal) sobre os direitos dos que ainda não estão vacinados.
  • Quem esteve infetado e recuperou passou para o fim da lista de vacinação, e ainda não chegou a sua vez.
  • Os menores de 16 anos também ainda não começaram a receber a vacina, o que os deixa fora do regresso à normalidade.
  • Alguns setores, por razões ideológicas ou religiosas, recusam a vacinação.
  • As populações da Faixa de Gaza e da Cisjordânia continuam à espera de vacinas.

Em todo o caso, o panorama não podia ser mais distinto no Chile. O país tem uma das mais altas taxas de mortalidade da América Latina (quase 30 mil óbitos, mais de 1.500 mortos por milhão de habitantes), e só após mais um lockdown conseguiu inverter a tendência de subida de casos, internamentos e mortes. Porquê o contraste? Parece haver duas razões principais:

  • Desconfinamento demasiado rápido, com o regresso a comportamentos de risco motivado por excesso de confiança à boleia das taxas de vacinação;
  • Novas estirpes, como a variante de Manaus, confirmadamente mais contagiosas, talvez mais resistentes à vacina, mais capazes de reinfeção, e provavelmente de provocar doença mais grave.

A primeira lição do caso chileno é que a vacina não trava os contágios - mesmo com metade da população inoculada, continua a transmissão do vírus. Mesmo se os mais idosos, o pessoal de saúde e as pessoas com historial clínico de risco estão vacinados, os mais jovens e saudáveis não estão - e são eles que agora entopem os hospitais e os cuidados intensivos.

Por outro lado, o governo apressou-se a levantar as restrições, argumentando com os impactos do confinamento na economia e na saúde mental dos cidadãos. Permitiu viagens, abertura de comércio, de escolas e até de casinos. Os níveis de incidência eram altos quando a vacinação entrou em velocidade de cruzeiro - ao contrário de Israel, que acelerou a vacinação ao mesmo tempo que impôs um lockdown rigoroso. O Chile aliviou todas as restrições, internas e externas, e apostou tudo na vacinação.

A culpa será chinesa?

Há outra diferença que pode ter sido decisiva. Israel só usou a vacina da Pfizer. O Chile começou a vacinar em grande escala com a vacina da chinesa Sinovac, quando mesmo na China esta vacina só estava autorizada para menores de 60 anos.

A China ainda nem divulgou os resultados da fase 3 dos ensaios da Sinovac, e não está demonstrada a eficácia da vacina com revisão pela comunidade científica. Há indicações de que ensaios feitos na Turquia apontam uma eficácia de 83%, mas outro teste, no Brasil, terá resultado numa eficácia de apenas 50%. O sucesso da vacinação no Chile depende da eficácia da vacina chinesa...

A coincidência de uma nova vaga quando metade da população já recebeu a primeira dose de uma vacina ainda mal conhecida faz temer outro risco: que o vírus possa sofrer novas mutações. "Esta combinação não é boa, porque faz com que os vírus tendam a defender-se e a mudar. Não estranharia se, com esta situação, tivéssemos uma variante chilena", diz Muriel Ramírez, especialista em saúde pública e epidemiología, da Facultade de Medicina da Universidad Católica del Norte.

Para variantes, o Chile já tem preocupações de sobra: a estirpe de Manaus está presente no país, bem como outras oriundas do Brasil, que é atualmente um dos focos de maior preocupação mundial. O fecho de fronteiras, decretado pelos chilenos a 1 de abril, é como travar o vento com as mãos. "O que está a acontecer no Brasil é uma ameaça global", diz o responsável da Associação Médica do Chile. "Fechar as fronteiras pouco ajuda com as variantes que já cá estão, mas é importante em relação às novas variantes que estejam a surgir".

O Brasil tornou-se um viveiro de variantes (há a P.1, de Manaus, e a P.2, do Rio de Janeiro, como casos mais graves, para além de outras 90 variantes, mais banais - tem aqui um bom trabalho do Observador) e o que se passa nesse país é uma das razões por que a América Latina é uma das maiores preocupações mundiais em relação à pandemia. "Em lado nenhum as infeções são mais preocupantes do que na América do Sul", disse a diretora da Organização de Saúde Pan-Americana. Numa semana, foram mais 1,3 milhões de infeções e 37 mil mortes, com crescimentos significativos em todos os países.

"O caso do Chile estará na mira de muitos países que também têm a esperança de que a vacinação seja a bala de prata que nos permita sair da encruzilhada em que estamos", aposta Ernesto Laval, especialista em análise da dados, que adverte que "do ponto de vista da saúde pública é totalmente contraproducente transmitir uma mensagem de êxito". Mesmo se a vacinação vai de vento em popa.

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