Petróleo regressa aos 100 dólares em 2022? É complicadopremium

Dificilmente o petróleo vai repetir este ano a valorização alcançada em 2021. Analistas antecipam subidas, sem chegar aos 100 dólares. A oferta limitada impede uma queda forte na cotação.

A valorização acentuada das matérias-primas ao longo de 2021 foi um dos fatores que mais impulsionou a inflação durante os últimos meses. Para validar a tese de que a alta dos preços é transitória, a tendência no mercado de commodities teria de se inverter em 2022. Um cenário que não tem aderência nas perspetivas dos analistas, embora estes também não estimem a repetição dos ganhos de 2021.

As matérias-primas foram a melhor classe de ativos de 2021, superando o retorno de Wall Street pela primeira em 10 anos, apesar do bom desempenho das ações. O S&P Goldman Sachs Commodity Index gerou um retorno de 39% no ano passado, enquanto o S&P500 avançou 27% em 2021. O Bloomberg Commodity Spot Index, que agrupa 23 matérias-primas, valorizou 27% em 2021, o retorno mais elevado desde 2009.

A forte recuperação da economia, depois da recessão de 2020, é a principal explicação para a valorização das matérias-primas em 2021, sendo que os fatores climatéricos (secas, furacões, falta de vento, temperaturas extremas, etc.) também justificam o retorno elevado que foi registado por diversas commodities, sobretudo agrícolas (café e trigo) e energéticas (petróleo e gás natural). Os metais preciosos destoaram, com rendibilidades negativas já que o ouro perdeu atratividade num ano em que os investidores apostaram em força nos ativos de risco. O estatuto de refúgio tinha levado o ouro a brilhar em 2020, com um ganho de 25% (o maior em 10 anos).

O grande destaque nesta classe de ativos em 2021 vai para as matérias-primas energéticas, com o petróleo e o gás natural a subirem devido ao crescimento acentuado da procura e escassez do lado da oferta.

O Brent, que é transacionado em Londres e serve de referência para as exportações portuguesas, disparou 50,15% até aos 77,78 dólares. Foi o melhor ano desde 2016 (52,4%). Arrancou 2021 pouco acima dos 50 dólares, mas foi ganhando terreno ao longo do ano, acompanhando a recuperação da economia global e a retoma do consumo, que beneficiaram com a reabertura das economias, a mobilidade da população e a atividade das empresas. Atingiu os 85 dólares em meados de outubro (máximos de 2014), tendo depois corrigido devido ao regresso das restrições provocado pelo agravamento da pandemia e o surgimento da nova variante Ómicron. O WTI, transacionado em Nova Iorque, trepou 55% na maior subida anual desde 2009.

Os confinamentos em 2020 provocaram uma queda abrupta no consumo, o que levou a cotação do petróleo a recuar mais de 20% nesse ano. Para combater o excesso de oferta, os países produtores colocaram um travão na produção que levou o mercado a passar de um excedente elevado em 2020 para um défice em vários períodos deste ano. Em novembro, o consumo já estava em níveis semelhantes ao registado antes da pandemia, mas a OPEP+ manteve a torneira controlada, o que potenciou a escalada das cotações.

Consumo recorde com nova oferta limitada

As estimativas da Agência Internacional de Energia apontam para que o mundo consuma 96,2 milhões de barris de crude por dia em 2021, o que se situa ainda bem abaixo do registado em 2019 (99,55 milhões de barris por dia). Contudo, as previsões para este ano apontam para 99,53 milhões, pelo que 2022 pode ser um ano recorde na procura de petróleo.

Giovanni Staunovo, analista de matérias-primas do UBS, assinala que a subida dos preços do petróleo tem sido impulsionada “por uma forte recuperação do consumo”, mas sobretudo por um aumento mais reduzido da oferta. “Por um lado, a OPEP e os seus aliados adicionaram produção de forma cautelosa e, por outro, o crescimento da produção nos países fora da OPEP foi modesto”, diz Staunovo ao ECO, destacando o aumento de apenas 100 mil barris nos EUA em 2021 com os produtores de “shale oil” focados na disciplina de capital, preferindo remunerar os acionistas e reduzir dívida a investir em nova capacidade produtiva.

Com a OPEP+ determinada em manter as cotações em níveis elevados e os constrangimentos do lado da oferta devido aos desinvestimentos efetuados na indústria petrolífera no passado, a chave para a evolução dos preços estará sobretudo na evolução da procura. Há previsões para todos os gostos, mas a maioria dos analistas aponta para perspetivas positivas para o petróleo em 2022, sobretudo se a pandemia não provocar restrições agudas e a economia continuar a recuperar a bom ritmo.

Se a nova variante Ómicron implicar uma vaga de covid-19 como as do passado, o crescimento económico no primeiro trimestre será negativo. “Mas se a recuperação continuar, a procura de petróleo vai atingir níveis recorde em grande parte de 2022”, assinala Damien Courvalin, do Goldman Sachs.

As matérias-primas deverão ter em 2022 um ano de normalização de preços e de produção, até porque a pressão que têm exercido no aumento da inflação é insustentável, logo o potencial do setor é uma incógnita nesta fase, para além de que irão depender em parte do comportamento dólar”, diz ao ECO Mário Martins, analista da ActivTrades.

Do lado da oferta há dois fatores fundamentais. Por um lado, a escassez de produção devido à saída de vários produtores quando as cotações estavam deprimidas. Sobretudo de “shale oil” (onde o custo de produção é mais elevado), com parte desta indústria a ser derrubada pela estratégia da OPEP+ em inundar o mercado de petróleo numa altura de fraca procura. A estratégia do cartel levou à capitulação de muitos produtores e a OPEP+ reconquistou a posição de domínio no mercado petrolífero, com elevada influência na direção das cotações do petróleo.

Com a OPEP a ditar as regras no mercado petrolífero, “quem irá sofrer mais é a Europa, o principal importador de bens energéticos e com um elevado défice de produção de crude, o que poderá acabar por acelerar significativamente a adoção de outras formas de energia, seja a eletrificação na mobilidade, o hidrogénio e até mesmo o nuclear, que tem ganho relevância, para a produção de eletricidade”, adverte o analista da ActivTrades.

Estimamos o Brent a subir para 85 dólares no próximo ano. Consideramos os 100 dólares um cenário de risco, sendo necessárias fortes disrupções na produção e mais um ano de forte recuperação na procura.

Giovanni Staunovo, analista de matérias-primas do UBS

A Arábia Saudita (que em conjunto com a Rússia domina as decisões da OPEP+) já avisou que os investidores que apostarem na queda do petróleo vão “enfrentar o inferno”. O aviso do poderoso ministro da Energia Saudita, Prince Abdulaziz bin Salman, surgiu dias depois do preço ter afundado mais de 10% numa só sessão. Na última reunião, a OPEP+ manteve o plano de aumentar paulatinamente a produção para responder ao aumento da procura. Os apelos dos maiores consumidores do mundo para um aumento mais pronunciado da oferta foram ignorados e o cartel avisou mesmo que pode reduzir a produção a qualquer altura, caso a pandemia volte a restringir o consumo.

Os analistas destacam a escassa margem de manobra para a OPEP cumprir as atuais quotas de produção, pelo que novos aumentos serão sempre limitados. “A OPEP e os seus aliados já estão em dificuldades para entregar no mercado as quotas de produção acordadas. As adições efetivas serão inferiores a 400 mil barris por dia, com os desinvestimentos do passado a restringirem o crescimento”, assinala o analista do UBS.

O ministro da Energia da Arábia Saudita realçou que só um aumento do investimento na produção poderá evitar uma crise energética global nesta década. A S&P Global Platts Analytics destaca que a persistência de preços elevados pode incentivar esta inversão de tendência de descida na produção. Para a consultora, “esta é, ao mesmo tempo, a melhor e pior altura para investir nos combustíveis fósseis”. O combate às alterações climáticas é um constrangimento, mas o racional económico de investir em nova produção ganha cada vez mais força, diz a S&P Global Platts Analytics, estimando que todos os projetos são viáveis com o petróleo a cotar acima dos 50 dólares por barril.

O investimento deve subir no médio prazo, pois é expectável que o Brent negoceie acima dos 65 dólares, assinala a Platts Analytics, estimando um aumento de 8% este ano depois da redução de 24% em 2021. Mesmo que a cotação do petróleo não chegue aos 100 dólares, se continuar elevada “o incentivo para investir no petróleo será demasiado grande para resistir”.

Regresso aos 100 dólares é “credível”, mas não o cenário central

O regresso das cotações do petróleo aos três dígitos, onde já esteve entre 2011 e 2013, não é o cenário central da maioria dos analistas, mas também não é visto como impossível. Vários bancos de investimento apostam mesmo nesta perspetiva, sobretudo devido ao défice estrutural do lado da oferta.

Há, contudo, vários fatores que poderão pressionar a matéria-prima em 2022. Desde logo, o desequilíbrio entre a procura e oferta que marcou 2021, vai atenuar-se este ano. Além disso, 2022 deverá ser um ano marcado pelo aperto da política monetária em diversas geografias, com destaque para as várias subidas de juros por parte da Reserva Federal, o que tenderá a arrefecer o crescimento económico. A subida de juros também deverá fortalecer a moeda norte-americana, o que penaliza o investimento nas matérias-primas cotadas em dólares.

Há ainda o fator China, um dos grandes consumidores de petróleo do mundo e que enfrenta uma fase de menor fulgor económico. Acresce que o presidente chinês definiu a “prosperidade comum” como o desígnio principal da estratégia da China para os próximos anos. Uma alteração que têm implícita uma menor dependência do setor da construção e da indústria. E que por isso pressupõe a redução no consumo de matérias-primas como o petróleo e metais industriais.

Para Giovanni Staunovo, o petróleo nos 100 dólares é um cenário de risco, que só será concretizável caso ocorram “fortes disrupções na produção e mais um ano de forte recuperação” na procura. A estimativa do UBS aponta para uma cotação média de 85 dólares em 2022.

A estimativa do Goldman Sachs também aponta para o Brent nos 85 dólares em 2022 e no ano seguinte, mas não descarta que o “ouro negro” chegue aos três dígitos em 2023 se persistir o reduzido investimento em nova capacidade de produção, que deixará a oferta em níveis insuficientes para responder ao consumo que se espera atinja níveis recorde. O Bank of America é outro dos grandes bancos de Wall Street que antecipa o regresso do petróleo aos 100 dólares no médio prazo.

Mário Martins vê o petróleo nos 100 dólares como “uma possibilidade credível, especialmente se a nova estirpe Ómicron acabar por ser apenas um susto e o mundo retomar rapidamente o ritmo normal de atividade económica”.

O ING tem uma perspetiva mais cautelosa. Prevê uma cotação média de 76 dólares por barril para o Brent em 2022, antecipando um forte aumento da oferta por parte de países fora da OPEP, o que colocará o mercado petrolífero de novo numa situação excedentária. Ainda assim, o banco dos Países Baixos salienta que as preocupações sobre a capacidade de produção da OPEP e a falta de investimento na produção “colocam um limite mínimo nos preços que não se situa muito longe dos atuais níveis”.

Uma "poll" junto de 35 economistas, que foi publicada na semana passada pela Reuters, aponta para uma cotação média do Brent de 73,57 dólares em 2022, abaixo da cotação atual e da perspetiva da sondagem efetuada em novembro. Trata-se da primeira revisão em baixa desde agosto, o que mostra um visão menos otimista dos especialistas para a evolução do petróleo este ano.

Petróleo nos 100 dólares é uma possibilidade credível, especialmente se a nova estirpe Ómicron acabar por ser apenas um susto e o mundo retomar rapidamente o ritmo normal de atividade económica

Mário Martins, analista da ActivTrades

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