Resultados do PSI-20 já deram a volta à pandemiapremium

No sétimo trimestre desde o início da pandemia, as cotadas portuguesas já apresentam resultados globalmente acima do registado em 2019.

A época de apresentação de resultados do terceiro trimestre foi positiva para as cotadas portuguesas, com os principais indicadores a verificarem uma forte subida face ao registado no mesmo período do ano passado, mas também já acima do terceiro trimestre de 2019, altura em que os números não foram afetados pela pandemia.

Entre julho e setembro deste ano, 15 cotadas do PSI-20 que publicaram resultados trimestrais (Mota-Engil, Pharol, Novabase só o fazem de seis em seis meses) consolidaram resultados líquidos conjuntos de 870,7 milhões de euros. O valor representa um aumento de 47% face ao terceiro trimestre de 2020 e de 34,9% contra o mesmo período de 2019.

Se a subida face a 2020 é natural, por comparar com um período de fortes restrições em todo o mundo devido à pandemia, o crescimento acentuado face a 2019 ganha significado, mostrando que os resultados das cotadas do PSI-20 já deram a volta à pandemia.

A evolução face ao terceiro trimestre de 2019 também já é positiva quando se analisam as receitas e o EBITDA, apesar de entre julho e setembro deste ano ainda vigorarem várias restrições que limitaram a atividade das empresas. Em Portugal e noutros mercados onde estas portuguesas marcam presença e numa altura em que o comércio mundial está ainda a ser fortemente constrangido pela pandemia.

As receitas conjuntas das cotadas ascenderam a perto de 13,5 mil milhões de euros no terceiro trimestre deste ano, um crescimento de dois dígitos face ao mesmo período de 2019. Também o EBITDA regista uma evolução positiva entre os dois períodos, embora a um ritmo inferior (7%). O terceiro trimestre é primeiro, deste ano, em que a comparação com 2019 é positiva nas receitas, EBITDA e lucros.

"O PSI-20 valorizou significativamente de finais de setembro a finais de outubro, antecipando um crescimento significativo dos resultados relativos ao terceiro trimestre", diz Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, assinalando que "na generalidade, os lucros cresceram no trimestre e recuperam gradualmente os níveis de 2019".

Olhando para os valores acumulados nos primeiros nove meses deste ano, a comparação com 2019 ainda é desfavorável. Os lucros subiram 50,6% face a 2020 para 2.120 milhões de euros, mas estão 13,9% abaixo do registado entre janeiro e setembro de 2019. Nas receitas a evolução face a 2019 já é positiva (+3,9%), mas o EBITDA situa-se 5% abaixo. A subida mais rápida das receitas face ao EBITDA poderá traduzir o impacto do aumento dos custos na atividade das empresas, que não transferiram para os consumidores/clientes todo o impacto da alta da inflação. Uma tendência que está a ser escrutinada com redobrada atenção pelos investidores, para avaliar a evolução nos próximos trimestres.

O valor das receitas do terceiro trimestre de 20121 é mesmo o mais elevado desde o início de 2019. Entre as 12 empresas analisadas, só a EDP Renováveis não melhorou face a 2020 e apenas cinco cotadas continuam com receitas abaixo de 2019 (EDP Renováveis, Navigator, Nos, Semapa e Ibersol). Já a Altri, Ramada, Jerónimo Martins e EDP conseguiram uma recuperação acima de dois dígitos.

(Nota: Abra o artigo no browser para ver os gráficos)

No que diz respeito ao EBITDA, o valor conjunto acima de 3 mil milhões de euros já se tinha verificado no quarto trimestre do ano passado e em dois trimestres de 2019. Só duas das 14 empresas analisadas não melhoraram este indicador face a 2020 e quatro contra 2019 (Galp, REN, Nos e CTT).

Nos lucros, a recuperação face ao período homólogo é mais acentuada, mas seis em 15 cotadas ainda apresentam um valor inferior ao registado no terceiro trimestre de 2019. O forte crescimento nas cotadas de maior dimensão (EDP, Jerónimo Martins e Galp Energia) impulsionou o valor global. Estas três cotadas são as únicas com lucros acima de 100 milhões de euros no trimestre e representam mais de metade dos lucros do PSI-20.

A recuperação dos resultados também permitiu que as cotadas portuguesas retomassem a tendência de redução do valor da dívida, que já se verificava antes da pandemia. As 14 empresas consideradas acumulavam uma dívida de 26,5 mil milhões de euros no final do trimestre, uma redução de 6,4% face a setembro de 2020 e de mais de 10% contra o mesmo mês de 2019.

Resultados acima do esperado puxaram pelas bolsas

Além do crescimento assinalável nos vários indicadores dos resultados, em geral as cotadas portuguesas apresentaram resultados acima do esperado pelos analistas, seguindo a tendência do que aconteceu noutros países europeus e em Wall Street. Empresas como a Navigator, Sonae e Jerónimo Martins valorizaram nas sessões posteriores à publicação das contas. Já a Galp Energia e os CTT reagiram em queda.

A “earning season” positiva atirou os principais índices acionistas mundiais para novos máximos históricos, atenuando os receios dos investidores com as elevadas avaliações com que transacionam as ações, sobretudo as norte-americanas e do setor tecnológico. Os bons resultados também reforçaram a confiança que as empresas estão a beneficiar com a recuperação robusta da economia mundial e a lidar bem (para já) com o aumento dos custos relacionados com a inflação, que está a ser puxada sobretudo pelos bens energéticos, matérias-primas em geral e constrangimentos nas cadeias de abastecimento globais.

As empresas do índice europeu Stoxx600 (que publicaram as contas) registaram um aumento de 58,8% nos lucros do terceiro trimestre, enquanto as receitas subiram 15,4%, de acordo com os dados da Refinitiv. Acresce que quase dois terços apresentaram resultados acima do esperado. No norte-americano S&P500 a tendência foi idêntica, com os lucros a subirem 41,5% e mais de 80% das cotadas do índice a superarem as expectativas.

Depois de um setembro de correção nos mercados acionistas, as bolsas valorizaram em outubro e mantiveram a tendência positiva na primeira metade novembro, precisamente devido às notícias positivas dos resultados das empresas a nível global. Desde o início de outubro, o S&P500 subiu 8%, o Stoxx600 avançou 6% e o índice português regista um desempenho bem mais modesto. Subiu 1% depois de em setembro ter conseguido um desempenho mais favorável.

"Atualmente, não é esperada uma subida das taxas de juro na Europa, quer de curto prazo quer de longo prazo. Ademais, o ressurgimento da covid na Europa poderá abrandar a recuperação e inviabilizar qualquer subida de taxas e retirada dos estímulos monetários do Banco Central Europeu. Mas mesmo um cenário de subida gradual de taxas de juro, este só seria penalizador se travasse o crescimento económico.”

Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa

Inflação e covid são ameaças

Em 2021 os índices europeus e norte-americanos acumulam ganhos em torno de 20% (o PSI-20 sobe pouco mais de 10%), sendo que a evolução positiva dos resultados será fundamental para que a tendência de alta se mantenha no próximo ano. Sobretudo para compensar os riscos relacionados com a subida da inflação, aumentos das taxas de juro e agravamento da pandemia.

As quedas recentes das bolsas refletem “os receios relativos ao agravamento das infeções de covid, que podem ditar novas restrições e penalizar a atividade económica”, bem como “as preocupações com a subida da inflação e o início da redução de estímulos nos EUA que podem culminar num abrandamento da economia norte-americana e, consequentemente, das restantes economias e penalizar o PSI-20”, diz Paulo Rosa.

O economista sénior do Banco Carregosa assinala que “o PSI-20 enfrenta vários desafios no curto prazo”, como “os fatores inflacionistas temporários, incluindo preços de energia e as interrupções nas cadeias de abastecimento, ao recrudescimento da covid-19 na Europa que ameaça a retoma económica da Zona Euro”.

Paulo Rosa recorda que “o último trimestre do ano é caracterizado em alguns setores por um aumento das receitas de vendas, em virtude das quadras festivas, mas as atuais dificuldades nas cadeias de abastecimento podem penalizar as vendas dos comércios e do setor do retalho”.

No que diz respeito à expectativa de subida de juros, o economista considera que na Europa não são esperadas mexidas, pelo que não representa uma ameaça à recuperação dos resultados das empresas. “O ressurgimento da covid na Europa poderá abrandar a recuperação e inviabilizar qualquer subida de taxas e retirada dos estímulos monetários do Banco Central Europeu. Mas mesmo um cenário de subida gradual de taxas de juro, este só seria penalizador se travasse o crescimento económico”.

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