Trilhar um rumo para a liderança feminina nas techpremium

Lisboa recebeu a primeira “Summer School for Female Leadership in the Digital Age”, da Huawei, e juntou 27 potenciais tech leaders de toda a Europa.

Se há falta de mulheres e de liderança feminina no mundo tech, a Huawei resolveu atacar de frente o tema. Resultado? A “Summer School for Female Leadership in the Digital Age”, da Huawei, em Lisboa. Em meados de agosto, 27 potenciais líderes tech — uma por cada país membro da União Europeia (UE) — convergiram na cidade das sete colinas para uma semana intensiva de masterclasses, workshops de código, mas não só. Aprender soft skills de liderança ou como falar em público, tendo como mentoras a investigadora Elvira Fortunato — que ‘inventou’ o primeiro transístor de papel — ou a eurodeputada Maria da Graça Carvalho, fizeram também parte do programa da escola de verão. A primeira de muitas, espera-se.

“É a Huawei putting the money where the mouth is (aliar os atos à conversa) e também uma demonstração do que se pode fazer com imaginação e ambição”, diz Diogo Madeira da Silva, head of public affairs & communications da Huawei em Portugal. A companhia tem realizado uma série de iniciativas, para promover a discussão em torno da escassez de talento feminino na indústria. “Esta academia surge assim como um passo lógico”, diz. “É bom ter ideias arrojadas, é melhor ainda quando trabalhamos num local que permite pô-las em prática, mesmo quando não há um objetivo comercial associado. No caso desta summer school, a ideia passa por organizá-la todos os anos, eventualmente em países diferentes.”

Lisboa ser a anfitriã da primeira escola de verão era quase inevitável. “A equipa de Portugal esteve envolvida na ideia e no desenho do conceito desde o início. Isso deu-nos espaço para influenciar o local. O nosso papel, enquanto responsáveis pela empresa em Portugal, é também o de promover o país no seio de uma organização global como a Huawei, mostrando o seu potencial e o seu bom exemplo em termos de recetividade à inovação, inclusão e diversidade”, explica Diogo Madeira. Portugal ter a presidência do Conselho da União Europeia, na altura em que se começou a planear a iniciativa, também contribuiu para a balança ter pendido para Lisboa na hora da decisão. “Tal como ajudou a boa imagem que o país tem junto das instituições europeias e as características que todos nos reconhecem, como a hospitalidade, o clima e a qualidade das infraestruturas para este tipo de eventos”, destaca o head of public affairs & communications da Huawei em Portugal.

“Não é possível fazer transição digital sem metade da população"

Num momento em que tanto se fala de empoderamento feminino, das virtudes de ecossistemas empresariais com maior diversidade e paridade de género, o universo das tecnológicas regista um número significativamente baixo de mulheres a escolher este setor como uma possível carreira. Um status quo a que a Huawei não está alheia.

“Não vamos ser hipócritas, há trabalho a fazer em toda a indústria. Aliás, em toda a sociedade. A empresa está a desenvolver projetos internos para endereçar o gender gap”, diz Diogo Madeira. “Sendo esta uma empresa global com várias culturas, a diversidade está naturalmente presente no nosso dia a dia. E quero acreditar que isso nos deixa bem posicionados para levar por diante esta agenda.”

Não podemos fazer uma transição digital sem incluir metade da população ativa. Acredito que este projeto vai fazer a diferença na vida das participantes e gostava de ver mais programas com estas características, mesmo que promovidos por outras entidades.

Diogo Madeira

Head of public affairs & communications da Huawei Portugal

Mas tem a Huawei alguma política específica para o recrutamento feminino? “As nossas políticas de recrutamento não fazem distinção de género. Procuramos talento, paixão e pessoas que se revejam nos nossos valores. Mas a empresa está a trabalhar, ao mais alto nível, em diversos projetos que visam quebrar estigmas e atrair mais talento feminino não só para a empresa, mas também para toda a indústria”, assegura o head of public affairs & communications.

“E uma das formas de o fazer passa por partilhar exemplos da casa.” A nível europeu, por exemplo, a tecnológica tem publicado a série de filmes “Women of Huawei”, dando a conhecer “alguns dos nossos talentos mais brilhantes”, tendo já contado “com a participação de colaboradoras de Portugal por mais do que uma vez”.

O tema vai muito além de ‘é preciso mais mulheres nas tecnologias’. Tem impacto em toda a sociedade. “Não podemos fazer uma transição digital sem incluir metade da população ativa. Acredito que este projeto vai fazer a diferença na vida das participantes e gostava de ver mais programas com estas características, mesmo que promovidos por outras entidades”, comenta Diogo Madeira.

Razão pela qual a “Summer School for Female Leadership” abriu portas a todas as interessadas, mesmo as não techies. “A singularidade desta academia é que não é direcionada para jovens que já são especialistas em tecnologia. A ideia passa por inspirar um conjunto de jovens, independentemente da sua área de estudos, fazendo-as acreditar que podem ter um papel neste mundo digital. Mais, que podem influenciá-lo”, refere. Mas não só. “Queremos mostrar que não é obrigatório ter um curso de engenharia para enveredar por uma carreira em TIC. Se isso acontecer, gera-se um movimento que terá impactos positivos no futuro da indústria e da tecnologia.”

A onda estendeu-se a toda a Europa. “Num espaço de duas semanas foram submetidas mais de 1.200 candidaturas, provenientes de todos os países da UE. Confesso que, quando desenhámos este conceito, achei algo ambicioso ter participantes de 27 estados-membros, mas a realidade é que conseguimos”, admite o responsável da Huawei.

Um júri, composto por eurodeputados, antigos comissários europeus ou profissionais de reconhecido mérito dos diversos estados-membros da UE, selecionou as candidatas. Portugal foi representado pela Presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, Sandra Ribeiro, bem como pela eurodeputada Maria Manuel Leitão Marques, que presidiu o júri. “Uma vez selecionadas, as estudantes tiveram acesso a uma bolsa completa que cobriu todos os custos a partir do momento em que saíram de casa nos seus países de origem, até ao seu regresso”, adianta Diogo Madeira. “Não queríamos que as condições socioeconómicas fossem uma barreira adicional à participação. Seria estranho fazer uma summer school em torno de temas como inclusão e diversidade sem considerar também essa dimensão”, reforça.

Chegaram a Lisboa para uma semana intensa. “Masterclasses, painéis de oradores, trabalhos de grupo e visitas ao exterior. Os conteúdos foram desenhados com os contributos dos speakers e abrangeram diversas áreas no âmbito das TIC, incluindo um workshop de código realizado na escola 42 Lisboa, mas também soft skills, com enfoque em temas como liderança, public speaking, trabalho em equipa e bem-estar”, descreve Diogo Madeira.

Tudo sob o olhar e orientação de um painel de oradores como a vencedora do WFEO GREE Award Women 2020, o maior prémio internacional de engenharia que distingue o trabalho desenvolvido por mulheres engenheiras em todo o mundo, Elvira Fortunato (Universidade Nova de Lisboa), os professores Rui Luís Aguiar (Universidade de Aveiro), Aleksandra Przegalinska (Universidade Kozminski) e Pedro Santa Clara (42 Lisboa). Mas não só. David Jiménez (colunista do New York Times e antigo diretor do diário espanhol El Mundo), Beatriz Becerra (ex-eurodeputada e vice-presidente da comissão dos Direitos Humanos do Parlamento Europeu) ou Magid Magid (fundador e diretor da Union of Justice, ex-eurodeputado e nomeado pela Time como uma das 100 rising stars que vão moldar o futuro do mundo) foram alguns dos oradores convidados.

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