A anormal atração da normalidade

Chapelada aos spin doctors! Está a instalar-se como facto uma (digamos) narrativa que está longe de ter correspondência na realidade. Pior do que ser errónea, essa narrativa é perigosa.

A propósito do primeiro aniversário do governo PS com apoio parlamentar do BE e do PCP, a generalidade dos balanços que estas efemérides sempre inspiram concluía que o grande feito deste governo é o ter devolvido ao país a ‘normalidade’. O próprio primeiro-ministro assumiu sem reservas o papel de porta-voz desta teoria.

Como qualquer spin que se preze, há uma série factos subjacentes que sustentam aparentemente a narrativa. A menor contestação social, a boa coabitação institucional, os surpreendentemente bons números do terceiro trimestre e as sondagens favoráveis ao PS são factos que, aparentemente, repito, dão crédito a este regresso à ‘normalidade’. Mas será mesmo?

A menor contestação social não resulta da domesticação de Mário Nogueira e Ana Avoila, mas apenas das instruções do seu partido para que, taticamente, deixem que a aritmética parlamentar exerça a pressão em vez das greves. Este mecanismo funciona enquanto a outra aritmética – a das finanças públicas – comportar a reposição de rendimentos e de direitos. Portanto, a paz social não tem sido conquistada, mas antes comprada, pelo Governo. Comprada, como sempre, com o dinheiro dos contribuintes e mais emissão de dívida.

A surpreendente harmonia institucional entre PR e governo, por seu turno, tem tudo a ver com a agenda de Marcelo Rebelo de Sousa e pouco a ver com os méritos da governação. O PR sabe que os seus 97% (!) de popularidade são muito menos conjunturais que os 81% de António Costa. Não se surpreendam, pois, se à vista das primeiras nuvens negras de resultados económicos (ver abaixo para perceber porque é que eles virão, inevitavelmente) os avisos do Presidente sobre o crescimento económico passarem de exceção a regra.

Por sua vez, os tão propalados números do terceiro trimestre têm de ser tomadas com uma enorme pitada de sal. Atentemos no detalhe constante das Contas Nacionais Trimestrais divulgadas pelo INE no dia 30 de novembro e coloquemos os crescimentos homólogos em perspetiva desde o momento da saída da troika (últimos nove trimestres):

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Portanto, a única parcela que nos pode animar é a Procura Externa e mesmo essa está empolada em 0,25 pela venda dos F-16 à Roménia. Restam as boas notícias nas restantes exportações de bens (aguardo dados do impacto da regularização das exportações de combustíveis de Sines) e, sobretudo, de serviços, em que se destaca o Turismo em relação ao qual, em função das minhas anteriores funções, não tecerei comentários.

Se a isto somarmos a evidente deterioração de variáveis como as taxas de juro (o programa económico de Trump vai levar ao fim da era de taxas baixas, caso não tenham ainda percebido) e o preço do petróleo (com a OPEP a conseguir acabar com uma década de lutas intestinas), fica fácil de concluir que é prematuro atear o fogo de artifício em relação à realidade económica portuguesa. Que fique claro que não estou a expressar um desejo, mas temo bem que nos tenhamos de preparar para apertar dois cintos: o das calças, porque a austeridade não acabou, e o de segurança porque nos esperam tempos conturbados.

Finalmente, quanto às sondagens, elas são o que são e refletem bem o apreço que os portugueses dedicam à tranquilidade, mesmo que efémera. É aqui que a narrativa da ‘normalidade’ se torna perigosa.

Qualquer observador honesto reconhece que o atual estado de coisas, com crescimento anémico e insustentável não nos tirará deste atoleiro. Acomodarmo-nos a isto na esperança que o tempo resolva magicamente as coisas (reestruturação da dívida? boom de Investimento externo?) é, no mínimo, infantil. Nesta situação, a busca de paz e sossego, a defesa do status quo, a perda do sentido de urgência em mudar, é o pior que podíamos fazer. Não resistir a esta (anormal) atração pela normalidade é, muito simplesmente, perpetuar o nosso subdesenvolvimento e colocar Portugal em risco de perder a sua soberania.

Compete-nos, pois, resistir aos hábeis encantadores de serpentes que nos tentam embalar com as virtudes desta ‘normalidade’ que nos há de destruir.

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