A ciência e a tecnologia ao serviço da propaganda

A China cooptou a Organização Mundial de Saúde como sua agência de comunicação global e está a usar todas as ferramentas que tem para manipular o discurso público.

A China tem feito de tudo para promover três ideias: a primeira, questionando se o vírus nasceu mesmo no seu território ou se não foi uma importação americana; a segunda, exibindo à exaustão os esforços de cooperação com vários países, escondendo que muita dessa “cooperação” é meramente comercial, que a restante é essencialmente um suborno e que grande parte de ambas é defeituosa; a terceira linha de ação passa por demonstrar ao mundo que o vírus está totalmente erradicado do seu território e que só os estrangeiros é que ainda são vetores da doença. Tudo falso.

Mas a sua manobra mais importante foi a cooptação da Organização Mundial de Saúde (WHO) numa agência de relações públicas. Através de subsídios, donativos e programas governamentais estrategicamente colocados ao longo dos anos, a China transformou esta organização num veículo de promoção de mentiras que nunca questiona Pequim nem a sua linha oficial.

Em Fevereiro, quando as cabeças pensantes da geopolítica se reuniram na conferência de segurança de Munique, todos os representantes da WHO anunciaram alegremente o magnífico trabalho chinês na contenção do Coronavirus. Ora, esse mito já foi desmontado: a China demorou mais de um mês a reportar o vírus, escondeu dados científicos essenciais de que o mundo necessitava para se proteger e teve o apoio total de uma organização que pertence às Nações Unidas e deveria proteger todo o planeta.

A situação está de tal forma grave que os conselheiros da WHO já nem respondem a perguntas que podem enfurecer os chineses, como por exemplo sobre a situação em Taiwan. Ao mesmo tempo, Pequim fez desaparecer bloggers e médicos que alertaram para os riscos e expulsou do seu território 13 jornalistas do New York Times, do Washington Post e do Wall Street Journal. O crime deles: terem feito o seu trabalho de informar e de procurar a verdade no meio da propaganda e da manipulação. Os factos acumulam-se contra a China e não deixam dúvidas no que toca às suas ações.

Não só é moralmente duvidoso que a China deva beneficiar comercialmente de uma crise que ela criou como é chocante que se promova à conta de material defeituoso. A China vendeu máscaras defeituosas à Holanda e vendeu testes que não funcionam a Espanha, à Turquia e a várias outras nações que preferiram não divulgar os resultados do equipamento que compraram.

O primeiro-ministro sérvio, que se apressou a beijar a bandeira chinesa e a atacar a União Europeia, bem pode rezar para que os seus carregamentos de equipamentos não estejam tão defeituosos como estes.

Para Portugal veio um avião com luvas, máscaras e fatos de proteção – que podem ou não estar em condições de ser usados. Os prometidos ventiladores e reagentes, afinal, não vieram e ficaram à espera de uma nova viagem. E as empresas chinesas que lutam contra as imposições governamentais europeias também aproveitaram a ocasião para se promover. A Huawei e a Alibaba têm sido as mais ativas a oferecer máscaras, numa ação de promoção que mais se parecem com os caixotes e folhetos de propaganda que os Estados Unidos enviaram para o Vietname antes da invasão. Nada disto é inocente: a Alibaba acaba de negociar um enorme centro de distribuição na Bélgica e a Huawei ainda espera conseguir algumas licitações do 5G em diversos países europeus, compondo os esforços de Pequim para fechar o ciclo da estratégia Belt and Road.

A China está a aproveitar um momento histórico para tentar mudar mentalidades e vencer guerras comerciais, precisamente da mesma forma estratégica como durante as últimas duas décadas usou a ajuda em África e no sudoeste asiático: fazendo acompanhar as doações de contratos chorudos que endividaram os países e os colocaram a longo prazo na rota de dependência da China. Compete-nos resistir, sem diabolizar. Esta é, também, uma guerra da geopolítica e da ideologia. E não deixemos que os posts do Facebook nos enganem: o espírito humanista que nos ajuda no longo prazo está sedeado no coração da Europa, não em Pequim.

Ler mais: já foi referido aqui, mas este livro do português Bruno Macaes continua a ser um retrato muito atual da estratégia chinesa que dá o nome à obra. Belt and Road é uma boa lente para ler tudo o que se está a passar agora com a política expansionista chinesa.

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