A Década da Regeneração

  • Nuno Brito Jorge
  • 12 Fevereiro 2020

O ano de 2019 foi (felizmente) abundante em “saídas do armário” de agentes que anteriormente não falavam (ou falavam apenas timidamente) de alterações climáticas.

“Quando já todos veem o problema é porque não fomos capazes de o evitar.” Se acreditamos na transição e numa coexistência sustentável entre humanos e natureza, devemos procurar a inovação e a mudança, especialmente na forma como o capital se relaciona com o nosso planeta.
Esta ambição, de melhorar a relação entre capital e planeta, pode parecer demasiado ambiciosa, mas caminha a passos largos para a realização. Basta pensar que o mesmo aconteceu em várias outras áreas do impacto ambiental ou social.

Se antes falar sobre reciclagem, energias renováveis ou democratização energética era um disparate e um problema longínquo e “de outros” temos hoje a satisfação de ver que grande parte destes temas se tornou praticamente óbvio, pelo menos na opinião pública a que temos acesso, como é o caso das alterações climáticas ou da reciclagem que têm cada vez mais apoiantes em Portugal.

O ano da viragem

O ano de 2019 foi (felizmente) abundante em “saídas do armário” de agentes que anteriormente não falavam (ou falavam apenas timidamente) das alterações climáticas, provavelmente com receio de prejudicarem a sua imagem entre pares. Podemos pensar em gigantes, como a Goldman Sachs ou a UBS, mas também na generalização do discurso à escala portuguesa, até na banca e finanças, com a carta de compromisso para as finanças sustentáveis que são já requisitos para a concessão de crédito (nota: a discussão sobre se alguma destas intenções se vai tornar real dava matéria para vários outros artigos).

Finalmente, graças ao esforço da Greta Thunberg e outros ativistas (que “apenas” vieram dar corpo e voz a um problema para o qual muitos cientistas, ambientalistas, políticos e empresários desde há muito alertam) e à constatação de que muitas das consequências previstas se começam a verificar (incêndios, secas, cheias e maior abundância de fenómenos extremos) todos nos preocupamos com o clima.
Mas as alterações climáticas são apenas a “ponta do iceberg” naquilo que precisamos de fazer para reverter (ou pelo menos amenizar) a catástrofe ambiental em que o planeta se está a tornar.

É por isso que, enquanto via o desfilar de notícias, posts e declarações de fim de ano sobre as alterações climáticas e sustentabilidade como próximos desafios, dei por mim a pensar que agora é tarde: quando já todos veem o problema é porque não fomos capazes de o evitar.
Já não é suficiente pensarmos em atuar de forma sustentável porque a sustentabilidade, sobretudo na perspetiva simplista (a roçar o greenwashing com que é hoje utilizada), já não chega para recuperar ecossistemas danificados, solos degradados ou florestas ardidas.

Aqui surge a regeneração como grande oportunidade e desafio da nossa atuação na próxima década

É uma abordagem holística, que deixa de ter foco apenas na satisfação das necessidades do ser humano, mas nos passa a considerar como parte de um todo, do qual dependemos e devemos cuidar, em vez dar a natureza como garantida e a explorar para retirar o máximo benefício.
Cerca de um terço das emissões de dióxido de carbono para a atmosfera do último século foram provenientes da agricultura, uma grande parte resultante da degradação dos solos, que têm hoje menos 4 a 8 vezes matéria orgânica do que a continham antes da introdução da agricultura industrializada.

O carbono, que surge como principal foco do combate às alterações climáticas, é ao mesmo tempo o problema e a solução. Se é verdade que queimar combustíveis fósseis contribui para o efeito de estufa, também é verdade que o carbono é a base da vida, componente básico de toda a matéria orgânica. Como este vídeo ilustra na perfeição, trata-se de uma questão de desequilíbrio, estamos a lançar muito mais carbono para a atmosfera que aquele que estamos a reter nas plantas, solos e oceanos.

Devemos olhar para a solução de forma prática e agir. Mais vale tarde que nunca!

Práticas de gestão da qualidade do solo e regeneração – que respeitam a biodiversidade, respeitam as espécies nativas, permitem concluir o ciclo de vida das plantas, valorizam a incorporação de matéria orgânica no solo e têm um grande potencial de retenção de carbono – devem passar a ser uma prioridade no ordenamento do território nos próximos anos.

Se lhe juntarmos a descarbonização, o fomento da economia circular e uma cultura de consumo responsável e de redução do desperdício (também alimentar), sem esquecermos que é o papel das nossas escolhas como cidadãos e consumidores que determina para onde evoluiu a economia – dos artigos que compramos, à comida que comemos ou aos meios de transporte que usamos – vai-nos deixar, no pior cenário, com um planeta mais limpo que aquele que temos agora.

Devemos investir o nosso tempo e recursos na sustentabilidade e comprar apostas de futuro (que já não são propriamente “de futuro”) para não incorrermos no mesmo erro de estar constantemente a correr contra o prejuízo, prejuízo esse que está a pôr em causa o nosso planeta. Investir em projetos de impacto ambiental positivo, seja para benefício próprio seja para colaborar com projetos de causa maior. Tudo é crítico numa altura de crise, como a que vivemos agora. Tudo isto, claro, se queremos continuar a viver na Terra e não em Marte.

Fontes:
– Emissões da agricultura Houghton, R. A. & Nassikas, A. A. Global and regional fluxes of carbon from land use and land cover change 1850-2015: Carbon Emissions from Land Use. Glob.
– Biogeochem. Cycles 31, 456–472 (2017).
– Redução da matéria orgânica no solo: Beste, A. What is Europe’s agriculture doing to the soil. (2018).

  • Nuno Brito Jorge

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