Editorial

A Dielmar ou uma história que se repetepremium

Os candidatos à compra da Dielmar já perceberam que podem fazer um negócio "à Novo Banco", como os da Efacec, aliás. Com dinheiro público afundado.

Quando o ECO revelou em primeira mão no início de agosto que a Dielmar tinha entrado num processo de insolvência, primeiro foi a surpresa (para os que desconheciam a sua situação económica e financeira periclitante), depois foi uma sucessão de declarações políticas, incluindo do ministro Pedro Siza Vieira, e finalmente o anúncio de uma fila de interessados em comprar a empresa têxtil. Como se tudo fosse fácil quando tudo foi difícil Onde é que já ouvimos isto?

A Dielmar era uma das maiores empregadoras da região da Beira Baixa e deixa uma dívida ao Estado de oito milhões de euros, à banca de cerca de seis milhões e ainda 2,5 milhões a fornecedores e 1,7 milhões à Segurança Social. O ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, disse mesmo que o dinheiro público não serve para salvar empresários”, deixando implicitamente a garantia de que não haveria mais dinheiro dos contribuintes nesta empresa, até porque o que entrou já não vai sair. Mas isso não se confirmou e, perante as eleições autárquicas, o Banco de Fomento foi usado para pagar os salários de setembro. Leu bem, E agora?

Agora, a fila de interessados reduziu-se a dois, e segundo o gestor de insolvência, as propostas apresentavam“insuficiências ou condicionantes eventualmente inultrapassáveis, no que se refere ao preço, ao objeto ou aos meios financeiros associados”. Leia-se, o Estado teria de pagar ainda mais para que estes interessados ficassem com a Dielmar, seguramente com menos trabalhadores. Neste contexto, os credores decidiram ganhar tempo, à espera de um milagre que não surgirá. A decisão final está agendada para 26 de outubro, mas será necessário pagar os salários deste mês e lá estará o Banco de Fomento para os garantir.

Onde está o wally, ou o mal dos nossos pecados quando o Estado se mete em negócios privados para salvar empresas ditas estratégicas? Aqui, como na Efacec ou na TAP, joga-se dinheiro público. Que no final se afunda.

A Dielmar está em situação de insolvência, e a política está a tentar salvar o que os anteriores acionistas não salvaram e que os potenciais candidatos parecem não querer salvar (ou estarão a tentar o modelo de negócio... à Novo Banco). No caso da Efacec e da TAP, mesmo tendo em conta que são casos com as suas próprias especificidades, o Estado nacionalizou para vender depois. Quando um Governo nacionaliza, já se sabe como começa, mas não se sabe como acaba.

As empresas-zombie, como é a Dielmar e para lá parecem caminhar a Efacec e até a TAP, têm um peso significativo na economia portuguesa. O que são estas empresas-zombie? Empresas com situação financeira débil, com forte dependência em relação aos bancos e incapazes de cumprirem as suas obrigações financeiras. O economista Fernando Alexandre estuda este fenómeno há anos e aponta desde logo um problema que explica parte do nosso fado: As empresas-zombie consomem recursos que deveriam ser canalizados para sectores transacionáveis com maior potencial de crescimento da produtividade.

Neste contexto, quanto tanto se fala do Plano de Recuperação e Resiliência e da mudança estrutural do país (que, sejamos claros, não existe), é particularmente grave que o Governo volte a pôr dinheiro em empresas que, como é evidente, terão poucas ou nenhumas possibilidades de sobreviver. Mesmo com dinheiro público afundado.

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