A Europa estreou uma central a carvão! E que disse a Greta?

  • Eduardo Moura
  • 2 Junho 2020

Ninguém queria uma nova central a carvão na Europa. Foi imensa a pressão para que não acontecesse. Mas a central nasceu e Greta Thunberg twittou.

Este fim de semana tivemos notícias interessantes. Foi inaugurada mais uma central a carvão na Europa, lá perto de Dortmund, Alemanha, país de grandes racionais. Não se cortou a fita, porque o ambiente estava de cortar à faca, mas acendeu-se o lume nas fornalhas e nas notícias. E o que é que, no sábado, twittou Greta Thunberg? “We have signed up to lead the way to avoid a climate disaster – and yet this the signal we send to the rest of the world?”

Dedo na ferida. No quadro de Caravaggio, S. Tomé duvida. Qual é a mensagem que a Europa está a enviar ao mundo? Se a Europa pode inaugurar uma central, por que outros não devem fazê-lo? Se o racional alemão que justifica a central é bom, por que outros racionais não serão igualmente bons? Portanto, vamos lá inaugurar as 400 centrais a carvão que estão atualmente em planeamento e construção, um pouco por todo o mundo.

Veja-se bem o racional alemão, do governo e da Uniper/Fortum, proprietárias da nova central, citando o seu comunicado explicativo “the transition to a low-emission society must be made without compromising security of supply or an affordable cost of energy, in a socially just manner”. Impossível estar em desacordo, não há nada mais inatacável! Mas, caramba, não é este o argumento do mundo inteiro?

É claro que o racional alemão é mesmo racional. Abriu-se Datteln 4, que anda perto da potência de Sines, e fecharam-se as velhinhas Datteln 1-3 e Shamrock (Herne). A central tem muita utilidade porque entrega energia elétrica e calor a 100.000 famílias e põe o comboio a andar. Na soma de tudo, emite e polui menos que as centrais que substitui. E há de fechar portas em 2038.

E também é claro que o racional Japonês é fantástico. Alguma alternativa se havia de dar a Fukushima. E na Índia, não foi com centrais a carvão que nestes últimos 20 anos se levou eletricidade a toda a gente? O direito à eletricidade não é um direito humano fundamental?

Chamo a atenção para a complexidade do desafio da descarbonização porque nada é certo, seria demasiado inocente pensar que nos basta fazer à estrada, e os racionais são muitos e contraditórios. De um lado temos todas as tecnologias para criar um mundo descarbonizado, mas do outro temos os preços, os investimentos por amortizar, as consciências, as urgências, as necessidades mais elementares, a geopolítica, a inércia, as cadeias de valor, as prioridades nacionais. Se o mundo nunca foi bem-comportado, por que passaria a sê-lo agora?

Por exemplo, preocupa-me francamente o racional da política europeia a que chamamos Just Transition. Aqui há anos, os sindicatos levantaram a bandeira da compensação social pelo desemprego gerado pelo encerramento das centrais e das minas de carvão europeias. Obviamente, em prol do bem comum que é a descarbonização, as comunidades locais das zonas das minas e das centrais não poderiam ser remetidas ao desemprego e à falência social. E por isso, e bem, a União Europeia adotou a ideia sindical da Just Transition. Um grande envelope financeiro está aí para gerar empregabilidade e defender o bem-estar social. Também abrange Portugal.

Mas mais uma vez o racional europeu é apenas o racional da Europa. Na Colômbia, na África do Sul, na Nigéria, em Angola, para todos os países dependentes da exportação de carvão e petróleo, a descarbonização europeia terá um efeito devastador nas suas economias, no emprego, no bem-estar social de milhares de famílias que têm trabalhado para dar energia à Europa. E para esses países, para essas comunidades, o envelope da Just Transition não existe.

Portanto, ocorre-me pensar que alguma coisa complexa há de acontecer em consequência de a Europa pensar em si própria, o que é bom e já é bem difícil, mas que não está nos nossos desejos e previsões. Se calhar podíamos começar a olhar para isso.

https://twitter.com/GretaThunberg

https://www.fortum.com/media/2020/05/fortums-statement-commissioning-datteln-4-power-plant

  • Eduardo Moura
  • Gestor. Diretor-adjunto de Sustentabilidade na EDP

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