Editorial

A reestruturação (dos CTT) veio por correio

A reestruturação dos CTT só pode ser criticada por ser tardia, e seria necessária mesmo que o Estado fosse o dono. Os cortes são a parte 'fácil', difícil será ganhar dinheiro nas encomendas e no banco

Os CTT têm um plano de reestruturação para os próximos três anos que é, no mínimo, ambicioso, mas cujo sucesso é absolutamente crítico para a própria sobrevivência da empresa a prazo. Se há alguma coisa que o presidente executivo, Francisco Lacerda, tem de explicar, não só aos investidores, como aos trabalhadores, não é o plano de reestruturação, inevitável com um dono privado ou público, mas a sua urgência. O que é que não se sabia antes que se sabe agora?

Os portugueses enviam cada vez menos cartas, os particulares, as empresas e o próprio Estado, e ainda não aderiram como outros ao comércio eletrónico. Este é, no essencial, o principal problema dos CTT. É uma dinâmica imparável, já era há anos, por isso, poderia ser antecipada, como medidas de reestruturação como as que agora são anunciadas. Não foi e, como se percebe até pelo timing de apresentação do plano a dias do Natal, houve a necessidade de pôr em prática com urgência e medidas duras, como a rescisão com 800 trabalhadores nos próximos três anos, para tentar inverter a quebra acentuada de resultados. Nos primeiros nove meses deste ano, os lucros foram de 19,5 milhões de euros entre janeiro e setembro, uma quebra de 57% face ao mesmo período do ano passado.

Numa entrevista exclusiva ao ECO24 – uma parceria do ECO com a TVI24 -, o presidente executivo da empresa rejeita a ideia de que o plano vem tarde. Francisco Lacerda afirmou que foi uma queda mais acelerada do volume de correio enviado ao longo de 2017 “que levou à antecipação da apresentação do plano de reestruturação da empresa em um ou dois trimestres”. Terá sido uma queda acentuada em 2017, mas a tendência estava lá pelo menos desde 2001, como a própria companhia reconhece. É claro que, quando a empresa foi privatizada, há quatro anos, foram criadas expectativas de evolução, resultados e dividendos que não estão a verificar-se e, por isso, ao contrário do que gritam o BE e o PCP, o Estado não fez um mau negócio com a privatização. Há quatro anos, fez, aliás, um ótimo negócio. A redução no envio de cartas não depende, nem decorre, da natureza pública ou privada dos CTT, é mesmo uma realidade.

Mau negócio fizeram os investidores que compraram ações dos CTT e ficaram até hoje. Ou os que entraram quando a cotação estava nos sete euros e agora está na casa dos 3,5 euros por ação, como é o caso de Manuel Champalimaud, que tem mais de 10% e está a perder dezenas de milhões com este investimento. É por isso, ou sobretudo por isso, que a política de dividendos dos CTT continua a ser das mais atrativas da bolsa nacional em percentagem dos lucros obtidos. Mesmo com o plano de reestruturação. O dividendo vai cair, sim, 20%, mas o rácio face aos lucros, leia-se o payout, vai manter-se. E este payout chega a ser superior aos próprios lucros. Justifica-se?

Há quem ameaça os CTT com a nacionalização ou o resgate do contrato de concessão. Da nacionalização, não é preciso dizer nada, pois não? Seria feita como? Com os nossos impostos? Se há virtude neste plano é precisamente essa, a de não usar dinheiros públicos, como sucedeu por exemplo no setor financeiro. Os CTT estão a tratar da sua vida, com os seus meios. A concessão, essa, tem regras e exigências de serviço que têm de ser cumpridas, mas convém ter em conta, quando se lança a discussão, qual é a alternativa. Vai agora o Estado criar uma empresa de raiz para prestar o serviço postal universal? O Estado, hoje, não paga nada pela concessão…

Francisco Lacerda tem talvez o seu principal desafio como gestor, vai ser aqui testado como nunca foi. Pelo desafio da reestruturação, pelo envolvimento político, como se percebeu pela debate sobre os CTT no Parlamento, pelas opções estratégicas feitas, nomeadamente no Banco CTT, que tem um caminho mais lento do que aquele que foi anunciado há dois anos.

O mais fácil é mesmo realizar os cortes de despesa, por mais difíceis que sejam do ponto de vista social. Difícil mesmo será pôr os CTT a ganhar dinheiro nas outras áreas, nas encomendas e no Expresso, e também no banco. E é aí que se vai jogar o futuro da companhia como a conhecemos.

PS: Qual foi a última vez que Catarina Martins e Jerónimo de Sousa enviaram uma carta?

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