A Via da Vaca

Na Índia, nenhum superlativo é demasiado absoluto e, já agora, adicionem só mais dois ou três adjetivos para fazer justiça à coisa.

Mami Pereira está de regresso às viagens. E as suas crónicas ao ECO. Todas as sextas-feiras.Mami Pereira

A Índia é um excesso e, além disso, é um exagero. Este papel higiénico de aspeto duvidoso, que seguro na mão, chama-se “The Most Luxurious Toilet Paper”. À minha frente há um balde de plástico que diz “Super Deluxe Bucket”. O resto da “casa” de banho (e do país) saiu do mesmo departamento de marketing. Já podem imaginar.

Na Índia, nenhum superlativo é demasiado absoluto e, já agora, adicionem só mais dois ou três adjetivos para fazer justiça à coisa. Aliás, a Índia não é exagerada, ela é extrema e excentricamente exagerada.

Aqui, tudo é demais: as cores, o caos, o picante, os palácios, os sons, os suores, os perfumes e os cheiretes, os 330 mil deuses, os milhares de mortais, as motas, as mortes, a música, a miséria e a beleza, a indescritível, inquietante e inesquecível beleza.

Quando o visitante aterra numa rua infernal de Nova Delhi e descobre que o seu Supreme Top Heritage Sheraton é pior que a pior pensão da Almirante Reis, e quando pede um café que sabe a chá e um chá que não sabe a nada que saiba descrever, começa o pesadelo. E quando o visitante percebe que aquela bela luz sépia não é filtro mas escape, que toda a gente fala a buzinar e que é mais fácil morrer atropelado do que num acidente de carro, o visitante descobre o terrível e tirânico poder do choque. O visitante quer fugir mas nem à rua se atreve a sair.

Este visitante sou eu, com vinte e quatro anos, na minha primeira viagem. Não era ainda uma viajante, isso seria o que a Índia me iria oferecer mas nessa primeira noite em branco (a primeira de demasiadas) eu ainda não o sabia.

A Índia não é para principiantes. É de amor-ódio. A Índia vai magoar o nosso corpo mimado, desvairar a nossa digestão, dilacerar o nosso coração, testar os nossos valores, confundir a nossa razão, enganar a nossa carteira e, se depois disso tudo, lá quisermos voltar, não é pelo caril ou pelo yoga, mas porque há, neste país, qualquer coisa de ancestral que é feito da mesma matéria do que temos cá dentro. A Índia traz um despertar que nenhum outro país consegue adormecer. Deve ser por isso que aqui se dorme tão mal.

A boa notícia é que há uma maneira de fazer batota. Há um atalho no labirinto. Uma porta secreta para uma Índia mais light. É isso que eu vos quero mostrar. Ora atentem na dourada epifania das duas Vias do Viajante.

A primeira é a excitante Via do Tuktuk, quando se decide começar pelas grandes cidades como Delhi, Mumbai ou Calcutá e experimentar a insanidade, a velocidade e a adrenalina, entre milhares de vendedores, esquemas enganadores e almas a gritar, a pedir e a rezar. A segunda é a vagarosa Via da Vaca, quando se decide começar pela calmaria do sul, pelas praias e pelos campos. A Vaca é o único ser na Índia que desafia o caos. Além de sagrada é para lá de impressionante. Pois se é fácil encontrar a paz interior no meio de um ashram perdido na floresta, ser a calma neste trânsito babilónico, é ser-se iluminado. A Via da Vaca é a via da aceitação, da complacência, do flow relaxado e shanti. Nunca se percebe bem para onde caminham mas o facto de saberem que não vão para o prato já lhes traz a paz. É isso que queremos.

Há dez anos, eu — ingenuamente — fiz a Via do Tuktuk, foi tudo à força, tudo rápido, tudo em grande. Este ano vou fazer a Via da Vaca. Vão ser quatro lentos meses, a caminhar bovinamente de Goa a Tamil Nadu, passando por Karnataka e Kerala. Farei ainda uma valente pastagem no Sri Lanka e um ruminante final no Rajastão. O orçamento andará à volta dos 1000€ por mês (casal), isto porque a Via da Vaca também não tem de ser a Via do Rato, e com trinta e quatro anos, a pessoa já merece uma manjedoura um pouco mais premium deluxe. Mas sim, a Índia pode fazer-se bem com muito menos.

Então, fiquem por aí e ganhem, totalmente grátis, o incrível, fantástico e absolutamente subjetivo guia da viagem à Índia que ainda vão fazer. Porque, apesar de ser o exagero do excesso, depois da Índia, o resto do mundo é que parece de menos. Um sítio pálido, insonso, parado e triste. O melhor mesmo é nem cá pôr os pés, mas se tiverem que vir, venham com tudo. Exageradamente.

Crónicas indianas são impressões, detalhes e apontamentos de viagem da autora e viajante Mami Pereira. Durante quatro meses, o ECO publica as melhores histórias da viagem à Índia. Pode ir acompanhando todos os passos aqui e aqui.

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