Abraço de gigante

A Amazon está a abraçar o mercado português. A estratégia é de aproximação gradual e subtil, mas as impressões digitais da empresa estão por todo o lado.

A Amazon já está em Portugal, só não o anunciou com pompa e circunstância.

Em 2018, o Jornal de Negócios noticiou que a empresa estaria a preparar uma entrada no país. Cerca de três anos depois, ainda não há www.amazon.pt. Mas as impressões digitais da gigante do comércio eletrónico estão espalhadas pelo mercado.

A 27 de janeiro, a Amazon traduziu para português europeu a loja online que opera a partir de Espanha, o principal ponto de contacto com os muitos clientes que já tem em Portugal, devido à proximidade dos dois países. Pouco depois, traduziu também as aplicações móveis.

Passámos a ver, com mais frequência, uma série de marcas portuguesas no catálogo. É o caso da Ramirez e da Science4you.

A 25 de maio, a Amazon deu mais um passo na aproximação aos portugueses: anunciou a chegada do Prime ao país, oferecendo portes grátis, acesso ao Prime Video e uma série de outras vantagens por 3,99 euros/mês – um preço mais baixo do que aquele que os portugueses pagavam até então só pela plataforma de streaming (5,99 euros).

Passos de gigante nunca passam despercebidos. E o ECO noticiou alguns deles neste artigo que publicámos a 27 de junho: desde janeiro que a Amazon se faz representar em Portugal por uma agência de comunicação, a Tinkle. Além disso, não tenho parado de receber comunicados do Prime Video, enviados por outra agência, a Marco. A AWS, que já tinha representação no passado, é agora assessorada pela HK Strategies.

Na televisão, durante o Euro 2020, passámos a ver campanhas da Vodafone com técnicos de telecomunicações ao lado de estafetas da Amazon. E a AWS faz parcerias com empresas como a NOS.

Outro indicador interessante é o efeito da Amazon no mercado de retalho. A empresa é muitas vezes acusada de ser como um eucalipto: seca tudo à sua volta. Em março, Cláudia Azevedo, presidente executiva da Sonae, dona do Continente, admitiu que a Amazon já é “concorrência fortíssima” para o grupo.

Significa que o www.amazon.pt está cada vez mais perto? Não necessariamente. Este ano, a Amazon lançou a loja na Polónia, mas só depois de mais de sete anos em que construiu no país uma operação robusta, com 18 mil funcionários em nove centros de distribuição e três escritórios. Portugal, tanto quanto se sabe, ainda estará longe disso.

Ainda assim, é notória a aproximação da Amazon a Portugal. Em resposta a um conjunto de questões do ECO, a empresa assumiu um “compromisso” a “longo prazo” com o mercado português e disse que tenciona “continuar a conquistar a confiança dos consumidores portugueses”.

Esta é a última chamada para que se estudem os potenciais efeitos no mercado da possível entrada da Amazon em Portugal, uma empresa global com características muito próprias. Tanto para decisores políticos como para gestores.

Dou algumas pistas. Se a Sonae já sente “concorrência fortíssima”, o que sentirá daqui a uns anos?

Não há só efeitos no setor do retalho. Dados têm indiciado um aumento de acidentes de viação envolvendo viaturas ao serviço da Amazon, devido à exigência apertada da empresa quanto aos tempos de entrega. É uma informação em que vale a pena refletir do ponto de vista social.

Por fim, um aviso para os CTT: se a Amazon é hoje um importante cliente, mais tarde será, certamente, concorrente. Basta olhar para o que aconteceu a alguns parceiros de distribuição da Amazon nos EUA, que hoje enfrentam sérias dificuldades para concorrer com a empresa.

A Amazon está claramente a abraçar o mercado português. Mas é um abraço de gigante. Espero que não nos venha a sufocar.

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