Ainda a Venezuela e o Socialismo

O PCP e o Bloco rejeitaram o voto de pesar pela morte de manifestantes e onde se pedia reconhecimento do "mandato democrático da Assembleia Nacional e do seu Presidente Juan Guaidó".

Há cerca de duas semanas, o Parlamento deu mais uma prova (como se fossem precisas) do caráter antidemocrático das forças de extrema-esquerda. O PCP e o Bloco rejeitaram o voto de pesar pela morte de manifestantes e onde se pedia reconhecimento do “mandato democrático da Assembleia Nacional e do seu Presidente Juan Guaidó”. Reconhecimento de uma assembleia que foi eleita (ao contrário da atual situação de Maduro). Após este chumbo, o PCP apresentou uma moção para condenar “a nova operação golpista e da campanha de desestabilização e de agressão contra a Venezuela que atinge o seu povo e a comunidade portuguesa neste país”. Foi chumbada.

Guiadó é o Presidente da Assembleia da República na Venezuela. Constitucionalmente, não havendo Presidente eleito e legítimo, quem lhe sucede é o Presidente da Assembleia. É o mesmo em Portugal, sem que ninguém ponha isso em causa. Não se pretende que Guiadó fique Presidente. Pretende-se sim que haja eleições livres. Maduro e Guiadó serão tão livres de concorrer como qualquer outro cidadão Venezuelano nos termos da Constituição daquele país.
Nada disto deveria surpreender.

O PCP mantém hoje a mesma posição de sempre. Seria curioso alguém perguntar a Jerónimo de Sousa a sua visão histórica do Holodomor, de Estaline, da invasão da Hungria e da Checoslováquia, dos crimes cometidos na Europa de Leste e na URSS. A deputada Rita Rato já disse que nunca ouviu falar dos “gulags”. Mas o Bloco também não surpreende. Afinal um partido que junta Marxistas-leninistas com Trotskistas e com gente que andou pelo MDP/CDE, dissidentes do PCP e do MRPPP, também não pode ser propriamente amante da liberdade.

Basta recordar que, durante anos e anos, o esquerda.net e os próprios dirigentes do Bloco foram apoiantes do regime Venezuelano. Agora dizem que não tem nada a ver com aquilo. Mais, dizem que não querem nem Maduro, nem Guiadó. Mas ainda há três meses diziam que não escolher Haddad era escolher Bolsonaro. Hipocrisia e oportunismo no seu estado puro. Pelo menos o PCP é coerente. Tirano, mas coerente. No Bloco, nem isso conseguem ser. Acreditarão as pessoas nestas patranhas?

Há duas semanas, expliquei aqui no ECO que a Venezuela era apenas mais um capítulo de uma longa e triste história do Socialismo. De como, mais uma vez, um regime de extrema-esquerda apenas produziu miséria e opressão. Quando iremos todos perceber que o Socialismo não é um modelo económico, mas sim um modelo político não democrático?

Há quem diga que a culpa é das sanções americanas e de um plano maquiavélico de Trump. Sucede que as sanções foram impostas há um mês. Há um mês! A situação na Venezuela é dramática há anos!

Há também que defenda que o problema do regime de Maduro foi a quebra do preço do petróleo. Mais uma patranha. É ao contrário. Foi a subida do preço do petróleo entre 2002 e 2008 e depois novamente entre 2011 e 2014 que foi disfarçando o falhanço do regime económico da Venezuela. Quando Chávez chegou ao poder, em 1999, o petróleo transacionava abaixo dos 20 dólares o barril. Chavez tomou posse como Presidente da Venezuela a 2 de fevereiro de 1999. Nesse dia o petróleo transacionava a 11 dólares o barril. Nessa altura a Venezuela produzia mais de 3 milhões de barris de petróleo por dia.

Nestes 20 anos de regime Chavista, o petróleo nunca esteve abaixo dos 20 dólares. Pelo contrário, esteve sempre acima dos 30, e na maior parte do tempo andou nos 80, 100, 120 dólares o barril. Só que a produção da Venezuela é hoje inferior a 2 milhões de barris. E pelo meio, o regime promoveu a corrupção, o nepotismo, financiou Cuba como talvez só a URSS fez durante décadas, financiou partidos de extrema-esquerda, nomeadamente o Podemos em Espanha. Mais uma vez, enquanto o preço do petróleo esteve alto, isso permitiu iludir tudo o resto. Havia dinheiro para os bolsos dos dirigentes da Venezuela, para o apoio a Cuba e tudo o resto. Quando o preço do petróleo começou a cair, a “manta” começou a cair.

Não contem mentiras: Não foi a quebra do preço do petróleo que derrubou o regime Venezuelano. Pelo contrário, foi o preço elevado durante grande parte dos últimos 20 anos que permitiu ao regime ir sobrevivendo e enriquecendo uns quantos, mas isso sucede em todos os regimes socialistas.

De facto, não há regime socialista que não acabe em ditadura, corrupção e miséria para a maioria do povo. Desta vez seria diferente por que motivo? Já a senhora deputada Joana Mortágua prefere referir que Guaidó é um desconhecido e por isso não pode ser reconhecido como Presidente da Venezuela.

Não deixa de ser curioso que os militares que fizeram o 25 de abril eram também desconhecidos. Os oficiais estavam quase todos entre a patente de alferes e tenente-coronel, mas com predominância para capitães e majores. Já do outro lado estavam os privilegiados do regime. E é curioso que isso notou-se durante todo aquele dia. Senão vejamos 3 pequenas histórias do 25 de abril.

A primeira é de Salgueiro Maia. Quando chegou ao Terreiro do Paço, o ministro do Exército (um general) recusou-se a render e barricou-se no edifício. Vai daí, Salgueiro Maia liga para Otelo Saraiva de Carvalho e pede-lhe que mande alguém mais graduado, pelo menos com a patente de major. Otelo pergunta para que raio quer Maia um major? Ao que Salgueiro Maia responde: “eh pá, o ministro é um general, e o código de disciplina militar estabelece que um general só pode ser preso por um oficial superior” (no exército é-se oficial superior a partir da patente de major, e recorde-se, Salgueiro Maia era à data capitão). Otelo mandou-lhe um tenente-coronel (António Correia de Campos, que foi junto com o major Jaime Neves dos Comandos).

A segunda ocorre também no Terreiro do Paço. O regime confiava em Cavalaria 7, mas o primeiro esquadrão, com o alferes David e Silva, já se tinha passado para o lado dos revoltosos. A seguir veio o tenente-coronel Ferrand de Almeida, que se rendeu. Mas a terceira força vinha comandada pelo major Pato Anselmo. O major ao ser abordado, responde com altivez: “eu não falo com um alferes, mandem-me alguém mais graduado”. Mandaram-lhe o major Jaime Neves.

A terceira volta a ocorrer no Terreiro do Paço. O brigadeiro Junqueira dos Reis, que comandava a força de ordem pública, é a ultima esperança do regime. Quando é abordado, responde: “Eu não falo com um tenente” e grita, dando três murros no tenente Alfredo Correia Assunção: “insolente, insurreto”.

Está bom de ver que na Venezuela, o “general Maduro” não pode falar com um “tenente Guaidó”. Afinal, Guaidó é um “insolente, insurreto”. A própria senhora deputada Mortágua, se lá estivesse, dar-lhe-ia ao “tenente Guaidó” um par de estalos enquanto gritava “insolente, insurreto”.

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