Editorial

Alexandre Soares dos Santos, o empreendedor político

O empresário deixa um grupo gigantesco, mas o que fica de mais importante não são os negócios, é a cultura de independência num país do "respeitinho" e de subserviência a quem manda.

Alexandre Soares dos Santos deixou-nos muito mais do que o império económico, um grupo industrial e de distribuição internacionalizado e que vale milhares de milhões de euros. Do líder da Jerónimo Martins — na verdade, deixou de ser presidente mas nunca deixou de ser líder — fica uma forma de ser, uma forma de estar. Uma cultura. E uma liberdade e independência dos poderes político-partidários e de interesses. E nesse sentido, um verdadeiro empreendedor político que, quando falava, “obrigava” todos a ouvir, um político fora da política, legitimado pelo que fez e não pela função que tinha.

Agora é o tempo dos elogios, alguns fáceis, outros oportunistas, ao empresário — nunca gostou de ser “patrão”. Alexandre Soares dos Santos era de trato fácil, mas exigente, disciplinador, até. Comprou polémicas várias, porque nunca deixou de dizer o que pensava, e dizia-o à sua maneira, sem grandes cuidados, frontal e às vezes desconcertante. Sobre os partidos e os políticos, sobre os trabalhadores, sobre os sindicatos. Sobre os erros que o próprio grupo cometeu, quando entrou e saiu do Brasil. “Foi uma grande lição de humildade”, disse sobre esse fracasso, que, na verdade, foi o início de um grande sucesso, a Polónia.

Alexandre Soares dos Santos deixa-nos uma marca económica, um grupo que sempre quis familiar, mas o que fica de mais importante são outras coisas. É o empreendedorismo político, de cidadania, porque a política não pode ser um exclusivo dos políticos. É a cultura de exigência que vem do tempo em que, ainda novo, tem experiências internacionais quando Portugal era um país fechado e atávico, a profissionalização de métodos e processos, de modelos de organização, e especialmente a liberdade de pensar e de discutir, com independência, particularmente com a Fundação Francisco Manuel dos Santos (nome do avô que sempre assinalava), na qual a família já investiu mais de 74 milhões de euros. Talvez tenha sido a experiência internacional, talvez a sua natureza, com toda a certeza a independência financeira, mas Soares dos Santos não foi, nunca, de “respeitinhos” e de subserviência aos poderes que, com ele se confrontavam. E era por isso que a política e os políticos nunca gostaram muito de Soares dos Santos, por mais elogios que lhe façam por este dias, suportavam-no, porque precisavam mais dele do que o contrário.

Num tempo em que o poder empresarial, as elites, estão demasiado silenciosas perante o que (não) está a ser feito, num tempo em que os empresários e gestores deveriam ouvir-se, mas não se ouvem, num tempo em que o país vive para o curto prazo, a ausência de Alexandre Soares dos Santos acentua ainda mais esta dependência entre as empresas e a política, e permite sublinhados a linhas grossas do que foi Soares dos Santos até ao fim.

A independência e a liberdade de Soares dos Santos não era, nunca foi, um fim em si mesmo. Usava-a de forma consciente, e oportuna, com conhecimento de causa, fez, muitas vezes verdadeiros programas eleitorais, que só poderiam ser ditos, e defendidos, por quem não deve nada a ninguém, nem quer comprar ninguém.

Sendo um homem que já tinha feito tudo — disse isso mesmo em entrevista ao Observador em fevereiro deste ano –, a Alexandre Soares dos Santos preocupava particularmente o que as empresas estão a fazer para reter os jovens (o Trabalho foi, aliás, o tema do encontro da FFMS do ano passado). E isso diz quase tudo sobre como olhava para o futuro do país para lá do seu próprio.

  • “Um olhar cínico poderá ver neles apenas gerações sem capacidade de sacrifício, que se permitem idealismos à custa do que foram as duras vidas dos seus pais e avós. Essas gerações que viveram antes, e que, em tantos casos -em nome da necessidade imperiosa de sustentar a família – tiveram de sacrificar o significado que também procuravam no trabalho. (…) Vejo nestes jovens – e na necessidade de atraí-los e retê-los – o maior desafio que se coloca às empresas que queiram sobreviver ao século XXI. Não só porque eles serão, muito em breve, a esmagadora maioria da população activa mundial, mas sobretudo porque precisamos da sua ambição e da consciência social e ambiental que eles manifestam e trazem consigo”. Alexandre Soares dos Santos em artigo de opinião no ECO, publicado em setembro de 2018.

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