Algo está a mudar no Montepio. Um tsunami em desenvolvimento

  • João Simeão
  • 24 Junho 2021

As quatro sessões da Assembleia Geral da Mutualista – consideradas pelos mais atentos como as primárias das eleições de Dezembro - foram um tsunami que surpreendeu a bipolaridade do passado.

Há um mês, aqui no ECO, publiquei um artigo intitulado: “Algo está a mudar no Montepio” em que, a propósito das movimentações desencadeadas pela convocação das próximas eleições de Dezembro, alertei para a necessidade de actualizar as abordagens do passado, focalizadas no binómio “continuidade” versus “oposição”, desajustadas à compreensão da realidade actual. “Que continuidade? E oposição a quê?” foram questões que então coloquei e às quais procurei dar resposta: “Hoje, o tomasismo está velho e os alicerces que o sustentavam ruíram. Os resultados da sua governação são reconhecidamente desastrosos. Não congrega os quadros superiores e a máquina de caçar votos a seu favor gripou.” E, perante o surgimento do “movimento dos quadros”, concluí: “A situação é inédita e não será a olhar pelo retrovisor que a nova realidade será compreendida”. Bingo!

As quatro sessões da Assembleia Geral da Mutualista – consideradas pelos mais atentos como as primárias das eleições de Dezembro – foram um tsunami que surpreendeu a bipolaridade do passado. A parte da “oposição” agrupada no “grupo do Manifesto” afogou-se nos queixumes de serem desprezados e de ninguém lhes dar ouvidos (1ª sessão da assembleia), o mesmo acontecendo à “continuidade” de Virgílio Lima (VL) esbracejando na ladainha “trabalhamos tanto e não nos dão valor”, e a lamentar-se dos media, dos opositores, do auditor e do supervisor, sentindo-se injustiçada e incompreendida (da 2ª à 4ª sessão).

O “movimento dos quadros”, através duma proposta apresentada por Luís Rolo — representante da Lista de Godinho e Bagão, na Comissão Eleitoral de 2015 –, conseguiu importantes alterações ao Regulamento Eleitoral defendido pelos actuais corpos sociais, com destaque para o voto electrónico a partir de casa para todos os associados, e para a simbólica perda da candidatura institucional usar a letra A (2ª sessão da assembleia).

No Orçamento 2021 e no Relatório e Contas 2020, Líbano Monteiro e Pedro Alves (CEO do Montepio Valor e Montepio Crédito) criticaram a falta de credibilidade das previsões e desmontaram, tecnicamente, os pressupostos sobre o presente e desafios futuros da Mutualista apresentados por VL, e outros apoiantes deste movimento salientaram que o actual ciclo “tomasista”, recebeu uma instituição historicamente sólida com “Património Real” e deixa-a com “Património Virtual” – alusão aos créditos fiscais e ao “valor de uso” atribuído ao banco. Não obstante as críticas, estes oradores apelaram à aprovação dos documentos em apreço, por motivos institucionais e de necessidade operacional da actividade, revelando sentido de responsabilidade (3ª sessão da assembleia).

As quatros sessões da assembleia consumiram 14h aos mutualistas, numa agenda de cinco pontos, o que releva a mobilização e determinação dos presentes, uma maratona que foi progressivamente engrossando o tsunami e agravando estragos nos protagonistas tradicionais.
O grupo do “Manifesto”, que votou contra tudo excepto as Contas, viu as suas posições recolherem 13 a 23 votos, nos 250 a 310 associados presentes nas sessões. O tsunami atingiu principalmente a cidadela institucional, provocando divisões no Conselho de Administração(CA) e na Mesa da Assembleia Geral (MAG).

Os sinais exteriores da fragmentação institucional foram evidentes, nas votações do administrador Luís Almeida apoiando os “quadros” em várias situações, e explodiram com estrondo na forma como a MAG conduziu os trabalhos.

A 1ª e 2ª sessões da assembleia foram presididas por Vítor Melícias, em módulo cordato e conciliador. Na 3ª sessão (Orçamento, Rel. e Contas e Avaliação dos Órgãos de Gestão e de Fiscalização), Melícias cedeu a presidência ao 1º secretário da MAG e Secretário-Geral da Mutualista, o jurista Pedro Sameiro, que no início da sessão anunciou que a votação da Avaliação dos Órgãos ocorreria por voto secreto – o que faz todo o sentido numa assembleia em que a esmagadora maioria dos associados são trabalhadores subordinados do órgão de gestão e sujeitos a represálias.

Tradicionalmente, esta avaliação traduzia-se num louvor à governação, o que estava longe de estar garantido este ano dado a maioria da assembleia a ter criticado consistentemente ao longo das sessões, o que fez disparar as sirenes de alarme na cidadela. A sessão presidida por Sameiro não chegou à Avaliação porque VL, só à sua parte, consumiu mais de duas das três horas e meia da sessão, empurrando a assembleia para uma 4ª sessão.

Vítor Melícias foi chamado de urgência para reassumir a presidência da MAG – Pedro Sameiro não compareceu nesta sessão – e para impedir uma avaliação não positiva da governação, não só revogou o voto secreto como não permitiu qualquer votação na Apreciação.

O Melícias, cordato e isento das duas primeiras sessões, cedeu lugar ao Melícias do “quero, posso e mando”. Fez tábua rasa de Regulamentos que admitiu conhecer, mas não cumprir, afrontando a assembleia em “módulo rambo”. Foi jocoso e faltou ao respeito a oradores críticos, enquanto aos amigos permitiu a leitura de extensas intervenções desapropriadas e deslocadas dos trabalhos da assembleia, e no final recusou-se a submeter à votação Moções de Louvor e de Censura, aos órgãos em apreço. Melícias, que gostaria de se retirar do Montepio com uma actuação que fizesse esquecer vergonhas do passado com Tomás Correia, em espírito de missão, teve de empenhar-se e recorrer ao arsenal de golpes baixos para minimizar os danos provocados pelo tsunami.

Nas primárias das eleições de Dezembro o “movimento dos quadros” foi o tsunami que galgou e espraiou-se por ambas as margens da concorrência tradicional, uma pujante e esperançosa força renovadora.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  • João Simeão
  • Antigo diretor adjunto do Montepio

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