Assalto à privacidade

Mais uma semana, mais um abuso de informação confidencial por parte de uma tecnológica americana. Desta vez foi a transferência de dados clínicos de 50 milhões de cidadãos.

E nem sequer foi o Facebook a abusar (desta vez). Foi mesmo a Google, com um secretíssimo projeto chamado Nightingale, que comprou dados clínicos sem que os médicos ou os doentes envolvidos tenham sido informados. É mais um abuso de poder claríssimo. Mas mais do que isso, o que está em causa é o abuso de uma vantagem competitiva por parte das empresas de tecnologia. Neste caso dos registos clínicos, como nos casos do reconhecimento facial a partir de imagens publicamente disponíveis, há um abuso de dados que não são propriedade das empresas que os exploram.

Os dados não pertencem a estas empresas, pertencem aos cidadãos. A única coisa que estas empresas fazem é criar tecnologias que roubam de forma eficiente a informação disponível, utilizando-a depois para aprimorar os seus produtos e com isso enriquecer de forma brutal – beneficiando de vantagens competitivas que distorcem o mercado e consolidam os monopólios.

Como sempre fazem estes gigantes, a Google veio pedir desculpa e explicar sucintamente a sua ideia – mas só depois de ter sido apanhada. E a desculpa foi, como sempre, esfarrapada. Logo a seguir, o anónimo que veiculou esta informação para a imprensa a partir de dentro da Google explicou porque fez o que fez. E a explicação não ajuda a limpar a imagem da empresa: o anónimo diz que revelou o segredo porque não se conformou com a falta de transparência da Google e da empresa que cedeu os dados. Não é só o facto de os cidadãos não terem sido informados, é que também ninguém sabe que algoritmos estão a ser usados para processar a informação, que planos tem a Google para toda aquela informação e porque é que os dados não foram transferidos de forma anónima (algo que é mais do que frequente em circunstâncias semelhantes). A falta de transparência de todo o negócio é impressionante.

Se por acaso existir, nesse pacote de 50 milhões de perfis, um único cidadão europeu, a Google arrisca mais uma investigação e mais uma multa recorde. Margrethe Vestager, a comissária do digital que tem poderes reforçados nesta nova Comissão, está ansiosa para retomar os ataques às grandes tecnológicas americanas. E ainda bem, porque só com a força da União Europeia é que se pode esperar combater estes gigantes que condicionam cada vez mais o modo de vida dos cidadãos.

Aliás, todos estes casos só reforçam quão importante tem sido a visão demonstrada pela Comissão ao avançar com as regulamentações do GDPR, que protegem mais os cidadãos da União Europeia do que quaisquer outros no planeta.

Ler mais: Para uma compreensão das virtudes do algoritmo, vale a pena ler o excelente livro de Pedro Domingos, The Master Algorithm. Escrito em 2015, vive ainda do entusiasmo com o potencial do algoritmo sem se deter nos abusos da aquisição de dados com que estes algoritmos estão a ser escritos – mas isso não reduz o valor da investigação nem a abordagem original do texto. A obra tem tradução em português na Presença.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

Assalto à privacidade

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião