Atestar, limpar prateleiras de supermercado e correr para o multibanco

Ter um ministro a dizer que se deve abastecer já é o equivalente ao tiro de partida para a corrida dos 100 metros. É validar comportamentos de açambarcamento dos litros de combustível.

Lembra-se da tirada de Matos Fernandes quando veio dizer (e reiterar repetidamente) que os automóveis a gasóleo não vão valer nada daqui a poucos anos? Foi a mais sonante de muitas dos membros deste Executivo. E quando se pensava que não poderia haver outra que destronasse a do ministro do Ambiente, eis que o ministro das Infraestruturas sobe ao palco para nos dizer que é melhor abastecer já o depósito do carros, seja de diesel ou gasolina perante a greve que se avizinha.

Era avisado podermo-nos abastecer para enfrentar com maior segurança o que vier a acontecer”, disse Pedro Nuno Santos. “Temos todos de nos preparar” para a greve de 12 de agosto decretada pelo Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas e o Sindicato Independente dos Motoristas de Mercadorias, acrescentou.

O ministro lembrou, obviamente que o Governo está a envidar esforços para evitar que a greve aconteça, mas já percebeu que dificilmente a paralisação será desconvocada. Aquilo que Pedro Nuno Santos diz, é senso comum. Ou seja, sabendo que há uma greve, que há uma data para o início dessa greve por tempo indeterminado, qualquer pessoa sabe que deve procurar formas de mitigar o impacto da paralisação nas suas vidas. Mas dizê-lo como disse não soa a alerta. Soa a alarme.

Ter um ministro a dizer que se deve abastecer já é o equivalente ao tiro de partida para a corrida dos 100 metros. É pouco avisado ter um governante a antecipar o caos, validando comportamentos de açambarcamento aos litros de combustível que saem das mangueiras dos muitos postos de abastecimento.

Está criado o palco para as filas à “porta” das “bombas” de gasolina. Vamos ficar todos com os depósitos a verter de combustível, preparadinhos para passar por cima da greve, garantindo assim umas férias descansadas. Será? Não me parece. Se era para fazer este alerta, então o Governo deveria também ter dito aos portugueses para que no caminho de regresso da “bomba” passarem no supermercado e fazerem uma limpeza às prateleiras, para terem o que comer nas férias. Os particulares e as empresas de restauração e hotelaria, que vão alimentar muitos portugueses — ou não, já que podem ficar sem gás que os permita manterem-se abertos.

E, já agora, devia ter dito aos portugueses que vão também às caixas multibanco levantar dinheiro, porque o dinheiro não nasce dentro daquelas pequenas caixas. Alguém vai lá pô-lo. E esse alguém vai numa carrinha, movida a combustível, que se a paralisação durar muito tempo acabará por deixar de ter.

Pode dizer-se que o ministro estava a aconselhar a previdência. É válido. Mas é um ministro, com toda a responsabilidade, mas também tranquilidade, que esse cargo lhe exige. Não deve incitar a estas movimentações. E principalmente lançando um alerta que outros colegas seus de Governo não lançaram. Nem João Galamba, secretário de Estado, nem o seu ministro, o do Ambiente, Matos Fernandes, fizeram declarações neste sentido.

Tanto Galamba como Matos Fernandes fizeram exatamente o que devem fazer. Vieram ambos reconhecer que esta greve vai ter impacto na vida dos portugueses, sendo que o transtorno tem outro peso por se tratar de um período de férias. Mas ambos passaram a imagem de um Governo que está a tomar medidas para que o Estado esteja cá para as pessoas.

Antevendo serviços mínimos que não chegarão para dar resposta às necessidades dos portugueses, mas também duvidando do seu cumprimento, tanto Galamba como Matos Fernandes têm lembrado que está em marcha um plano do Governo. Que está a ser montado um sistema logístico alternativo de distribuição de combustíveis, sistema esse que deverá assentar na rede de postos prioritária criada com o Alerta Energético lançado na primeira das greves destes motoristas, em abril.

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