Avaliação de seguradoras: O Valor da Incerteza
Nuno Oliveira Matos põe em causa os atuais modelos de avaliação das seguradoras. Afirma que continuamos a tratar o futuro como se fosse uma projeção linear quando depende cada vez mais do inesperado.
No setor segurador, poucos temas são tão importantes e, paradoxalmente, tão desafiantes, como a forma de avaliar o valor de uma empresa de seguros. Não porque a indústria os evite, mas precisamente porque todos reconhecem a sua relevância e complexidade.
Num momento em que o mundo se tornou mais volátil, mais incerto e mais sujeito a disrupções, vale a pena perguntar se continuam os métodos de avaliação tradicionais alinhados com a realidade que pretendem medir?
Continuamos a utilizar o market-consistent embedded value (MCEV) no ramo Vida e o modelo dos dividendos descontados no ramo Não Vida como referências centrais. Mas será que estes modelos conseguem captar a dinâmica atual do setor? Ou estaremos a confiar em instrumentos que, apesar de tecnicamente sólidos, já não acompanham plenamente a evolução do negócio, dos riscos, dos mercados e dos comportamentos?
No ramo Vida, o MCEV sempre pretendeu medir o valor económico intrínseco das carteiras. Mas até que ponto consegue verdadeiramente capturar o valor económico num contexto de volatilidade estrutural? Como estimar a persistência ou os resgates futuros quando os hábitos digitais, a sensibilidade ao preço e a interação com o canal comercial evoluem a uma velocidade inédita? E como interpretar resultados tão dependentes de pressupostos altamente sensíveis, onde um pequeno ajuste pode alterar substancialmente o valor final?
Já no ramo Não Vida, o modelo dos dividendos descontados parece oferecer uma narrativa simples, já que o valor da empresa de seguros decorre da capacidade de gerar capital distribuível. Mas será legítimo assumir trajetórias de dividendos relativamente estáveis quando a sinistralidade se tornou tão volátil, os fenómenos extremos ganham intensidade, os custos de reparação disparam e a litigância cresce? Será sensato projetar dividendos como se o futuro fosse uma extensão suavizada do passado, quando o setor enfrenta riscos novos, emergentes e imprevisíveis?
E há ainda a peça que muitas vezes fica escondida nas notas técnicas, mas que condiciona todo o processo de avaliação, o custo de capital associado aos requisitos de capital de solvência. Se os requisitos de capital de solvência aumentam por força de choques no negócio e no mercado, de novas exigências regulatórias ou de maior volatilidade dos riscos, então o custo de capital sobe e o valor das empresas de seguros diminuirá.
Até que ponto estamos a captar o valor real das empresas de seguros? E como capturar a métrica de valor tão influenciada por fenómenos aleatórios extremos crescentes?
Talvez a questão mais estimulante e aquela que merece reflexão profunda seja a se estamos a avaliar empresas de seguros através de números que refletem o seu potencial de criação de valor ou através de modelos que já não captam plenamente a complexidade do presente?
Continuamos a tratar o futuro como se fosse uma projeção linear, quando sabemos que cada vez mais depende da capacidade de adaptação, da gestão de incertezas e da resposta a eventos inesperados.
A verdadeira pergunta é se os instrumentos atuais continuam à altura da tarefa. Se não estiverem, talvez não seja uma questão de abandonar metodologias, mas de transformá-las, complementá-las ou repensá-las à luz de um mundo que deixou de ser estático.
Se a essência do setor é proteger contra a incerteza, como poderemos avaliá-lo com modelos que não a conseguem captar?!
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