Bem Estar: A Nova Métrica de Desempenho

  • Miguel J. Martins
  • 31 Março 2021

Em direção a um capitalismo responsável e inclusivo.

A frase “o que não se consegue medir não se consegue gerir” é comumente utilizada como um princípio de gestão. Frequentemente atribuída a W. Edwards Deming ou a Peter Drucker, é altamente provável que nenhum dos dois homens a tenha referido, pois ambos eram demasiado inteligentes para saberem que tal afirmação não só é demasiado simplista, mas também enganadora… e, mais problemático ainda, porque facilmente deriva no corolário “o que não se pode medir não merece ser gerido”.

Vamos contudo assumir, para efeitos deste artigo, que a afirmação acima é válida, correta e aplicável ao mundo em que vivemos. Coloca-se então uma questão pertinente: estaremos a medir o que realmente importa e que indiscutivelmente retém valor? Na minha opinião, a resposta é um muito sonoro “Não”!

A solução para esta questão não é fácil de estruturar e é ainda mais difícil de implementar… mas teremos escolha? Creio que não.

Vamos por partes.

Capitalismo: o atual sistema económico prevalente a nível mundial, é baseado na teoria de que o valor é criado pelo mundo corporativo, através de transações de mercado que têm um impacto positivo na economia. Impactos ambientais e sociais raramente são considerados e, quando o são, é por pressão de “stakeholders” externos. Há décadas que o modelo capitalista tem sido alvo de críticas, mas a sua resiliência continua, sobretudo devido à ligação íntima que mantém com uma métrica que todos nós conhecemos como PIB. O PIB é deste modo considerado a medida, por excelência, de desempenho económico que valida a teoria capitalista de criação de valor.

Simon Kuznets, inventou o PIB em 1932 com o objetivo de medir o impacto da Grande Depressão no produto interno dos EUA, tendo por isso em 1971 ganho o Prémio Nobel da Economia (uma versão mais moderna do PIB foi desenvolvida por John Maynard Keynes durante a II Guerra Mundial). Kuznets deixou, contudo, bem claro que nunca deveríamos esquecer as distinções entre quantidade e qualidade de crescimento, entre os seus custos e proveitos, e entre o curto e o longo prazo. Isto porque o bem-estar de uma nação, somente de forma muito precária, pode ser inferido com base exclusiva no produto interno gerado.

Mas o modelo capitalista, predatório e de alguma forma moribundo, tem utilizado o PIB como um balão de oxigénio, para continuar a justificar a sua existência e convenientemente se focar em quantidade e proveitos num horizonte de curto prazo, continuando sistematicamente a etiquetar qualidade e custos ambientais e sociais como externalidades ou informação não-financeira.

Precisamos urgentemente de reinventar o capitalismo e torná-lo mais responsável e inclusivo. Para tal, a solução passa por revisitar um conceito que conhecemos, mas que tendemos a não aplicar num contexto económico: o dos diferentes tipos de capital.

Tradicionalmente, o mundo corporativo, refletindo as práticas utilizadas para cálculo do PIB, mede desempenho económico entrando em linha de conta com o capital financeiro. De fora ficam os capitais natural e humano, relegados para a qualidade de capitais intangíveis.

Ora, considerando que nesta Era da Informação em que vivemos imersos em “data” com inúmeros meios tecnológicos e algoritmos ao nosso dispor, que nos permitem conectar dados e transformá-los em informação, e deles derivar conhecimento, tal não passa de uma desculpa insatisfatória, preguiçosa e perniciosa.

A crise climática que enfrentamos resulta também, entre outros fatores, desta postura de negação face à necessidade de medir os impactos negativos, quer a nível ambiental quer social, da nossa atividade económica por sabermos, antecipadamente, que os custos são elevados. De uma forma muito simplista, vivemos num mundo em que sabemos o preço de uma árvore morta mas não sabemos o preço de a deixar viva. Chocante? Espero que sim.

A nível nacional, e se olharmos para fora de Portugal, vários países começaram já a adoptar métricas de bem estar, que incorporam de forma mais holística os diferentes tipos de capital tangíveis, como forma de complementar o PIB, tais como a Escócia, Islândia, Finlândia ou Nova Zelândia.

Mais recentemente, em abril de 2020 e em pleno início da pandemia, Amsterdão comunicou que iria adoptar o modelo de “Doughnut Economics” criado por Kate Raworth, economista na Universidade de Oxford, como base para a recuperação económica pós-COVID 19. Este modelo, que usa a figura de um “doughnut”, define que uma economia saudável e próspera não deve deixar nenhum cidadão cair abaixo do limite interno que é a rede de segurança social, nem que a atividade económica de uma municipalidade ou país, ultrapasse o limite externo definido como barreira planetária de segurança. A Holanda já se comprometeu inclusivamente, a expandir este modelo de Amsterdão ao país inteiro.

A nossa próxima grande tarefa passará por adaptar e replicar estes modelos para o mundo corporativo, o grande motor das nossas economias. Também aqui, as empresas precisam de se reinventar o que sem dúvida passará pela adopção de novas métricas, que resultarão na criação e estruturação de novos modelos económicos, novos modelos de negócio e, talvez mais importante ainda, de novos modelos de liderança.

Este processo de transição da Era da Informação para a Era da Experiência, tal como referido no Davos Manifesto em 2020, implica que o propósito universal de uma empresa que se pretenda “future-proof” deverá ser o de unir todos os “stakeholders” num processo de criação de valor sustentável e partilhado, que fortalecerá a prosperidade das empresas a longo prazo.

Um bom primeiro passo é a reconstrução de um clima de confiança entre todos os “stakeholders”, sabendo que esta começa com integridade e consistência: consistência não na visão, mas no comprometimento de conjuntamente trabalharmos para a criação de um mundo melhor.

O futuro está nas nossas mãos. E agora?

  • Miguel J. Martins
  • Sustainable Investments Partner da Grosvenor House of Investments

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