Católico, pouco católico e fanático religiosopremium

O ensino de medicina na Universidade Católica, Luís Filipe Vieira e André Ventura, um ministro e a insolvência da Groundforce. Três casos e o que os aproxima.

Católico

Há um grupo de pessoas que quer ensinar cenas e um grupo de pessoas que quer aprender essas cenas. Essas pessoas acordam um preço entre si. Este acordo não impede ninguém de ensinar e aprender as mesmas cenas a outro preço. O país até precisa de mais pessoas que saibam fazer essas cenas e a autoridade que avalia a forma de ensinar cenas acha que o primeiro grupo sabe ensinar essas cenas bem. Mesmo assim, há um grupo de pessoas que acha que isso deveria ser proibido.

Falo, claro, da Universidade Católica que vai abrir um curso de medicina no próximo ano com propinas a rondar os 17 mil euros por ano (próximo do preço de custo). É um ataque à mobilidade social, dizem, apesar de nada os impedir de financiar quem quiser entrar nesse curso ou fazer pressão política para que o estado financie nas mesmas condições que o faz nas universidades públicas. Mas o problema nunca foi esse. O problema é a liberdade. O problema é aquilo que não conseguem controlar. A todas as pessoas que se sentem incomodadas pelo curso de medicina na Católica, posso deixar apenas uma mensagem: se achas que ter um grupo de pessoas a aprender e outro a ensinar numa área onde até faltam pessoas formadas é um ataque ao teu modelo de sociedade, o problema não está na Universidade Católica, está no teu modelo de sociedade.

No próximo ano, 3% dos novos estudantes de medicina estarão num curso de uma universidade privada. Se tudo correr bem, daqui a 20 anos 1% dos médicos no activo terão sido formados na Universidade Católica. Este microorganismo privado na formação dos médicos em Portugal está a deixar algumas pessoas nervosas e indignadas. Imaginem que em vez de 1% daqui a 20 anos, eram 20% ou mais já hoje como acontece em muitos países civilizados. Imaginem que a liberdade de aprender e ensinar era levada a sério. Não sei se haveria camas para tanto esgotamento.

Pouco católico

Na segunda-feira foi a uma Comissão Parlamentar de Inquérito um dos maiores devedores do BES que deixou um custo aos contribuintes de umas centenas de milhões de euros. Enquanto deputados de todos os partidos se preocuparam em perceber o que se tinha passado com aquelas centenas de milhões de euros, o grande paladino anti-corrupção, que não tem medo de dizer as verdades doa a quem doer, passou esse dia a atacar uma família de um bairro social em que uma das pessoas foi condenada por dois crimes menores e outra recebe umas centenas de euros de abono de família. André Ventura, o terror dos pilha galinhas de tez escura, não se importa de fechar os olhos a quem leva o galinheiro todo, sequestra o matadouro e ainda desvia os camiões com a farinha para as alimentar. Desde que sejam brancos, ricos e amigos, não há problema nenhum para Ventura. À semana dedica-se a promover o ódio ao próximo por ter uma cor de pele diferente, ao domingo ajoelha-se em nome do amor ao próximo.

Fanático religioso

Cedendo ao fanatismo religioso da economia de mercado, Pedro Nuno Santos forçou a insolvência da Groundforce, mas garantiu que a insolvência não determinaria o fim das operações da empresa nem despedimentos, e que os serviços continuarão a ser prestados. Caem por terra, portanto, os principais argumentos esgrimidos durante um ano contra a insolvência da TAP (muitos deles falaciosos, mesmo assumindo que a insolvência determinasse que deixasse de haver uma companhia aérea portuguesa). Fica, no entanto, a questão: se não foi por causa dos empregos, das operações ou dos turistas porque é que o governo quis evitar com tanta força a insolvência da TAP ao ponto de se preparar para enfiar lá 400 euros por português? A verdade, como o azeite, ainda virá ao de cima. E já não deve faltar muito..

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