Como definir os KPIs de CO2 nas nossas empresas

  • Eduardo Moura
  • 24 Junho 2020

Mais e mais empresas estão a estabelecer prémios de desempenho vinculados à redução do CO2. Mas a definição dos KPIs não é fácil, nem simples é a sua relação com dimensão financeira e operacional.

1. A primeira abordagem a seguir na discussão dos KPIs [Key Performance Indicators, ou seja, indicadores-chave de desempenho, em português] de CO2 é aceitar que se trata de um processo com várias etapas de implementação, até alcançar o objetivo de neutralidade carbónica da empresa. Neste sentido, é importante adotar uma linha temporal extensa, usualmente 30 anos ao longo do período 2020-2050. Este intervalo de tempo também alinha o calendário da empresa com o calendário da União Europeia e de Portugal.

Tendo um período de 30 anos pela frente, convém estabelecer momentos intermédios, para reconhecer a prioridade do tema e evitar o seu adiamento. O mais habitual, é decompor o período em etapas de 10 anos. Assim, conversar sobre os KPIs de CO2 implica estabelecer metas para 2030 e prever que várias coisas só serão alcançadas depois dessa data, de forma a adequar as expetativas de todos.

2. Estabelecido o horizonte 2030, o próximo passo é identificar o indicador de emissões de CO2 da empresa. Nesta fase ainda não entramos no debate dos KPIs, pois o que procuramos é estabelecer o indicador de referência. O que está estabelecido nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS 9 – indicador 9.4.1), e é seguido por todos os países e institutos de estatística, é o rácio entre emissões de CO2 e o Valor Acrescentado Bruto da empresa (CO2/VAB). São múltiplas as vantagens da adoção da norma internacional.

Por um lado, o macro indicador CO2/VAB é abstrato e pode ser aplicado a diferentes negócios e atividades. Não importa se se trata de uma empresa de serviços, agrícola ou energética. Não importa se é uma empresa fornecedora ou cliente, nacional ou internacional. Em todos os casos, o CO2/VAB representa de facto o contributo final da empresa para as emissões globais em função do seu contributo para a riqueza.

Em consequência, o CO2/VAB tanto tem aplicabilidade hoje como continuará a tê-la daqui por 10 anos. Por mais que uma empresa mude de negócio ou de geografia, que engorde ou emagreça, este indicador permite traçar sempre a evolução, garantindo consistência na análise entre diferentes períodos.

Igualmente, o CO2/VAB consegue capturar tanto as emissões diretas como as indiretas e, ainda, se for esse o caso, o sequestro de carbono. Mesmo depois de eliminar as suas emissões diretas, tentativamente em 2030, a empresa quererá eliminar as emissões indiretas nos anos seguintes ou investir em sequestro. Este indicador permite manter a consistência na análise e reportar o esforço real feito pela empresa.

Complementarmente, o CO2/VAB tem ainda a vantagem do referido alinhamento da empresa com outras empresas e com as estratégias europeias e portuguesas. No final de um ano, é deveras relevante que todos possam partilhar os seus dados de progresso de uma forma comum e coerente.

Mais importante, o CO2/VAB garante que a redução de CO2 está ligada aos resultados operacionais e à criação de valor. Acontece muitas vezes que uma empresa aumenta o seu nível de atividade e, nessa medida, aumenta também as suas emissões. No entanto, a empresa pode ter, simultaneamente, conseguido baixar as suas emissões por unidade de valor acrescentado, e isso significa que reduziu as suas emissões relativas. Ao contrário, se por algum motivo a empresa reduziu a sua criação de valor e, na mesma medida, baixou as suas emissões, o indicador CO2/VAB mostrará se a redução das emissões foi uma ocorrência ou uma medida estrutural.

3. O passo seguinte na definição dos KPIs de CO2 é desdobrar o macro indicador CO2/VAB em indicadores operacionais passíveis de serem utilizados como KPIs SMART. O desdobramento será feito de forma a garantir, isto é indispensável, a sua consistência e alinhamento com o macro indicador. Estes KPIs operacionais podem ter períodos de vida curtos ou longos e podem ser substituídos em função da evolução da empresa e da velocidade com que as metas intermédias são alcançadas. Os KPIs operacionais são modificáveis, mas o macro indicador CO2/VAB permanece em contínuo.

Exatamente por ser um macro indicador, tal como o lucro, o CO2/VAB pode ser aplicado como KPI ao nível corporativo. No entanto, não é obrigatório fazê-lo de forma ligada aos prémios de desempenho. Em Portugal, quando se fala de KPIs, automaticamente todos pensamos apenas em KPIs ligados à remuneração. Notavelmente, não é essa a prática anglo saxónica. Nessa medida, o que se pretende é que a empresa publique e discuta periódica e formalmente a evolução do seu macro indicador CO2/VAB e tome medidas SMART para a sua redução.

Assim, regressando à elaboração dos KPIs SMART, que se pretendem diretamente endossáveis através de planos operacionais e ligados aos prémios de desempenho, é necessário garantir que são consistentes com o CO2/VAB. Usando um exemplo, se pensarmos nas emissões de CO2 que resultam dos transportes utilizados numa empresa, poderemos ser tentados a definir um indicador que é quantidade de combustível comprado ou o número de quilómetros percorridos num ano. Obviamente, este indicador pode estar adequado a certos contextos e condições, mas, frequentemente, vai gerar resultados contraditórios. Uma ilustração disso, é quando a atividade geral da empresa se contrai. Neste caso, o valor do indicador melhora de forma contrária à criação de valor. Indicadores deste tipo devem ser absolutamente evitados.

Neste caso dos transportes, seria mais adequado estabelecer a redução de consumos de combustível por VAB ou a redução de quilómetros percorridos por volume de vendas. Mas esta lista pode ser aumentada com o número de automóveis elétricos adquiridos sobre o total de automóveis comprados, ou a percentagem de transporte de mercadorias em comboio face ao transporte total, etc.

Outro exemplo do que é um KPI SMART alinhado com o CO2/VAB, e que tem vindo a ser prosseguido pelo setor bancário, é o rácio que compara o total do financiamento à redução de CO2 de clientes sobre o total de financiamento a clientes. Os exemplos são muitos e abertos à criatividade e inovação. Em breve, com a publicação da taxonomia europeia, muitos instrumentos serão facilitados para apoiar a definição de KPIs SMART.

O ponto chave é que os KPIs SMART concorram no mesmo sentido do macro indicador CO2/VAB.

  • Eduardo Moura
  • Gestor. Diretor-adjunto de Sustentabilidade na EDP

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